Caldeirão da Bolsa

Não há OPA para ninguém

Espaço dedicado a todo o tipo de troca de impressões sobre os mercados financeiros e ao que possa condicionar o desempenho dos mesmos.

por Elias » 10/4/2007 17:20

Hoje verifiquei que a Endesa já não está no IBEX-35. Alguém pode confirmar em que data saiu e qual o título que entrou em seu lugar?
 
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Não há OPA para ninguém

por Keyser Soze » 10/4/2007 15:23

Não há OPA para ninguém

Ofim da OPA do grupo alemão de energia E.ON sobre a Endesa, a maior empresa de electricidade de Espanha, coloca um ponto final nas OPA hostis no sector eléctrico europeu. A mensagem que passa é que não será possível comprar empresas europeias de energia, se as autoridades nacionais estiverem contra. E como estão...

Recorde-se como aqui se chegou. A catalã Gas Natural lançou uma OPA sobre a Endesa, com o beneplácito do Governo de José Luis Zapatero. A administração da Endesa considerou hostil a proposta e o PP, o maior partido da oposição, também se manifestou contra. O processo, contudo, foi avançando quando, de repente, surge uma contra-OPA lançada pela E.ON, saudada pela administração da Endesa, o que desde logo deixou pressupor uma aliança estratégica com os alemães.

Zapatero não gostou e deu nota pública da sua incomodidade, corrigindo depois o tiro, quando a Comissão Europeia se meteu ao barulho e sublinhou que o Governo espanhol não podia opor-se a uma operação de mercado. O Governo de Madrid, contudo, não se deu por vencido e o regulador espanhol, que não é independente do Executivo, elaborou um conjunto violento de requisitos, sem os quais a OPA não poderia avançar.

As exigências eram tais que a E.ON se queixou a Bruxelas — e a Comissão teve de intervir de novo. Pelo meio, houve telefonemas entre Zapatero e a chancelerina alemã, Angela Merkell. Mas o processo foi andando, até que entram dois novos actores em cena, a italiana Enel e a espanhola Acciona, que começam a comprar acções da Endesa, até 45,9%. Em 26 de Março ameaçam mesmo lançar uma OPA concorrente à da E.ON.

Os alemães capitulam, admitem que não conseguiriam os 50,1% pretendidos e desistem da OPA, mas fazem-se pagar. Ficam com os activos da Endesa em França, Itália, Polónia e Turquia, assumindo também o controlo da Viesgo, a quinta eléctrica espanhola, detida pela Enel, assim como várias centrais térmicas, num total de €10 mil milhões de activos. Por outro lado, a Enel e a Acciona ficam obrigadas a lançar uma OPA sobre o restante capital da Endesa, a €41 por acção. Manuel Conthe, presidente da CNMV, o regulador espanhol do mercado de capitais, demite-se, por defender que a Enel e a Acciona deveriam ter sido sancionadas, dado o processo estar eivado de irregularidades — mas o conselho da autoridade reguladora a que presidia recusou a sanção. Quanto ao Governo de Madrid, não ganhou a lotaria mas ficou com a terminação: apesar de amputada, a Endesa mantém o seu centro de decisão em Espanha.

Como é evidente, este resultado será tudo o que se quiser, menos a consequência do livre jogo do mercado. Ficou por demais visível a mão que interveio no desfecho final. E ficou claramente dito que bem prega a Comissão Europeia contra o proteccionismo nacional, que as suas rezas leva-as o vento. Veremos agora se esta lei que vigorou em Espanha serve para outros países europeus — ou se varia à moda do poderio de cada um dos 27 membros da UE.

Nicolau Santos

Publicado segunda-feira, 9 de Abril de 2007
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