Antes trolha na Europa que campeão em África
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Antes trolha na Europa que campeão em África
EXPRESSO 21 JAN 07
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Qual foi o momento mais difícil?
Quando comecei a trabalhar na obra, no Algarve.
O que é que fazia exactamente?
Era servente. Misturava cimento, carregava tijolos, às vezes oito andares. Fartei-me de levar com cimento na cabeça, as minhas mãos estão duras.
Mesmo não continuando a fazer atletismo, preferia ficar em Portugal?
Um campeão na Nigéria não ganha dinheiro. Aqui podia ajudar a minha família. Ganha-se mais a trabalhar nas obras na Europa do que a ser campeão em África.
Trabalhava quantas horas por dia?
Dependia. Às vezes começávamos às seis da manhã e só terminávamos de madrugada. Vivia na obra. Havia construções que demoravam quase um ano e nós vivíamos lá, oito ou dez pessoas.
Ainda pensava que ia ser campeão?
Sim. Pensava que voltaria a correr, que um dia ainda ia ter sorte.
E quando aconteceu esse golpe de sorte?
Quando conheci a Mary Morgan, uma inglesa que tinha uma escola onde eu fui aprender português. Perguntou-me se eu gostaria de voltar ao atletismo, eu disse que sim e ela então foi buscar as páginas amarelas e ligou para o Sporting e para o Benfica. E nada. Diziam que tinham muitos atletas. Tive sorte porque no Belenenses falou com o treinador Fausto Ribeiro.
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Agora que está a viver tão perto do problema, como é que reage às imagens daqueles milhares de imigrantes que tentam chegar à costa espanhola para entrar na Europa?
Eles tentam conseguir uma vida. A culpa não é deles, mas sim dos nossos presidentes em África que roubam dinheiro e deixam as pessoas a sofrer. As famílias querem comer, por isso arriscam-se a morrer no mar.
Vêm à procura de um sonho impossível e isto não é bem o que imaginam?
É verdade. Quem vem para cá tem uma vida complicada. Muitas vezes não têm ajuda. Em África, podes entrar em casa de alguém e dão-te comida. Aqui dizem-te: «Vai trabalhar. Se tens duas mãos...». E sem documentos é muito difícil, não se tem direito a nada.
Qual é que poderia ser a solução?
Há muitas. Primeiro, impedir que os presidentes africanos mandem dinheiro para bancos de outros países, como a Suíça.
Muitas vezes as ajudas também não chegam ao destino.
A Europa não precisa de mandar dinheiro para África. Há países ricos, o problema é que os presidentes desses países são mafiosos e roubam a riqueza do país. E para quê? Não há ruas, não há electricidade, nem água; os hospitais estão cada vez piores. Não há trabalho e quando há é muito mal pago. Quando oiço na televisão que «temos de mandar dinheiro para África», penso: «Não, isso não existe.» Primeiro, esse dinheiro não vai chegar a nenhum lado. Segundo, vão matar só para poderem ficar com ele. Se não mandarem dinheiro, ninguém vai tentar roubá-lo.
A democracia é uma solução?
A democracia não existe em África. Nós, os africanos, somos muito agressivos e a democracia é muito lenta. Os presidentes estão lá quatro anos e só pensam em como podem roubar para depois viverem como reis. A solução é alguém mandar e haver respeito, como no tempo dos militares.
Quem é o político que mais admira?
Bill Clinton porque é uma pessoa que sabe ganhar dinheiro para o povo. É muito inteligente, sabe negociar. Não é agressivo, é um diplomata.
Há algum líder africano que admire?
Em África, quando alguém é bom, afastam-no. Como a nigeriana Okonjo-Iweala que foi vice-presidente do Banco Mundial. Fez um grande trabalho, mas o Presidente agora já não está interessado em mantê-la. Os que são bons, nunca duram. Ou são afastados, ou são mortos.
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Quando sobe ao pódio e vê a bandeira de Portugal e ouve o hino sente alguma coisa especial?
Sinto-me feliz por ser o meu novo país. Acho que a Nigéria não merece mais nada. Portugal apostou em mim e ajudou-me. Sinto-me como se tivesse sido sempre português.
Quem é o desportista português que mais admira?
O Cristiano Ronaldo. É um talento. Conheci-o no Sporting quando ele ainda era muito pequeno. É um amigo.
Também é muito rápido.
Sim, sim. Cheguei a correr com ele na pista e na altura os colegas dele, como o Quaresma ou o Simão, ficavam espantados com a velocidade dele. Tem um grande futuro.
E o seu futuro?
Vou viver para o Algarve. Gosto muito do clima e da calma. Há menos crimes. Madrid é uma cidade muito grande, com muita gente. Gosto de Madrid mas quero viver em Portugal. Comprar um terreno e construir uma casa
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