Bagão Félix: as contas do estado são uma farsa
7 mensagens
|Página 1 de 1
Re: Este senhor
Mohamed,
O que vou escrever não são opiniões pessoais.´Trata-se apenas de repor a verdade dos factos.
O Bagão Félix foi ministro das Finanças apenas durante meia duzia de meses. E deu tempo para elaborar ainda um orçamento de Estado.
A designada progressão automática nas carreiras foi implementada por um governo socilaista do qual fazia parte o actual PM.
Nesse periodo assistiu-se também a uma inflacção do número de funcionários publicos por via da integração automática de quem estava a recibos verdes.
Á grande responsável pelo congelamento das carreiras foi a ministra Manuela Ferreira Leite contra a vontade de toda a oposição de então.
O que vou escrever não são opiniões pessoais.´Trata-se apenas de repor a verdade dos factos.
O Bagão Félix foi ministro das Finanças apenas durante meia duzia de meses. E deu tempo para elaborar ainda um orçamento de Estado.
MOHAMED Escreveu:Só para dar um exemplo, tivemos nos últimos 30 anos aumentos automáticos na Função Pública de 3 em 3 anos (subia-se na carreira horizontalmente de escalão)
Um individuo que estivesse na mesma carreira tinha chegado ao topo dentro da sua carreia subind de escalão 5, 6, 7, ... vezes.
A designada progressão automática nas carreiras foi implementada por um governo socilaista do qual fazia parte o actual PM.
Nesse periodo assistiu-se também a uma inflacção do número de funcionários publicos por via da integração automática de quem estava a recibos verdes.
MOHAMED Escreveu:Agora as carreiras estão congeladas, quem entrou nos últimos 5 anos nunca subiu, ou seja quem começou mais tarde não sobe por decreto mesmo que os que faziam o mesmo antes tenham subido 6 vezes e tenham muito menos habilitações, e isto tem a ver com as Leis que este e outros senhores foram fazendo.
Á grande responsável pelo congelamento das carreiras foi a ministra Manuela Ferreira Leite contra a vontade de toda a oposição de então.
Este senhor
nem sei como é que ainda tem algum crédito!!!
Se as contas das empresas são uma farsa, as contas dos particulares são uma farsa, as contas dos clubes (ele andou por lá) são uma farsa...
Se as do Estado são uma farsa e ele andou a comer daquela gamela anos a fio, vem agora dizer que são uma farsa, logo ele responsável por vendas estúpidas de património a preço de saldo para ''equilibrar'' as contas.
Há gajos com muita lata neste país e os Políticos são sem dúvida os que têm mais lata de longe.
Sinceramente tudo o que sai da boca deste tipo das duas uma, ou é falso ou soa a falso ou tem valor muito reduzido. É pena que ainda alguém lhe dê algum crédito pois nitidamente não merece. Nem ele nem os que como ele sempre estiveram bem fazendo os outros passar mal.
Só para dar um exemplo, tivemos nos últimos 30 anos aumentos automáticos na Função Pública de 3 em 3 anos (subia-se na carreira horizontalmente de escalão)
Um individuo que estivesse na mesma carreira tinha chegado ao topo dentro da sua carreia subind de escalão 5, 6, 7, ... vezes.
Agora as carreiras estão congeladas, quem entrou nos últimos 5 anos nunca subiu, ou seja quem começou mais tarde não sobe por decreto mesmo que os que faziam o mesmo antes tenham subido 6 vezes e tenham muito menos habilitações, e isto tem a ver com as Leis que este e outros senhores foram fazendo.
Moral da História, fartaram-se de fazer M.... e agora todos pagamos por isso. Com Impostos Vergonhoso (sempre a crescer) tipo IA, Imp. Combustíveis, e salários miseráveis (para o Povo que esta malta depois trata-se muito bem). Saem dos Governos e de Cargos Públicos e demoram meia dúzia de semanas a saltar para Bancos, Empresas Públicas, para quem legislam à lá carte, etc.
Em vez de darem crédito a estes FP deviam era investigar a forma como todos se tornaram Milionários e sacar-lhes a massa e metê-los na Cadeia. Este Sr era um deles mas o que para aqui não falta são centenas como ele... Quem vive de ordenado está lixado neste País, quem vive de esquemas está em grande. E não me venham com o Mérito que se há País onde o Mérito vale pouco e a meritocracia não existe, esse País é Portugal.
O problema é igual ao que tinhamos em 1974. Existem Estados Democráticos, Existem estados Presidencialistas, e existe o Estado a que isto (Portugal) chegou. Numa palavra: deplorávele vai piorar. 2 milhões abaixo do limiar de pobreza ainda é pouco para esta malta, enquanto não chegarmos aos 5M isto ainda não está no ponto...
O que vale ao Português é que das fraquezas arranja força e como há quinhentos anos utiliza-se o espírito empreendedor para contornar as dificuldades, nem que seja a vender castanhas no Cais do Sodré, a malta vai-se desenrascando como pode. O estado cumpre o seu papel, suga o que pode e destribui pelos afortunados ou outros que se lixe que com umas bandeirinhas e autocolantes a véspera das eleições deixam-se ir na cantiga. Por isso é que a canção Nacional é o FADO (música de taberna) e agora a música Pimba (que nitidamente é um reflexo ainda do Salazarismo)
E dos 15 M de Portugueses 5 vivem no estrangeiro, porque será???
BN
Se as contas das empresas são uma farsa, as contas dos particulares são uma farsa, as contas dos clubes (ele andou por lá) são uma farsa...
Se as do Estado são uma farsa e ele andou a comer daquela gamela anos a fio, vem agora dizer que são uma farsa, logo ele responsável por vendas estúpidas de património a preço de saldo para ''equilibrar'' as contas.
Há gajos com muita lata neste país e os Políticos são sem dúvida os que têm mais lata de longe.
Sinceramente tudo o que sai da boca deste tipo das duas uma, ou é falso ou soa a falso ou tem valor muito reduzido. É pena que ainda alguém lhe dê algum crédito pois nitidamente não merece. Nem ele nem os que como ele sempre estiveram bem fazendo os outros passar mal.
Só para dar um exemplo, tivemos nos últimos 30 anos aumentos automáticos na Função Pública de 3 em 3 anos (subia-se na carreira horizontalmente de escalão)
Um individuo que estivesse na mesma carreira tinha chegado ao topo dentro da sua carreia subind de escalão 5, 6, 7, ... vezes.
Agora as carreiras estão congeladas, quem entrou nos últimos 5 anos nunca subiu, ou seja quem começou mais tarde não sobe por decreto mesmo que os que faziam o mesmo antes tenham subido 6 vezes e tenham muito menos habilitações, e isto tem a ver com as Leis que este e outros senhores foram fazendo.
Moral da História, fartaram-se de fazer M.... e agora todos pagamos por isso. Com Impostos Vergonhoso (sempre a crescer) tipo IA, Imp. Combustíveis, e salários miseráveis (para o Povo que esta malta depois trata-se muito bem). Saem dos Governos e de Cargos Públicos e demoram meia dúzia de semanas a saltar para Bancos, Empresas Públicas, para quem legislam à lá carte, etc.
Em vez de darem crédito a estes FP deviam era investigar a forma como todos se tornaram Milionários e sacar-lhes a massa e metê-los na Cadeia. Este Sr era um deles mas o que para aqui não falta são centenas como ele... Quem vive de ordenado está lixado neste País, quem vive de esquemas está em grande. E não me venham com o Mérito que se há País onde o Mérito vale pouco e a meritocracia não existe, esse País é Portugal.
O problema é igual ao que tinhamos em 1974. Existem Estados Democráticos, Existem estados Presidencialistas, e existe o Estado a que isto (Portugal) chegou. Numa palavra: deplorávele vai piorar. 2 milhões abaixo do limiar de pobreza ainda é pouco para esta malta, enquanto não chegarmos aos 5M isto ainda não está no ponto...
O que vale ao Português é que das fraquezas arranja força e como há quinhentos anos utiliza-se o espírito empreendedor para contornar as dificuldades, nem que seja a vender castanhas no Cais do Sodré, a malta vai-se desenrascando como pode. O estado cumpre o seu papel, suga o que pode e destribui pelos afortunados ou outros que se lixe que com umas bandeirinhas e autocolantes a véspera das eleições deixam-se ir na cantiga. Por isso é que a canção Nacional é o FADO (música de taberna) e agora a música Pimba (que nitidamente é um reflexo ainda do Salazarismo)
E dos 15 M de Portugueses 5 vivem no estrangeiro, porque será???
BN
- Mensagens: 1418
- Registado: 7/3/2007 19:42
- Localização: évora
Hehe, o que bagão não se apercebeu é que a verdadeira estratégia de diminuição de funcionários públicos não é mandando para a reforma e pagando por cada 1, 3 (dois de reforma e um de ordenado). O truque está na diminuição de qualidade dos serviços públicos de saúde até ao ponto em que o pessoal morra mais depressa
. Isso sim, é poupança! isso sim, é estratégia, é visão!
Bagão Félix: as contas do estado são uma farsa
Entrevista muito completa e de uma clareza incrivel na identificação dos problemas básicos no nosso sistema governativo e do nosso projecto (ou falta dele) como nação.
2007-11-04 - 00:00:00
Entrevista CM: Bagão Félix
As contas do Estado são cada vez mais uma farsa
Vítor Mota
Bagão Félix, ex-ministro das Finanças, arrasa o Orçamento do Estado, diz que o Governo é catedrático em truques, denuncia o facto de as contas serem cada vez mais uma farsa e não perdoa 2005.
Correio da Manhã – O que é este Orçamento de Estado para 2008, em que o défice baixa para 2,4 % , depois de ficar em 3 % este ano. Estamos de parabéns, como disse o primeiro-ministro?
Bagão Félix – O senhor primeiro-ministro faz o seu número habitual. Todas as vezes que há um número negativo, no PIB, no desemprego ou em qualquer outro indicador o senhor primeiro-ministro esconde-se muito bem no seu gabinete, sempre que há uma pequena alteração para melhor faz um número de magia que soa a falso.
- Este Orçamento soa a falso?
- Este Orçamento é relativamente decepcionante. Não digo isto no sentido de dizer mal, também já fui ministro das Finanças e sei que é difícil fazer um Orçamento de Estado e como são sempre passíveis de ser criticáveis. Não estou a pôr em causa o esforço do senhor ministro das Finanças, que nos parece sincero. Agora este Orçamento está cheio de falácias. A primeira falácia é o senhor primeiro-ministro dizer que há um défice abaixo dos três por cento ao fim de não sei quantos anos. Não é verdade. Em 2003/2004 houve orçamentos com défices abaixo dos três por cento, com uma única diferença. É que as vias para atingir esses mesmos três por cento eram diferentes. A via na altura foram as receitas extraordinárias.
- Receitas extraordinárias essas que foram arrasadas por muito boa gente.
- Foram muito criticadas e diabolizadas. Mas algumas receitas extraordinárias não fazem nenhum mal. Pelo contrário. Vender património que só dá despesa é uma medida correcta. Passar um fundo de pensões de um recipiente financeiro para outro sem que isso custe mais um tostão aos contribuintes nem prejudique os reformados também não vem nenhum mal ao mundo.
- Mas tudo isso foi diabolizado. Porquê?
- Foi diabolizado mas atingiu-se o défice inferior aos três por cento. Actualmente atinge-se esse défice aumentando impostos. O que é pior para a economia. O que é que é melhor? Vender prédios - como também estão a fazer agora – que não tem rendimento ou aumentar os impostos para prejudicar a actividade económica.? Acho que este é o segundo ponto do Orçamento que é mais discutível. É que se continua a fazer a consolidação sobretudo do lado da pressão fiscal.
- As receitas aumentam por via dessa pressão.
- Quando este Governo entrou em funções o dia da libertação fiscal era a 8 de Maio. Era esse o período correspondente ao volume dos impostos sobre a riqueza nacional. Neste momento já vai no dia 13 de Maio. E só não vai para 14 porque o próximo ano é bissexto. Terceiro ponto: este Orçamento é um orçamento conformado do lado da despesa.
- A despesa aumenta mais de quatro por cento, quase cinco, apesar da reforma do Estado, o famoso PRACE. É só propaganda?
- É um misto de entusiasmo, voluntarismo, também alguma ingenuidade e algum malabarismo. Tudo junto. Nos primeiros dois anos, apesar de tudo, houve uma reduçãozinha da despesa. Porque se actuou apenas sob o efeito imediato, que é o efeito preço. Congelando salários, não promovendo as pessoas, diminuindo as pensões em termos reais. Esgotado esse ponto, porque não se pode continuar constantemente a congelar salários, vai-se para o outro osso duro de roer que é o efeito volume. Isto é, o peso do Estado, a dimensão do Estado, as funções do Estado. E aí entramos no PRACE.
- Não anda para a frente, é um fracasso?
- Olhe, o que não foi fracasso é o programa anunciado pelo primeiro-ministro “Perdi a Carteira”. De facto têm-nos ido aos bolsos cada vez mais. O PRACE está no Diário da República desde 16 de Maio de 2006. Há ano e meio. E o que é que aconteceu? Não aconteceu nada. Há mil e poucas pessoas no quadro de mobilidade, há 250 direcções-gerais a menos.
- E isso não é importante?
- É nominal.
- Não tem efeitos?
- Não tem efeitos. E depois essa história de por cada dois que saem da administração pública entra um é uma treta. Acho piada que há alguns políticos que são criticados por sound bites. E estes sound bites de Estado ninguém os critica. É uma falácia completa.
- Porquê?
- Olhe, porque na sua empresa ou na minha dois saem e entra um há poupança. Agora no Estado esta fórmula dá o seguinte: o que entra é mais um salário e os dois que saem vão para a pensão. Isto é: o Estado passa a pagar três. Dois sob a forma de pensão e um sob a forma de salário. Por cada dois que saem passa a pagar três. A não ser que vão para o mercado. Como para o mercado não vai ninguém gasta-se mais. Por outro lado eu contesto o número de funcionários que o Governo diz que já diminuiu e gostava que os deputados confrontassem o Governo com isso.
- O Governo fala numa redução de 12 mil funcionários. Quantos precisariam de sair?
- É outra falácia. Porque esses estes funcionários vão para a Caixa Geral de Aposentações. Mas não é fácil reduzir. Não se esqueça que 95 por cento das despesas do Estado são salários, pensões e juros. A despesa é brutalmente rígida. Eu também não sou daqueles que digo que é preciso cortar a despesa. O problema é como. E é por isso que as receitas extraordinárias fazem sentido. Para dar mais tempo a uma redução gradual da despesa, que é muito gradual. As receitas extraordinárias não foram nenhum capricho da doutora Manuela Ferreira Leite ou meu. Foi um método, em vez de impostos, que esses sim oneram a actividade económica, para dar tempo para deslaçar a despesa. Que é muito difícil. O Estado não se reforma por decreto. Não se auto-reforma. O Estado tem uma capacidade de camaleão. Molda-se a todas as situações.
- Este Governo também faz desorçamentação? Foi acusado disso quando foi ministro das Finanças.
- Eu fui acusado, é verdade. Mas este Governo é doutorado em desorçamentação.
- Quando em 2005 o célebre relatório Constâncio fazia uma previsão de défice acima dos 6 por cento...
- Uma previsão de défice sem Governo.
- Sim, era como se tudo andasse em roda livre.
- É o mesmo governador que agora diz que o que interessa é o défice. Se é pela via do aumento de impostos ou de outra coisa qualquer não interessa. Para ele é a mesma coisa.
- Mas nesse relatório falava-se nas dívidas astronómicas a fornecedores, não se contabilizaram despesas na segurança social e até faltava dinheiro para salários. E agora, como é?
- Repare bem. Vou dar-lhe dois ou três exemplos para isto ficar claro. Despesas com pessoal. No dia em que o ministro das Finanças apresenta o Orçamento aparece apenas aquilo que ele seleccionou e aquilo que ele disse. É natural. Os jornais e televisões não têm tempo no dia seguinte de estudar bem o documento. E aquilo é o que fica. Depois começa-se a decantar tudo e aquilo que é dito tem pouco a ver com a realidade.
- O que é que se passa com as despesas de pessoal?
- Veja. O ministro diz que as despesas com pessoal aumentam 0,1 por cento, o que já de si é mau porque no ano passado havia uma previsão de descida de 0,8, apesar de na prática se ter verificado uma subida superior a três por cento. Mas as despesas só aumentam 0,1 por cento. As pessoas dirão: excelente. Acontece que a conta da factura de pessoal na administração pública tem mais duas parcelas. Uma é o aumento da dotação da Caixa Geral de Aposentações – são os tais que passam de activos para aposentados. Se juntar esta parcela os 0,1 passam logo para 0,2 de aumento.
- E a outra parcela?
- Depois tem de ir ao Ministério das Finanças, à dotação previsional, para ir buscar aquilo que está previsto para aumento de pessoal este ano. Como este ano anda à volta dos 2,1 por cento, os 0,1 transformam-se em mais de quatro por cento. E ainda é mais. Porque neste momento há cada vez mais instituições públicas e departamentos que estão a sair do perímetro orçamental do Estado.
- Como as Estradas de Portugal?
- As Estradas de Portugal, um caso escandaloso, no meu entender, na maneira como está a ser feito – espero que o governador do Banco de Portugal tenha a mesma preocupação que teve há dois ou três anos, e o Eurostat também – os laboratórios do Estado, que saíram todos, ainda não há nenhuma universidade mas o estatuto do ensino superior prevê a criação de fundações, e os hospitais EPE, que não começaram com este Governo, começaram no Governo a que pertenci. Agora acontece que quase todos os hospitais estão nesta situação.
- São milhões e milhões de despesas que estão fora do Orçamento?
- Veja um hospital EPE em concreto. Quando fazia parte do perímetro orçamental do sector público administrativo apareciam no orçamento despesas com pessoal, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar e tudo o resto. Agora o que aparece no Orçamento de Estado é só o que eles facturam ao Serviço Nacional de Saúde. Aparece em serviços e aquisições de terceiros. Por isso é que esta rubrica aumentou 7,4 por cento.
- Isto é, o Orçamento cada vez diz menos sobre as contas do Estado?
- É o nevoeiro orçamental. Para se fazer a comparabilidade entre as verbas é preciso tirar um curso ou ter sido ministro das Finanças. Qualquer dia no Orçamento de Estado temos o Estado de fora.
- É uma ficção. Desaparece artificialmente o Estado.
- O Estado factura-se a si próprio. E é isso que está a acontecer cada vez mais. Veja mais. Os hospitais EPE devem à Associação Nacional de Farmácias cerca de 600 milhões de euros em medicamentos. Esses 600 milhões de euros não aparecem no Orçamento de Estado. Porque são dívidas de empresas fora do Estado. É por isso que agora se diz que a Saúde cumpre o Orçamento. Cumpre com muitas aspas, muitas aspas mesmo. Os hospitais e as Estradas de Portugal, dando prejuízo, como cronicamente dão, esse prejuízo não entra nas contas do Estado. O Estado consome apenas capital. Portanto isto é tudo uma farsa. As contas do Estado são cada vez mais uma farsa.
- Uma farsa?
- Sim. É tudo uma farsa. E são estes senhores que falaram em truques. Este Governo é catedrático em truques, são catedráticos em truques. O primeiro-ministro veio dizer garbosamente que a dívida pública diminuía pela primeira vez nos últimos anos. E sabe porquê? Porque há um verba muito elevada, cerca de um por cento do PIB, à volta de mil e seiscentos milhões de euros, relativos a compromissos de 2007, cuja dívida pública vai ser emitida em Janeiro de 2008.
- Transferiu a dívida?
- Sim. Nós não somos todos papalvos. Apesar de tudo isto ainda não é uma República das Bananas.
- Se agora é assim como é que explica o relatório bombástico de Constâncio em 2005?
- Isso foi feito para violar todas as promessas eleitorais.
- Foi uma encomenda?
- Foi para violar tudo. A criação de emprego, o não aumento de impostos, a questão das SCUT. Infelizmente no nosso País a violação de promessas eleitorais é um dado adquirido.
- Mas como é que o governador do Banco de Portugal se presta a esse serviço?
- Eu sou suspeito para falar nisso. Sou parcial. Mas admito que têm havido dois pesos e duas medidas. Mas não é só isso. Quando os números são interessantes para o Governo, o Governo diz muito bem da independência do INE, do Eurostat, do Tribunal de Contas. Quando não estão de acordo com o Governo, o Tribunal de Contas está atrasado, está errado, o INE não percebe nada disto, o Eurostat enganou-se. Veja o caso do FMI. Eu até concordo com a previsão de crescimento do Governo para 2008.
- Concorda com os 2,2 por cento?
- Até concordo. Agora o Governo não pode é dizer que a previsão do FMI de 1,8 não presta, mas para comparar Portugal com os países da zona Euro, cuja previsão do FMI é 2,1, aí a previsão já presta.
- Com golpes orçamentais ou sem golpes, o facto é que a situação económica, e não só, do País é má. Como é que se pode dar a volta a este País?
- Não é fácil. Não é fácil qualquer que seja o Governo. O que é errado é haver falsas expectativas numa solução falsa. A situação é difícil porque nós somos uma economia muito vulnerável, muito aberta, que não estava preparada para a globalização, que goste-se ou não é uma realidade e que às vezes é muita predadora. É um disparate completo, seja qual for o partido, seja qual for o Governo, prometer criação de emprego. Os Governos agora não prometem criação de emprego, a não ser que seja o próprio Estado. Hoje em dia como a maior parte do emprego se gera no sector terciário da economia, aquela regra clássica de que quando o PIB cresce acima de 2 por cento se gera emprega já não é tão verdade.
- E estamos longe disso.
- Pois é. Hoje os países, as sociedades e as empresas cada vez mais se distinguem menos nas tecnologias, mas coisas materiais. É nas pessoas. O crescimento dos países e das empresas baseia-se nas pessoas. A Irlanda é um caso típico. Apostar nas pessoas.
- Apostar na qualificação?
- Apostar nas pessoas é apostar na produtividade e isso significa apostar na educação e na formação. Essa é grande chave de futuro do nosso País. Um País como o nosso já não tem política monetária, não temos política cambial própria, a política orçamental é fortemente condicionada por razões europeias, políticas alfandegárias já não existem praticamente. Perante isto o nosso elemento de competitividade é a produtividade e a qualidade. Temos de nos empenhar nisso. E o problema é que temos muitos empresários tacanhos, temos uma economia muito paroquial.
- Muito condicionada pelo Estado?
- Muitas empresas são micro, pequenas empresas. Temos muita dificuldade de cooperação e associação entre entidades. É como no futebol. São rivais e não cooperam. Apenas rivalizam. E esse é o grande problema de Portugal.
- A economia não depende muito do Estado? Dos negócios do Estado, dos partidos do poder?
- É verdade. É uma forma de exercício de poder que tem sido perversa para o nosso País. E depois há os subsídioaucratas, os que conhecem bem os bastidores, os corredores do poder, em Bruxelas, a nível central e local. Há vários patamares em que se jogam a maior parte destes interesses e que não impulsionam o crescimento da economia.
- O mercado é pouco aberto, muito viciado?
- Absolutamente. E depois há fantasias e dão-se sinais incoerentes e contraditórios à sociedade. As pessoas apercebem-se disso ao contrário do que os políticos pensam. Esta questão, por exemplo, de dar computadores, com várias cenas à mistura, violando em alguns casos o Código de Trabalho...
- Está a falar das crianças numa sala de aula virtual?
- Sim. O Governo deu o exemplo de violação do Código de Trabalho e da lei. Mas dizia eu. Os meninos e meninos vão para casa com computadores, mas ao mesmo tempo preparam-se para passar meninos e meninas sem ir às aulas.
- É o laxismo total?
- Como é que uma escola pode dizer a um aluno que se não vier às aulas, se não tiver sentido de responsabilidade passa na mesma. Até mais: vai ter uma prova especial. Ou introduzir a máquina de calcular no ensino básico. Sabe que um ministro inglês do primeiro Governo de Tony Blair proibiu o uso de máquinas de calcular nas escolas primárias. Foi a sua primeira medida. Uma medida de reforma notável que não custou uma libra.
- Foi de facto notável.
- Pois foi. O que é que se aprende na escola? Valores, disciplina, regras de trabalho, sentido de responsabilidade, cidadania, memória, saber estar, saber ser, ter ginástica mental, saber falar português. Se se der ao trabalho de ler um manual de ensino de português verá que é isotérico. O que nós estamos a formar é robôs, que sabem digitar, o deleate, o print, mas não sabem raciocinar.
- Complica-se o que devia ser simples?
- No ensino básico devia ensinar-se a nossa língua, o inglês, que é o latim moderno, a matemática, que é a linguagem da abstracção, a filosofia que é fundamental, a história e geografia para as pessoas se localizarem no tempo e novas tecnologias. E depois quem quiser saber botânica sabe, química sabe.
- Andamos há 30 anos em reformas e experiências nas escolas.
- É como esta história de não haver exames. Os exames são uma forma de aferir os alunos, mas também de aferir os professores. Havendo exames um mau professor é mais facilmente detectável do que um bom professor.
- E os rankings das escolas, tão contestados, quando são elementos importantes para se perceber o que se passa.
- Sabe, nós somos uma sociedade maniqueísta, a preto e branco. Nós dividimos bipolarmente os problemas e a sociedade entre bons e maus. No futebol, na política, na sociedade. É assim.
- Foi ministro da Segurança Social e acompanhou de perto o caso Casa Pia. Porque é que este caso provoca um mal-estar tão grande na sociedade portuguesa. Nomeadamente em sectores com altas responsabilidades?
- Primeiro pelo tipo de crime que está em causa. É um crime muito violento.
- De uma violência extraordinária.
- Exacto . Do ponto de vista sociológico, de relacionamento entre as pessoas. Depois porque eu acho que põe em causa a ideia do Estado tutor. No fundo a nossa sociedade tem uma relação de amor e ódio com o Estado. Por outro lado eu acho que esse mal-estar também resulta da sensação da fragilidade da sociedade. Sobretudo em relação aos mais jovens. Este caso, por exemplo, da menina inglesa, a Maddie. Incomoda porque vai violentar um dos baluartes, um dos alicerces das sociedades democráticas, que é a noção de segurança.
- É a falta de segurança que incomoda?
- Não há liberdade sem segurança.
- E também abala as instituições, como no caso Casa Pia?
- Abala as instituições, abala as famílias, abala a escola. A crise do nosso País, para além das crises económicas, que são conjunturais e que muitas vezes somos nós, os economistas, que vivemos dela, resulta do facto de não haver elites no sentido verdadeiro da palavra. Há más elites, mas não há elites. Há falta de elites. E depois as instituições que melhor ou pior corporizaram uma ideia de cidadania, de direitos mas também de deveres, a conjugação de direitos e deveres, de ética de responsabilidade, de ética de cuidar, que é importantíssima, estão abaladas.
- A começar pela família?
- Exacto. Está abalada a família, todos os dias, é violentada do ponto de vista dos exemplos que nós vemos, a escola, as igrejas, as forças armadas, os tribunais, quer dizer, aqueles elementos que serviam de referência.
- Queria falar-lhe de um assunto que passou muito rapidamente pelas agendas...
- É uma sociedade de zapping. Não somos só nos que fazemos zapping, a própria sociedade é zapping. Por isso a memória deixou de ser um património. Daqui a quatro meses aquele caso tão mediático morreu. A memória, que é onde tudo guardamos para nos pertencer, acaba por ser ela própria pueril. E um povo sem memória, a modernidade sem memória, como diz João Paulo II, não existe ou é uma má modernidade.
- As palavras proferidas em Fátima pelo secretário de Estado do Vaticano, em que apelou à rebelião dos cristãos, são importantes?
- Absolutamente. Eu costumo dizer que a família devia ser a primeira instituição de resistência, de inconformismo. Nós vivemos o primado do efémero, do circunstancial, do avulso, do que dá prazer sem consciência, sobre o mais profundo, o mais rigoroso, aquilo que é mais importante. Isto é, é a vitória do urgente sobre o importante. E o que distingue o urgente sobre o importante, como dizia o Vergílio Ferreira, é o homem, a pessoa humana. Porque o urgente existe também para o animal. É urgente comermos, é urgente dormirmos. O importante é o que o animal não tem e tem o homem. E quando o homem passa a ter apenas a noção do urgente, do imediato, do rápido, da quantidade, da pressa, da algema das almas que são os relógios, e deixa de ter a expressão dos valores, do sentido da responsabilidade...
- Hoje há mais a irresponsabilidade a todos os níveis.
- Uma coisa que me faz impressão hoje, sobretudo nos jovens, é não serem capazes de conjugar direitos com deveres. A noção de direito e dever são noções simétricas, isto é, não há direitos sem deveres, nem há deveres sem direitos.
- É um mal da sociedade, não é só dos jovens, não concorda?
- Claro. Toda a gente fala em cidadania de direitos, ninguém fala em cidadania de deveres. E isto acontece, em muita opinião, porque muitas famílias se demitiram das suas funções. Todos sabemos que há famílias em crise, em dificuldade. Sempre houve. Eu costumo dizer que não é por haver desemprego que nós damos menos valor ao emprego. Não é por haver doença que damos menos valor à saúde. Não é por haver famílias com problemas que damos menos valor a esta instituição, que é uma instituição onde as pessoas contam pelo que são e não pelo que têm.
- Devia ser assim.
- Pois devia. E o que é que acontece? Muitas famílias demitiram-se das suas funções de pais. Delegaram na escola completamente a função da educação. E como sabe a escola exerce a função por delegação da família. A família é soberana. Delega parte da sua função na escola. Há muitos filhos que são órfãos de pais vivos, que são filhos de pais em tempo parcial, que à hora do jantar falam de negócios ou vêem uma telenovela em vez de fecharem a televisão e olharem uns para os outros. E a medida de tempo hoje não é a medida física, é a medida do tempo mental. Basta estar dez minutos com atenção a um filho. É mais importante do que estar dez horas com ele sem lhe ligar nada nem que esteja fisicamente perto. Desculpe estar a filosofar.
- Acho muito importante, Hoje pára-se cada vez menos para pensar, para reflectir.
- Sabe, é como a noção de vizinhança e de proximidade. A noção de vizinho é geográfica. Eu posso ter um vizinho aqui do lado, está perto de mim, mas não me diz nada. Posso ter um próximo no Canadá. É a proximidade que conta e não a noção de vizinhança. Nós temos uma visão completamente materialista até nesse aspecto das relações.
- Está muito céptico sobre a sociedade?
- Eu não sou céptico, mas às vezes apetece citar Miguel Torga quando ele dizia: “ Sou uma desconsolação humana, só presto para ser livre”.
- Era muito céptico.
- Era, era. É telúrico. Mas eu gosto. Era seco.
- Está há dois anos fora da política. Tem saudades? Volta um dia ou não?
- Antes de ir para ministro disse que não voltava à política e voltei. Acha que, de facto, a palavra sempre e nunca, não é só na política, não se deve utilizar.
- Mas tem saudades da política?
- Não, sinceramente não tenho. Sabe que nunca fui membro de um partido. Não é por birra, não é por mania, é porque quero ser livre. Eu sou independente por feitio e dependente de convicções. Não tenho militância nesse sentido. Por outro lado, lembro-me que fui deputado entre 1983 e 85, ainda era um jovem, e isso odiei de tal maneira que disse nunca mais na vida. Só em estado de insanidade mental é que voltaria.
- Mas a sua passagem pelas Finanças não lhe deixou feridas?
- Sabe que há um certo tipo de lugares, para pessoas rectas e com espinha direita e que muitas vezes são incómodas em ambientes mais sofisticados...senti que, não direi que sinta alguma mágoa, mas sinto algum desencanto relativamente à ingratidão que muitas vezes se tem para essas pessoas.
- Neste tempo tem sentido essa ingratidão?
- Sim, claro. Sobretudo depois de ter sido ministro das Finanças. Ficamos marcados. Sobretudo se não fizermos certo tipo de condescendências.
- É uma marca forte?
- Sim. O País é muito pequeno, as pessoas conhecem-se todas. E as pessoas não gostam de ouvir não. E as pessoas que dizem não, porque acham que é o seu dever, ficam marcadas. Tenho sentido isso na pele. Além, claro, são os custos da política, da tentativa de assassinato técnico que fizeram comigo com o Orçamento. Acho absolutamente injusto. Vai ter o efeito bomerangue, como já está a ter. Feito por pessoas que não merecem o meu respeito. Sinceramente. Não merecem.
- Foram desonestas?
- Foram claramente desonestos, não merecem o meu respeito, não merecem a minha consideração. Costumo dizer na brincadeira que só falta averbarem no meu certificado de registo criminal que fui ministro das Finanças daquele Governo. Parece que foi crime.
PERFIL
António José de Castro Bagão Félix nasceu em Ílhavo, distrito de Aveiro, no dia 9 de Abril de 1948. Casado, com duas filhas, fez o Secundário no Liceu Nacional de Aveiro e licenciou-se em Finanças em 1970 no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras em Lisboa. Foi administrador de bancos e companhias de seguros, director-geral do BCP, administrador e vice-governador do Banco de Portugal. Entrou na política em 1980, no Governo da AD, como secretário de Estado da Segurança Social.
Deputado do CDS entre 1983 e 1985, voltou ao Governo com Cavaco Silva como secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional. Em 2002 foi ministro da Segurança Social com Durão Barroso e ministro das Finanças com Santana Lopes
António Ribeiro Ferreira
Editado pela última vez por Pata-Hari em 4/11/2007 10:39, num total de 1 vez.
7 mensagens
|Página 1 de 1
