Euro - Entrevista a João Ferreira do Amaral - S.Económico
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Euro - Entrevista a João Ferreira do Amaral - S.Económico
A entrada no euro foi um erro”
O economista mantém-se extremamente céptico face à zona euro. Na sua opinião, “Portugal não deveria ter entrado em 1999”, porque não era o que “precisávamos”. O período de transição fez com que “a economia portuguesa perdesse muita competitividade”.
Portugal não se está a dar bem com o euro. O País não se preparou convenientemente ou o euro não era aquilo que precisávamos?
Acho que não era o que Portugal precisava. Foi um erro entrar para a moeda única em 1999.
Não seria pior ficar fora da moeda única?
Não. Pior do que a situação actual, seria difícil. As políticas seguidas na fase de preparação eram inevitáveis face a esse objectivo, nomeadamente na inflação, fomos obrigados a ter um escudo alto. Esse período fez com que a economia portuguesa perdesse muita competitividade. Às vezes é pouco conhecido, mas é importante dizer-se: nós estamos a divergir da União Europeia, em termos de crescimento, há uns cinco ou seis anos, mas em termos de produção de bens transaccionáveis estamos a divergir desde o início dos anos 90. Depois houve a descida da taxa de juro. Isso é muito bonito, mas no nosso caso criou um problema tremendo. As pessoas estavam habituadas a altos níveis de taxas de juro e, a partir de 95, 96, o preço do dinheiro começou a recuar. Foi inevitável a explosão do crédito e do endividamento.
Não é positivo ter estabilidade macroeconómica com taxas de juro e inflação baixas?
Tenho a tendência para dizer que isso não se impõe, ganha-se. São os países com uma boa estrutura económica que o conseguem. Já se sabia na altura, nos anos 90, que íamos ter uma concorrência acrescida dos países emergentes do comércio mundial, como a China, e dos novos Estados membros. Tínhamos à partida uma estrutura económica extremamente vulnerável a essas duas concorrências. Portanto, nunca poderíamos ter estabilidade macroeconómica neste período de ajustamento. Estabilidade imposta é muito pior, porque depois os incentivos que se dão às empresas não são os incentivos correctos. A política económica tem incentivado, desde os anos 90 até há pouco tempo, a produção de bens não-transaccionáveis, fruto de uma taxa de câmbio sobrevalorizada e uma taxa de juro baixa. Deu sinais errados às empresas, que estas seguiram. Criámos um défice externo brutal e um nível de endividamento, que é contrapartida disso. O défice interno também é enorme e vai ser extraordinariamente difícil de ultrapassar.
Qual é a solução? A saída do euro está fora de questão...
Neste momento está. Porque não pode ser feito unilateralmente pelo país. O que a União Europeia não fez, e devia ter feito, era prever um sistema de saída ainda que temporária da zona euro, caso um país tivesse dificuldades de adaptação. Nomeadamente, o Banco Central Europeu, e outras entidades, deveriam assegurar o funcionamento normal dos mercados financeiros desse Estado em fase de saída. Sair agora seria uma catástrofe financeira.
O sistema sobre o qual se baseia a zona euro devia ser diferente?
Devia, porque cada Estado tem a coesão em si próprio. E, portanto, se a unidade política fundamental é o Estado, é evidente que a política macroeconómica tem de ser adequada a esse Estado. Não pode ser uma política comum para todos. Cada país deve ter margem para seguir uma política de estabilização e de estímulos às empresas através da medidas adequadas à sua própria situação. O que é que a moeda única fez? Impediu isso. A política monetária e cambial é única, as políticas orçamentais são próprias dos países, mas estão muito condicionadas, e sem a política monetária são muito menos eficazes. A política macroeconómica comum é, muitas vezes, contraproducente em relação às necessidades de um Estado membro, justamente para um país como Portugal. A política comum agravou os nossos desequilíbrios.
Qual deveria ser a solução?
Sabia-se que o sistema monetário europeu tinha regras que não funcionavam bem. O que é que se fez? Passou-se disso para a moeda única como se não existisse alternativa. Havia uma, mais razoável, que era o sistema monetário europeu funcionar bem. Ou seja, dando a possibilidade de haver uma entidade, chame-se Banco Central Europeu ou seja o que for, com capacidade de intervenção suficiente para sustentar as moedas dos diversos Estados. No entanto, dar-se-ia a possibilidade de cada país manter a sua própria moeda, podendo ajustá-la em momentos de crise, com o acordo dessa entidade supervisora. Esse sistema era mais razoável, porque garantia estabilidade a nível da UE e dava margem a cada Estado para seguir uma política de estabilização adequada às suas próprias necessidades.
Perfil
Professor catedrático do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Universidade Técnica de Lisboa, João Ferreira do Amaral foi assessor e consultor da Casa Civil do Presidente da República Jorge Sampaio. Doutorado em Economia, desempenhou funções de Director-geral do Departamento Central de Planeamento, entre 1984 e 1989. Autor do livro, “Política Económica”, lançado em 1996, Ferreira do Amaral tem-se dedicado também, como economista, às temáticas de economia inter-sectorial, macroeconomia e modelos dinâmicos não-lineares.
O economista mantém-se extremamente céptico face à zona euro. Na sua opinião, “Portugal não deveria ter entrado em 1999”, porque não era o que “precisávamos”. O período de transição fez com que “a economia portuguesa perdesse muita competitividade”.
Portugal não se está a dar bem com o euro. O País não se preparou convenientemente ou o euro não era aquilo que precisávamos?
Acho que não era o que Portugal precisava. Foi um erro entrar para a moeda única em 1999.
Não seria pior ficar fora da moeda única?
Não. Pior do que a situação actual, seria difícil. As políticas seguidas na fase de preparação eram inevitáveis face a esse objectivo, nomeadamente na inflação, fomos obrigados a ter um escudo alto. Esse período fez com que a economia portuguesa perdesse muita competitividade. Às vezes é pouco conhecido, mas é importante dizer-se: nós estamos a divergir da União Europeia, em termos de crescimento, há uns cinco ou seis anos, mas em termos de produção de bens transaccionáveis estamos a divergir desde o início dos anos 90. Depois houve a descida da taxa de juro. Isso é muito bonito, mas no nosso caso criou um problema tremendo. As pessoas estavam habituadas a altos níveis de taxas de juro e, a partir de 95, 96, o preço do dinheiro começou a recuar. Foi inevitável a explosão do crédito e do endividamento.
Não é positivo ter estabilidade macroeconómica com taxas de juro e inflação baixas?
Tenho a tendência para dizer que isso não se impõe, ganha-se. São os países com uma boa estrutura económica que o conseguem. Já se sabia na altura, nos anos 90, que íamos ter uma concorrência acrescida dos países emergentes do comércio mundial, como a China, e dos novos Estados membros. Tínhamos à partida uma estrutura económica extremamente vulnerável a essas duas concorrências. Portanto, nunca poderíamos ter estabilidade macroeconómica neste período de ajustamento. Estabilidade imposta é muito pior, porque depois os incentivos que se dão às empresas não são os incentivos correctos. A política económica tem incentivado, desde os anos 90 até há pouco tempo, a produção de bens não-transaccionáveis, fruto de uma taxa de câmbio sobrevalorizada e uma taxa de juro baixa. Deu sinais errados às empresas, que estas seguiram. Criámos um défice externo brutal e um nível de endividamento, que é contrapartida disso. O défice interno também é enorme e vai ser extraordinariamente difícil de ultrapassar.
Qual é a solução? A saída do euro está fora de questão...
Neste momento está. Porque não pode ser feito unilateralmente pelo país. O que a União Europeia não fez, e devia ter feito, era prever um sistema de saída ainda que temporária da zona euro, caso um país tivesse dificuldades de adaptação. Nomeadamente, o Banco Central Europeu, e outras entidades, deveriam assegurar o funcionamento normal dos mercados financeiros desse Estado em fase de saída. Sair agora seria uma catástrofe financeira.
O sistema sobre o qual se baseia a zona euro devia ser diferente?
Devia, porque cada Estado tem a coesão em si próprio. E, portanto, se a unidade política fundamental é o Estado, é evidente que a política macroeconómica tem de ser adequada a esse Estado. Não pode ser uma política comum para todos. Cada país deve ter margem para seguir uma política de estabilização e de estímulos às empresas através da medidas adequadas à sua própria situação. O que é que a moeda única fez? Impediu isso. A política monetária e cambial é única, as políticas orçamentais são próprias dos países, mas estão muito condicionadas, e sem a política monetária são muito menos eficazes. A política macroeconómica comum é, muitas vezes, contraproducente em relação às necessidades de um Estado membro, justamente para um país como Portugal. A política comum agravou os nossos desequilíbrios.
Qual deveria ser a solução?
Sabia-se que o sistema monetário europeu tinha regras que não funcionavam bem. O que é que se fez? Passou-se disso para a moeda única como se não existisse alternativa. Havia uma, mais razoável, que era o sistema monetário europeu funcionar bem. Ou seja, dando a possibilidade de haver uma entidade, chame-se Banco Central Europeu ou seja o que for, com capacidade de intervenção suficiente para sustentar as moedas dos diversos Estados. No entanto, dar-se-ia a possibilidade de cada país manter a sua própria moeda, podendo ajustá-la em momentos de crise, com o acordo dessa entidade supervisora. Esse sistema era mais razoável, porque garantia estabilidade a nível da UE e dava margem a cada Estado para seguir uma política de estabilização adequada às suas próprias necessidades.
Perfil
Professor catedrático do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Universidade Técnica de Lisboa, João Ferreira do Amaral foi assessor e consultor da Casa Civil do Presidente da República Jorge Sampaio. Doutorado em Economia, desempenhou funções de Director-geral do Departamento Central de Planeamento, entre 1984 e 1989. Autor do livro, “Política Económica”, lançado em 1996, Ferreira do Amaral tem-se dedicado também, como economista, às temáticas de economia inter-sectorial, macroeconomia e modelos dinâmicos não-lineares.
Aqui no Caldeirão no Longo Prazo estamos todos ricos ... no longuissimo prazo os nossos filhos estarão ainda mais ricos ...
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