Caldeirão da Bolsa

Do Porto para Wall Street, via Índia

Espaço dedicado a todo o tipo de troca de impressões sobre os mercados financeiros e ao que possa condicionar o desempenho dos mesmos.

por rmachado » 22/1/2007 19:00

Caro RMDSS

Têm toda a razão, o que eu queria dizer é que lá fora não é tudo assim tão bom, e que nós mandamos sempre o chavão "se fosse no pais X"...

Agora bons exemplos são sempre para seguir, se a roda já existe para que inventar a mesma?
 
Mensagens: 2125
Registado: 24/8/2004 10:42
Localização: Carregado

por HOSTILE » 22/1/2007 18:43

rmachado Escreveu:E nós sabemos que lá fora não é assim tão bom como pintam...


Em alguns sítios, é bem melhor e as coisas funcionam muito melhor que cá. Disso não haja dúvidas!
São um exemplo a seguir e aí estamos todos de acordo.
A partir daqui é que se dá a separação.
Como foi dito ao longo dos posts, uns criticam tudo o que mexe na "tugolândia" e o espécime inerte que por cá vegeta e que este país é um buraco sem fundo...
Os outros acham que somos os maiores tal como estamos!
Olho para isto e vejo duas caricaturas, dois pontos extremos sobre um mesmo assunto. Qual está certo? Nunca gostei muito de extremismos.
Não se arranja um meio termo sem crítica gratuita e sem arrogância de nos acharmos superiores e com a razão?
O carácter civilizado para evoluirmos, também se demonstra nestes aspectos...

É preciso um abanão, mas não tem de ser necessáriamente um terramoto.
 
Mensagens: 456
Registado: 31/5/2006 21:13

por vitorigus » 22/1/2007 13:12

...[/quote]
Outra coisa curiosa é que... nós somos muito bons a dignosticar problemas.. mas resolve-los já é outra coisa.. é que não se pode afrontar este ou aquele que a malta fica chateada...[/quote]

Como somos hipercriticos acertamos em tudo, mas pouco corrigimos. O FAZER é o delas. Milhoes de empregados fazem o q lhes apetece e nao lhes acontece (quase nada), pq sentem-se muito seguros nos seus empregos.
 
Mensagens: 509
Registado: 9/8/2005 11:17
Localização: 17

por rmachado » 22/1/2007 12:48

Só duas achegas

Eu até concordo com a Pata, mas adianto que não é preciso vir do Estangeiro para tal acontecer, basta mudar de emprego e ir para uma empresa em que várias pessoas já lá estão á muito tempo... O novo é visto como um papão se tiver ideias novas...

Depois, eu acho que nós sofremos muito do "lá fora é que é bom", aqui não presta... mas tb não fazemos nada para mudar... E nós sabemos que lá fora não é assim tão bom como pintam... e podia citar histórias (sim eu sou do tempo do h.. ;) ) reais que comprovam o que digo. Note-se que não estou a dizer mal de ir para fora, isso pode ser muito importante no desenvolvimento pessoal, novas realidades permitem sempre que olhemos a vida de uma maneira mais global.. e real...

Outra coisa curiosa é que... nós somos muito bons a dignosticar problemas.. mas resolve-los já é outra coisa.. é que não se pode afrontar este ou aquele que a malta fica chateada...
 
Mensagens: 2125
Registado: 24/8/2004 10:42
Localização: Carregado

por Bernese » 22/1/2007 12:31

RMDDS Escreveu:
Pata-Hari Escreveu:driving, as pessoas que voltam são olhadas como extra-terrestres, pessoal do contra que só sabem criticar. O Tuga come e cala. O tuga sabe que nada funciona mas continua a afirmar que somos os melhores. O tuga que nunca saíu da sua vila, é o que mais certeza tem que é o melhor lugar do mundo. O tuga que não sabe que as coisas podem ser diferentes é o primeiro a atirar pedra a quem afirma que há lugares onde dadas coisas funcionam ao contrário do que sucede por cá. É impossível explicar que apesar de não haver lugares perfeitos no mundo, que apesar de todos terem defeitos, em áreas diferentes, há lugares onde algumas coisas funcionam melhor do que na tugolandia. Ah, e a frase de "se não gostas, vai-te embora" é também comum. O tuga ainda não percebeu que identificar os problemas é a primeira fase de os resolver. O tuga parece ter medo que alguma coisa melhore no país ... (estranho povo este que não governa nem se deixa governar)..


Faltou para acabar o célebre "é o país que temos..."!
Vamos lá ver se nos entendemos... Perante a caricatura do Português que fizeste, convinha saber quantas pessoas conheces com essa atitude perante o país. Ninguém no seu perfeito estado mental acha que isto é "o melhor lugar do mundo" ou que nós "somos os melhores". Agora achar que isto não tem solução é a atitude correcta?
Identificar os problemas é fácil, vêmo-los todos os dias, encontrar a solução é que se torna um processo que demora a ser aplicado, por questões culturais!
Saúde, Educação, Justiça, produtividade, está tudo identificado. Isto não é a Escandinávia, mas também não é o Samoa, como querem fazer crêr...
Só mais uma coisa, a frase "é impossível explicar", revela uma atitude de superioridade que não fica bem. Ou julgas que à tua volta é só atrasados mentais, sem capacidade de análise do que está mal?
Outros há, que podem é não alinhar na critíca gratuita,mas tão ou mais conscientes do que está mal!


A Pata ñ sei quantas conhece, eu conheço bastantes e as que me lembro de repente são funcionários publicos bem colocados vía factor C. e sim é verdade eu próprio quando tento mudar algo que acho que é melhor feito por outros ouço inevitavelmente o " se ñ estás satisfeito muda de país " ou " tomaram os estrangeiros chegarem.nos aos calcanhares ".
sobre haver pessoas conscientes do que está mal vejo muitos poucos fazerem algo para mudar isso, eu tb sei que o tabaco me está a matar mas se ñ fizer nada para deixar o vicío o facto de ter consciencia disso ñ me vai ajudar meu caro!

Nelson
A Consciencia Nao Nos Impede De Cometer Um Pecado...apenas De Goza.lo Em Paz....
Avatar do Utilizador
 
Mensagens: 27
Registado: 4/10/2006 20:16

por HOSTILE » 22/1/2007 6:25

Pata-Hari Escreveu:driving, as pessoas que voltam são olhadas como extra-terrestres, pessoal do contra que só sabem criticar. O Tuga come e cala. O tuga sabe que nada funciona mas continua a afirmar que somos os melhores. O tuga que nunca saíu da sua vila, é o que mais certeza tem que é o melhor lugar do mundo. O tuga que não sabe que as coisas podem ser diferentes é o primeiro a atirar pedra a quem afirma que há lugares onde dadas coisas funcionam ao contrário do que sucede por cá. É impossível explicar que apesar de não haver lugares perfeitos no mundo, que apesar de todos terem defeitos, em áreas diferentes, há lugares onde algumas coisas funcionam melhor do que na tugolandia. Ah, e a frase de "se não gostas, vai-te embora" é também comum. O tuga ainda não percebeu que identificar os problemas é a primeira fase de os resolver. O tuga parece ter medo que alguma coisa melhore no país ... (estranho povo este que não governa nem se deixa governar)..


Faltou para acabar o célebre "é o país que temos..."!
Vamos lá ver se nos entendemos... Perante a caricatura do Português que fizeste, convinha saber quantas pessoas conheces com essa atitude perante o país. Ninguém no seu perfeito estado mental acha que isto é "o melhor lugar do mundo" ou que nós "somos os melhores". Agora achar que isto não tem solução é a atitude correcta?
Identificar os problemas é fácil, vêmo-los todos os dias, encontrar a solução é que se torna um processo que demora a ser aplicado, por questões culturais!
Saúde, Educação, Justiça, produtividade, está tudo identificado. Isto não é a Escandinávia, mas também não é o Samoa, como querem fazer crêr...
Só mais uma coisa, a frase "é impossível explicar", revela uma atitude de superioridade que não fica bem. Ou julgas que à tua volta é só atrasados mentais, sem capacidade de análise do que está mal?
Outros há, que podem é não alinhar na critíca gratuita,mas tão ou mais conscientes do que está mal!
 
Mensagens: 456
Registado: 31/5/2006 21:13

por drivingsouth » 21/1/2007 22:17

Concordo pata e pessoal

Acho que o problema tem sido tambem devido ao facto de que os portugueses que têm emigrado, maioria para contrução civil e/ou trabalhos menos qualificados, voltam com um sentido de superioridade em relação ao que deixaram para trás, ou por causa do carro "xpto" usado que compraram no estrangeiro, ou por causa do algum dinheiro que pouparam. Parace-me que algumas pessoas acabam por perder humildade quando acabam por ganhar mais algum dinheiro. Isso, com aquele sindroma do tempo do "cavaco ministro" de que os emigrantes mandaram dinheiro e salvaram o pais tem feito com que a diferença entre PORTUGUESES vá-se mantendo. Não conheço ninguem que não tenha saudades da sua terra, quer seja lisboa ou serapins da beira. não conheço nenhum que não queira voltar, e os seus planos para quando voltarem, passam sempre por fazer algo melhor pelo pais.

Penso que hoje em dia há muita gente que foi para fora porque são "qualificados demais" para a média da oferta em Portugal, e sentem-se restringidos de qualquer maneira. Vejo nessas pessoas, no entanto, pena por Portugal ser assim actualmente, mas um grande orgulho e vontade de voltar e ajudar a fazer melhor.

Espero sinceramente que haja uma geração agora que ajude portugal de uma maneira diferente. O António Câmara, da Yreams, tem dado que falar e é um caso desses. Mesmo dentro do meio académico, foi para o MIT nos States, e voltou com milhões de ideias, e a sua "pequena" vontade de fazer coisas diferentes.

Espero...
 
Mensagens: 191
Registado: 17/10/2005 11:04

por ArturCarvalho » 21/1/2007 20:26

Pata-Hari Escreveu:Ah, e a frase de "se não gostas, vai-te embora" é também comum.


Essa frase é usada a torto e a direito... As pessoas que eu mais gosto estão em Portugal, mas já não gosto de ser explorado pelos salários portugueses! E para mim mesmo só uma semana fora já dá para ficar com saudades.

Em relação a essa estimativa de 1 em cada 8 ir para o estrangeiro nos primeiros anos de carreira não sei, mas conheço mesmo muita gente que anda/andou lá por fora. Eu sou um desses casos.

Já li algures que só o facto de trocarmos a ordem das coisas na nossa secretária (caixote do lixo,fotos, etc.) ajuda a estimular o nosso cerebro, imagine-se uma mudança de país.

Cumps,
Artur
Avatar do Utilizador
 
Mensagens: 66
Registado: 20/12/2006 23:53

por Jiboia Cega » 21/1/2007 18:34

Pata-Hari Escreveu:estranho povo este que não governa nem se deixa governar).


Já diziam os romanos e muito bem... :P
Avatar do Utilizador
 
Mensagens: 1694
Registado: 21/3/2006 10:46
Localização: Madrid

por bolso vazio » 21/1/2007 17:52

Pata-Hari Escreveu:driving, as pessoas que voltam são olhadas como extra-terrestres, pessoal do contra que só sabem criticar. O Tuga come e cala. O tuga sabe que nada funciona mas continua a afirmar que somos os melhores. O tuga que nunca saíu da sua vila, é o que mais certeza tem que é o melhor lugar do mundo. O tuga que não sabe que as coisas podem ser diferentes é o primeiro a atirar pedra a quem afirma que há lugares onde dadas coisas funcionam ao contrário do que sucede por cá. É impossível explicar que apesar de não haver lugares perfeitos no mundo, que apesar de todos terem defeitos, em áreas diferentes, há lugares onde algumas coisas funcionam melhor do que na tugolandia. Ah, e a frase de "se não gostas, vai-te embora" é também comum. O tuga ainda não percebeu que identificar os problemas é a primeira fase de os resolver. O tuga parece ter medo que alguma coisa melhore no país ... (estranho povo este que não governa nem se deixa governar).

Talvez um dia, quando os que voltarem forem em número crítico, as coisas comecem efectivamente a mudar. Até lá, qualquer tentativa ou sugestão de aplicar qualquer ideia que funcione noutros países (better practises) são exercícios de quixotismo.


:clap:
"É mais fácil manter-se fora do que sair."
Mark Twain
Imagem
Avatar do Utilizador
 
Mensagens: 161
Registado: 24/3/2006 20:30
Localização: Trás-os-Montes

por Pata-Hari » 21/1/2007 17:16

driving, as pessoas que voltam são olhadas como extra-terrestres, pessoal do contra que só sabem criticar. O Tuga come e cala. O tuga sabe que nada funciona mas continua a afirmar que somos os melhores. O tuga que nunca saíu da sua vila, é o que mais certeza tem que é o melhor lugar do mundo. O tuga que não sabe que as coisas podem ser diferentes é o primeiro a atirar pedra a quem afirma que há lugares onde dadas coisas funcionam ao contrário do que sucede por cá. É impossível explicar que apesar de não haver lugares perfeitos no mundo, que apesar de todos terem defeitos, em áreas diferentes, há lugares onde algumas coisas funcionam melhor do que na tugolandia. Ah, e a frase de "se não gostas, vai-te embora" é também comum. O tuga ainda não percebeu que identificar os problemas é a primeira fase de os resolver. O tuga parece ter medo que alguma coisa melhore no país ... (estranho povo este que não governa nem se deixa governar).

Talvez um dia, quando os que voltarem forem em número crítico, as coisas comecem efectivamente a mudar. Até lá, qualquer tentativa ou sugestão de aplicar qualquer ideia que funcione noutros países (better practises) são exercícios de quixotismo.
Avatar do Utilizador
Administrador Fórum
 
Mensagens: 20972
Registado: 25/10/2002 17:02
Localização: Lisboa

por drivingsouth » 21/1/2007 16:49

É engraçado as reacções ("desajustadas" para alguns :| ) de algumas pessoas a temas tão "inocentes"...

Eu tbm estou no estrangeiro, e acho que muitas vezes é simplesmente uma questão de nao ter prespectivas de futuro em Portugal, quando se quser algo diferente (?) do que existe.

ouvi dizer inclusivamente que 1 em cada 8 licenciados portugueses sai de Portugal nos primeiros 2/3 anos. Alguem pode confirmar isto?? Acho muito mas sou da opinião, como Pinto dos Santos na Grande Entrevista, que essas pessoas acabam por voltar trazendo uma grande experiência que acaba por ajudar o pais

Abraço
 
Mensagens: 191
Registado: 17/10/2005 11:04

por rteixe01 » 21/1/2007 14:01

Não se pode agradar a todos :mrgreen: :mrgreen:
Fica na tua, eu fico na minha.

1 Abraço
O mercado é que indica a direcção, nós só temos de o seguir!
Avatar do Utilizador
 
Mensagens: 1326
Registado: 23/11/2005 11:37
Localização: Lisboa

por HOSTILE » 21/1/2007 13:52

O que é essencial ou relevante é que ele estava farto da "vidinha que levava"... Não se trata de desemprego ou exploração em Portugal, como propuseste como 2º título. Os colegas dele estão empregados e não me parecem explorados.
Até pode ser que os horizontes dele sejam muito além dos outros...
O que preocupa é a linearidade do processo que se está a dar neste caso. Emprego na Ìndia, acesso directo a Wall Street. Boa sorte para ele, mas acho que o balanço do investimento, deve ser feita no fim e não neste momento. Isto é que é essencial. Distinguir que sair de Portugal, não é meio caminho andado para melhorar... Aí é que se falha na análise, porque devido a um problema cultural, o tuga olha e pensa que o emigrante já está milhões de vezes melhor que cá, o que friamente não me parece para já... O balanço deve ser feito daqui a uns anos.
Por isto acho a tua proposta de 2º título desajustada!
 
Mensagens: 456
Registado: 31/5/2006 21:13

por rteixe01 » 21/1/2007 13:12

Como entenderás, o tópico do artigo nada tinha a ver com isso. Estás a levar a conversa para um caminho diferente e a fugir do que é relevante.
Aqui o essencial é que neste momento para aquele rapaz, o facto de apesar de não ganhar ainda muito, mas estar a enriquecer o seu currículo e background com experiências no estrangeiro, nomeadamente Índia e NY, por si só é bem melhor que estar cá em Portugal, mesmo que eventualmente ganhasse mais.
Conclusão, não se fala de saúde e condições melhores, etc, fala-se sim, de que por vezes mais vale ganhar menos noutro lado, mas com uma visibilidade maior e estar com isso a preparar uma rampa de lançamento que a médio prazo o poderá catapultar para o topo em 5 ou 10 anos. Só isso.
Não misturemos o acessório com o essencial.
O mercado é que indica a direcção, nós só temos de o seguir!
Avatar do Utilizador
 
Mensagens: 1326
Registado: 23/11/2005 11:37
Localização: Lisboa

por HOSTILE » 21/1/2007 13:00

É exactamente isso, é tudo uma questão relativa, a saúde, o emprego, a exploração... Se as coisas não estiverem bem e se nos oferecerem ou houverem melhores condições, nem que seja no fim do mundo, é òbvio que ficamos melhor! É tudo muito relativo, até pode ser em Portugal, na Ìndia ou em NY que as coisas ficam melhores...
 
Mensagens: 456
Registado: 31/5/2006 21:13

por rteixe01 » 21/1/2007 12:52

RMDDS,

Desculpa mas não entendi.
Acho que essa observação nada tem a ver com o resto. Isso do doente é relativo, cá se não tiver dinheiro, terá de ir viver para algum sitio sem condições e pode adoecer também.
O mercado é que indica a direcção, nós só temos de o seguir!
Avatar do Utilizador
 
Mensagens: 1326
Registado: 23/11/2005 11:37
Localização: Lisboa

por HOSTILE » 21/1/2007 12:45

rteixe01 Escreveu:Aproveitando também o titulo do outro post, eu poria como sub-titulo a este post:

Antes mal pago na índia ou mesmo NY, do que doutor explorado ou desempregado em Portugal.



Antes saudável em Portugal, do que doente em qualquer parte do mundo.
 
Mensagens: 456
Registado: 31/5/2006 21:13

por rteixe01 » 21/1/2007 12:38

Aproveitando também o titulo do outro post, eu poria como sub-titulo a este post:

Antes mal pago na índia ou mesmo NY, do que doutor explorado ou desempregado em Portugal.
O mercado é que indica a direcção, nós só temos de o seguir!
Avatar do Utilizador
 
Mensagens: 1326
Registado: 23/11/2005 11:37
Localização: Lisboa

Do Porto para Wall Street, via Índia

por Keyser Soze » 21/1/2007 12:11

Do Porto para Wall Street, via Índia

Levou na mochila Vinho do Porto, latas de sardinha e computador portátil. A 12 mil quilómetros do sítio onde nasceu, Miguel Costa ganha menos do que colegas seus em Portugal mas viu isso como um investimento

Miguel Costa engole a chamuça e lambe os dedos. Balbucia algo em hindi para o vendedor ambulante e entrega-lhe duas rupias (quatro cêntimos), enquanto, ao seu lado, num baldio, uma vaca remexe no lixo. Ao fundo, emergem três brilhantes torres, sedes de multinacionais. Estamos em Gurgaon, um subúrbio da capital indiana, Nova Deli. Este é um dos centros do milagre económico que é a Índia desde 1991. Há um ano que o portuense Miguel Costa, de 23 anos, também faz parte desse milagre.

«Isto há dez anos era só uma aldeia», nota, observando as torres que parecem ter emergido do nada, rodeadas por arruamentos inacabados e alguns campos trabalhados por agricultores resistentes aos ventos da globalização. Tal como Gurgaon, também Miguel vive uma fase turbulenta da sua vida.

Em Fevereiro de 2006, Miguel era só mais um recém-licenciado pela Faculdade de Economia do Porto, com «uma média baixa, 12». Agora está a 12 mil quilómetros, na Índia, a preparar-se para viajar para Nova Iorque. É lá, longe das vacas e das torres indianas, mas também da sua casa na Maia, que irá aconselhar um gestor de um dos dez maiores bancos de investimento do mundo. «É mesmo em Wall Street, já confirmei o código postal», sorri orgulhosamente.

Miguel trabalha na Evalueserve, a empresa pioneira no «outsourcing» de processos empresariais baseados no conhecimento, com 1400 empregados. «Há médicos, economistas, advogados e engenheiros, de todo o mundo. Recolhemos e analisamos dados de vários segmentos de mercados para clientes de todo o mundo», explica. Miguel entra antes do meio-dia e sai depois das dez da noite. Deu-se bem - e o cliente pediu à empresa para que lhe renovasse o contrato e o enviasse para os seus escritórios.

Choque cultural

Tudo começou quando uma oferta de emprego da Evalueserve cativou o interesse de Miguel na Internet. «Queria mudar de ares. Estava farto da minha vidinha. E a Índia, como potência emergente, oferecia-me boas garantias para o meu futuro», explica.

Ao receber uma resposta positiva da Evalueserve, a comida picante, o choque cultural, o tórrido Verão de Deli e os potenciais riscos associados a uma vida na Índia não o impressionaram. Nem a oposição da mãe. Poucos dias depois, descolava do Aeroporto Sá Carneiro em direcção à Índia. Na sua mochila iam alguma roupa, o computador portátil, umas latas de sardinhas e duas garrafas de vinho do Porto.

«Estou a viver num país complicado e estranho e ganho menos do que muitos dos meus colegas que estão em Portugal. O choque da chegada também foi assustador», admite. «Mas é tudo uma questão de hábito», acrescenta logo. Não houve tempo para ter medo. Menos de vinte e quatro horas depois de ter aterrado no Aeroporto Internacional Indira Gandhi, já tinha ido às compras com novos amigos, conhecido a sua futura namorada, a francesa Marguerite, e sido apresentado na empresa. «Mergulhei e comecei logo a trabalhar», lembra.

Desde então, Miguel embarca todas as manhãs, de fato e gravata, num riquexó verde e amarelo, em direcção ao seu escritório. Às sextas-feiras a empresa autoriza uma vestimenta mais informal - é o «casual day» - o que tem o benefício de atrair menos pedintes nos semáforos.

«Se eu quisesse viver melhor agora teria ficado no Porto», sublinha. É talvez por isso que repete várias vezes que não lhe interessa o dinheiro e se recusa a dizer quanto ganha. Miguel partilha um quarto com a namorada. O que resta do salário no fim do mês é gasto em pequenos fins-de-semana nos Himalaias. Sempre em autocarros e nos hotéis mais baratos, como um indiano da classe média ou baixa.

Para Miguel, esta é «uma estratégia racional e calculada». «Estou a construir uma carreira para chegar aos 30 e ser dono do meu destino. Quero ser eu a dizer onde e como quero trabalhar e quanto quero ganhar. Os meus colegas saem da faculdade e querem ganhar logo 200 ou 300 contos. Mas a maioria fica-se por aí e nunca chega a dar o salto com que tanto sonha» - para Wall Street, entenda-se. «Estar cá é um investimento», sublinha, no seu sotaque nortenho.

unica@expresso.pt

Reportagem de Constantino Xavier (correspondente) e Luiz Carvalho (fotografias), enviado à Índia
Como é a vida na Índia




Antes de ir para a Índia é conveniente documentar-se sobre o país, para não sofrer um choque cultural à chegada. No que diz respeito ao emprego, podem ser encontradas ofertas em portais da Internet como os www.iagora.com, www.emploi-international.org ou www.monsterindia.com. A fluência em inglês é obrigatória. Em projectos com um país específico, valoriza-se o conhecimento da sua língua e cultura empresarial. Noutras áreas privilegia-se a formação em gestão, finanças e «marketing». A empresa faz uma série de entrevistas telefónicas para testar os conhecimentos do candidato, que, a ser aceite, receberá uma carta de aceitação e um contrato, que deve assinar, para requerer o visto de trabalho na Embaixada da Índia em Lisboa (cerca de 80 euros).

Como se vive

O salário médio situa-se entre os 400 e os 1.000 euros mensais, consoante a actividade. Em Gurgaon, o aluguer de um quarto custa 100 euros (em Bangalore ou Chenai chega a ser metade). A alimentação não passa dos 10 euros/dia. Um bilhete de cinema custa dois euros e uma ligação à Internet 15 euros/mês. As empresas internacionais têm, geralmente, dezenas de empregados de diversas nacionalidades, o que cria um ambiente cosmopolita.

As despesas com a saúde são reduzidas, mesmo nos hospitais de luxo. Uma consulta com um especialista custa oito euros.
Avatar do Utilizador
 
Mensagens: 3299
Registado: 8/2/2006 17:32


Quem está ligado:
Utilizadores a ver este Fórum: Phil2014 e 118 visitantes