Caldeirão da Bolsa

Portugueses a trabalhar na Islândia

Espaço dedicado a todo o tipo de troca de impressões sobre os mercados financeiros e ao que possa condicionar o desempenho dos mesmos.

por PIKAS » 1/6/2007 20:34

Não pretendo alimentar discussões.
Coloco esta notícia de hoje, apenas com o intuito de permitir, a quem tenha interesse, tirar as suas próprias conclusões.

Lisboa, 01 Jun (Lusa) - O embaixador de Portugal em Oslo, João Lima Pimentel, está a elaborar um relatório sobre a situação dos portugueses que trabalham em obras de construção de túneis na Islândia, disse hoje à Agência Lusa o secretário de Estado das Comunidades, António Braga.

De acordo com o secretário de Estado, o relatório vai ser entregue ao governo português.

"Por uma questão de cordialidade, o relatório só será divulgado após a reunião, na terça-feira, com o Sindicato da Construção do Norte", adiantou António Braga.

O embaixador de Portugal em Oslo esteve hoje na Islândia, onde se encontrou com os trabalhadores portugueses e manteve uma reunião no Ministério dos Assuntos Sociais islandês.

"Os trabalhadores portugueses estão bem e não subscrevem o que tem sido noticiado pela imprensa portuguesa", sublinhou o secretário de Estado.

No sábad passado, o Sindicato da Construção do Norte (SCN) denunciou que mais de uma centena de portugueses que laboram na construção de túneis na Islândia estão sujeitos a condições de trabalho desumanas, alimentação de péssima qualidade e horários de de 14 horas.

Na quinta-feira, trabalhadores portugueses que se encontram naquelas obras na Islândia rejeitaram, em declarações à Lusa no local, as acusações e defenderam os patrões.

Já hoje, o sindicato reiterou que há trabalhadores portugueses tratados "como escravos" na Islândia, apesar dos desmentidos de algumas das alegadas vítimas.

O presidente do SCN, Albano Ribeiro, disse à Lusa que a empresa responsável pela obra "obriga os operários a trabalhar nos túneis em condições insalubres, e impõe-lhes que almocem em 15 minutos, nos próprios túneis, sob pena de serem despedidos".

Cumprimentos,
 
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por Beer_Goggles » 28/5/2007 15:20

já agora umas chicotadas hóme ...

tenham juizo ... estamos em 2007 depois de Cristo

ainda por cima trabalho durissimo e mal alimentados, com os 3000€ que a firma Italiana saca do ordenado dos portugueses e dos outros por mês (já que pagam 6000€ aos Italianos e duvido percam c isso ) podiam alimentar melhor o pessoal ...

as pessoas são mal informadas , e a má fé dessas firmas devia ser punida
 
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por rmachado » 28/5/2007 13:23

A mim a única coisa que me pasma mesmo..

É ainda irem portugueses para estes trabalhos, cá são capazes de rejeitar um trabalho se estiverem com o subsidio de desemprego, mas ir para a Islândia e fazer este trabalho durissimo mesmo que seja com a promessa de um bom salário (mas 3000 euros será um bom sálario para trabalhar assim?) até parece uma coisa boa..

Podemos lembrar outros exemplos como a apanha da fruta em Espanha, a construção civil noutros pontos da Europa, enfim...
 
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Alguns comentários...

por vsp » 28/5/2007 8:32

Bom dia a todos,

Depois de ler os vossos posts achei por bem deixar os seguintes comentários:

- 3000€/mês na Islândia não é nada do outro mundo principalmente para um trabalho deste género. Estamos a falar de um dos países mais caros do Mundo. Para terem uma ideia, em 2006 Reyjiavik era a 3a. cidade mais cara do Mundo e em 2007 caíu para 6 lugar apesar de uma desvalorização da coroa islandesa de 17%.

- Nenhum trabalhador islandes aceitaria trabalhar nestas condições que serão quase de certeza proibidas na Islandia.

- Lá por isto acontecer num país que temos como desenvolvido não temos que o achar aceitável.

- Os jornais empolaram a coisa... A vantagem de isto ter acontecido na Islandia e não noutro sítio qualquer é que as pessoas puderam vir-se embora quando quiseram.

Abraços,[/code]
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Ainda ha vagas?

por C.N. » 28/5/2007 2:13

O ordenado [base] é 1500 euros. Com as horas extras, os domingos e feriados, dá para tirar três mil euros"...


Tres mil euros limpos por mes, com comida e roupa lavada, nao havendo onde gastar o dinheiro, a unica despesa e a viagem de ida e volta e telefonemas. Se la ficar 6 meses a trabalhar acumula 18.000 euros dos quais gasta 1.000 :-s Pode entao fazer 6 meses a trabalhar e 6 meses de ferias em Portugal. Penso que dos 17.000 que ficam, podera entao fazer uma vida agradavel durante os 6 meses de ferias e tambem poupar/investir (iniciar a compra de uma casa?).

Esta e uma situacao optima para quem esta no inicio de carreira ou para quem esta no fim e esta farto da mulher :P Como o MozaHawk mencionou, as plataformas petroliferas sao semelhantes, e eu acrescento, os navios de cruzeiro tambem. Ja muitos passaram por isso, muitos outros passarao. Parece-me que o Jose Santos ja nao estava acostumado a trabalhar no duro (natural as funcoes de pedreiro) ha uns 15 anos, altura em que os mesmos passaram a ser a rare commodity no nosso pais.

Abraco ha Pata por nos alertar para estas perolas da nossa sociedade.

CN

PS - vou contar esta historia ao primeiro pedreiro vietnamita que me apareca pela frente...
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por Valete » 27/5/2007 21:20

Uma coisa é ser duro. Outra coisa é as condições de trabalho não serem iguais para todos e ter 15 minutos para comer. As empresas de trabalho temporário aproveitam-se da ignorância destas pessoas, que pensam que a Islândia é ali ao lado. Mas só vai quem quer, isso é verdade, como tudo o que fazemos na vida.
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por MozHawk » 27/5/2007 21:04

Bom, o pessoal aqui das plataformas petrolíferas também trabalha 28/28, mais do que 12 horas por dia, sem fim-de-semana, feriados e sem sair da plataforma...E por isso mesmo é que são muito bem pagos havendo vários níveis de vencimentos consoante a proveniência dos "expertos".

Mas, de qualque forma, concordo contigo. Só vai e fica quem quer...

MozHawk
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Portugueses a trabalhar na Islândia

por Pata-Hari » 27/5/2007 20:20

Trabalhar num túnel com "a água pelos joelhos" e um "falso" contrato de 403 euros
27.05.2007 - 15h48 Ana Cristina Pereira


Ainda lhe dói o estômago. José Santos é pedreiro, profissão dura. Mas não estava preparado para "condições tão más" como as que encontrou naquele projecto islandês de estruturas industriais hidroeléctricas. "Eram muitas horas a trabalhar com água até aos joelhos; não podia descansar um bocadinho senão era despedido. Chovia em cima do comer. Queria pôr o pão na mesa e não podia, ficava todo molhado."

Assinou um contrato com a Select - I Serviços Lda, uma das maiores agências de trabalho temporário a operar em Portugal, para prestar serviço à Impregilo, SA - uma empresa italiana que garantiu uma das empreitadas da Metro do Porto - no projecto hidráulico Karahnjukar.

Avisaram-no de que iria trabalhar numa "zona de montanha com muita neve" - no exterior, 20 graus negativos e ventos que podem atingir 200 quilómetros por hora. Durante o Inverno, a noite dura 23 horas; durante o Verão, o quadro inverte-se. Avisaram-no da inexistência de "qualquer população perto da obra" - a cidade mais próxima fica a 120 quilómetros e a televisão seria o seu único entretenimento. Não sabia que "teria de trabalhar 14 horas por dia". Não imaginava que lhe serviriam o almoço condimentado ("cozinheiros paquistaneses e chineses") ali mesmo, dentro dos longuíssimos túneis destinados a recolher água proveniente do degelo e a transportá-la para a barragem. Nem que só lhe dariam "dez a 15 minutos para comer".

Na obra trabalharão uns "300 portugueses - 150 a 200 nos túneis, o resto na barragem". Os dos túneis afligem-se com a água gélida, com a poluição ("muitas vezes não se consegue ver um colega que está a dez metros, por causa do fumo"), os outros com a neve, com o vento cortante. "Todas as semanas, vão dez portugueses para lá [a maior parte recrutados por outra agência de trabalho temporário na zona de Setúbal] e voltam outros dez", diz o pedreiro gaiense de 47 anos. "E só não vêm mais embora porque têm de pagar a viagem do bolso deles."

O contrato, a que o PÚBLICO teve acesso, estabelece uma remuneração- -base de 403 euros por mês, com alimentação, alojamento, viagem a cada três meses de trabalho consecutivo incluídos. "Fazer um contrato para ir trabalhar para a Islândia a 403 euros [de salário-base] é aberrante! Isto até devia ser investigado pela Polícia Judiciária!", indigna-se Albano Ribeiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil no Norte, que deu uma conferência a denunciar "a escravatura" na Islândia.

Correspondessem aqueles 403 euros ao salário real e José nem teria arrancado. "Esse é o salário que a Select põe para fazer os descontos. O ordenado [base] é 1500 euros. Com as horas extras, os domingos e feriados, dá para tirar três mil euros", assevera.

Conforme o contrato, o que excede as 40 horas semanais é considerado trabalho suplementar e remunerado como tal. Um outro documento da Select - 1 Serviços Lda, que o trabalhador teve de assinar, informa que: "Por semana são feitas 60 horas, a partir daí as horas são pagas, nos dias úteis, a partir da 10h/dia a 50 por cento, a partir da 12h/dia a 75 por cento; nos sábados, a partir da 10h/dia a cem por cento; nos domingos e feriados a 150 por cento."

"É uma violação", acusa Ribeiro. "Em Portugal, o trabalhador da construção não se pode negar a fazer duas horas extras por dia, mas isso tem de vir acautelado no contrato", explica. A primeira hora extra é paga a 50 por cento, a segunda e terceira a 75. A legislação islandesa é ainda mais favorável. E ali "nem sequer têm folgas".

José acordava às 5h45 para apanhar o autocarro às 6h15. Entrava nos túneis às 7h00 e só saía às 18h00. Nem saía para almoçar. "Montam uma mesa lá dentro e as pessoas têm de comer em dez a 15 minutos". Eram 11 horas por dia "com a água gelada até aos joelhos, a chuva a cair". Usava fato térmico e galochas, mas saía de lá "todo molhado".

"Sentia-me escravizado"

Não mudava logo de roupa. "Há um acampamento ali perto, jantávamos lá." Às 20h30, ainda húmido, apanhava o transporte. Cumpria uma viagem de 60 quilómetros até entrar no quarto individual. Tomado um valente banho, vestia uma roupa seca, olhava para relógio a marcar 22h00. Não tardava a deitar-se numa cama de madeira (com "um colchão fininho, de oito ou nove centímetros") e tratava de dormir o melhor que podia até às 5h45. Valia-lhe que as duas horas gastas em deslocações contavam como trabalho.

Não era só a exaustão. "Sou pedreiro e fui para lá como servente - eles querem que a gente vá como servente e faça o trabalho qualificado, faça o trabalho de um trolha de primeira", queixa-se José. "Os italianos que lá estão, a fazer o mesmo, ganham quase seis mil euros." Mais três mil do que os polacos, os portugueses e os paquistaneses da mesma categoria profissional. Sentia-se "escravizado". E enjoado. "Não me dei com a comida; comia, vomitava, e eles não queriam saber disso. Acho que tenho uma gastroenterite." Nos últimos dias já nem olhava para as refeições que ali serviam; comprava umas sandes, "mas também não podia estar sempre a sandes".

Chegou a 4 de Maio e partiu a 17. A agência tem um colaborador em Karahnjukar, "para resolver os problemas do pessoal", como o adiantamento de vales ou a aquisição de cartões de telemóvel. José foi ter com ele e disse-lhe que queria voltar para casa. "Marcaram-me a passagem para regressar o mais depressa possível", lembra. "Vão-me descontar esse valor dos 14 dias que trabalhei lá. Acho mal." Não foi ontem possível contactar a Select, a agência funciona de segunda a sexta-feira depois das 9h00. Albano Ribeiro afiança que irá denunciar o caso ao Ministério do Trabalho e à Inspecção-Geral do Trabalho e não exclui a hipótese de se deslocar à Islândia.



Vou fazer um comentário que já sei que é muito polémico e que me cairá o carmo e a trindade em cima.... mas pergunto-me: se o trabalho não fosse duro, porque seria pago assim? se fosse fácil, porque fariam vir gente para o fazer? tenho a impressão que só no nosso país é que ainda se acredita que se pode ganhar dinheiro fácil (e muito) sem trabalhar. Pelo que me toca, ainda bem que isto acontece nos países desenvolvidos e ainda bem que há quem passe por isso e relate. Pode ser que quem por lá passe perceba que não há milagres em lado algum, ou se trabalha duro, muito duro, ou não se ganha. Acho algo surpreendente que esta noticia esteja a fazer as machetes dos jornais. Parece-me que não foi dito que os portugueses foram obrigados a ficar lá, nem que foram presos, nem chantageados... aceitaram o trabalho, não gostaram, voltaram.
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