Mota Engil - Tópico Geral
Re: Mota Engil - Tópico Geral
Li a análise do Borja com atenção e achei-a bastante completa. Há, no entanto, alguns pontos que me parece importante atualizar ou esclarecer.
Desde logo, a CCCC já não tem 32,41% da Mota-Engil, mas 31%, depois da venda de 1,41% em abril.
Também a referência aos 79% da CCCC merece alguma precisão: essa percentagem refere-se às ações A detidas pela CCCG e não a 79% do capital total da CCCC. O controlo pelo Estado chinês existe através da CCCG, mas são coisas diferentes.
Outro pormenor que encontrei no Relatório e Contas: o artigo refere que não foi divulgado o custo da aquisição dos 50% restantes da Empresa Construtora Brasil. Na realidade, as contas de 2025 permitem apurar a contrapartida: 2,385 M€ em numerário + 7,949 M€ por encontro de contas + 6,283 M€ por liquidar, cerca de 16,6 M€ no total.
Também teria cuidado com a afirmação de que a Mota celebra “sempre” contratos em euros ou dólares e “nunca” em moedas locais. Num grupo presente em tantas geografias parece-me demasiado absoluto, até porque o próprio 1S26 voltou a mostrar que o risco cambial existe e afeta os resultados.
Há ainda uma distinção que considero importante: EBITDA não é cash flow. E aqui os últimos resultados até acrescentam um dado bastante interessante à análise: a Mota gerou 159 M€ de free cash flow no semestre, equivalente a cerca de 33% do EBITDA.
Quanto às projeções do Borja, aí não vejo propriamente erros. Vejo sobretudo uma opção bastante conservadora.
O Borja assume crescimento médio das receitas de 5,9% e margem líquida de 2,9%. O FOCUS 2030 aponta para cerca de 9 mil M€ de receitas e margem líquida do Grupo igual ou superior a 4%.
E convém esclarecer um ponto que já discutimos aqui: no glossário do próprio FOCUS, o resultado líquido do Grupo corresponde ao resultado atribuível ao Grupo. Portanto, os 4% são efetivamente uma margem líquida atribuível aos acionistas da Mota-Engil, depois dos interesses minoritários.
Também nos dividendos a projeção do Borja é prudente, porque mantém os atuais 0,1736 € por ação, enquanto o FOCUS estabelece um payout de 30% a 50%. Não é um erro, mas é uma escolha que torna naturalmente o retorno projetado mais conservador se os lucros crescerem como a administração espera.
Na carteira, os 17,714 mil M€ no final de junho estão corretos, mas há ainda cerca de 2,5 mil M€ de contratos assinados posteriormente que não estavam incluídos nesse valor. Portanto, para analisar a visibilidade futura também acho importante considerar essa informação mais recente.
E há finalmente a mudança na composição do negócio.
No 1S26, a Engenharia Industrial/mineração apresentou 118 M€ de EBITDA e margem de 29%, enquanto o Ambiente fez 65 M€ de EBITDA com margem de 21%.
Para mim isto é importante porque a avaliação futura não vai depender apenas de quanto cresce a faturação. Vai depender também de quais os negócios que passam a representar uma parcela maior dos resultados e do cash flow do Grupo.
Por isso, no geral, considero a análise do Borja boa e útil. A principal diferença entre a leitura dele e a minha está sobretudo nas premissas futuras.
Se a Mota ficar por crescimentos próximos dos 5,9% e margens líquidas de 2,9%, a prudência do modelo poderá revelar-se bastante acertada.
Mas pessoalmente a minha leitura continua a ser mais bullish.
Não porque considere o FOCUS 2030 garantido, mas porque vejo vários sinais de que a Mota-Engil está a mudar de qualidade: mineração com margens muito elevadas, Ambiente com boa rentabilidade, concessões de longo prazo, melhor conversão de EBITDA em caixa e uma carteira que dá enorme visibilidade para os próximos anos.
Se a empresa conseguir aproximar-se dos 4% de margem líquida, mantendo a dívida controlada e aumentando o peso destes negócios de maior rentabilidade, então acredito que uma avaliação baseada em 2,9% de margem e 5,9% de crescimento poderá acabar por ficar claramente curta.
E, como tenho vindo a explicar aqui no fórum, a minha visão mais bullish não assenta numa única notícia nem num único número.
Assenta no conjunto: crescimento da carteira, melhoria das margens, mineração, Ambiente, concessões, Corredor do Lobito, novos mercados, maior geração de caixa e todas as oportunidades que poderão surgir nos próximos anos.
A isto juntaria ainda o enorme ciclo de investimento em infraestruturas que se prepara em várias geografias, seja em ferrovia, energia, portos, aeroportos, mobilidade militar, reconstrução ou novas infraestruturas digitais.
Naturalmente, nem todas essas oportunidades irão para a Mota-Engil e haverá riscos pelo caminho. Mas considero que a empresa está hoje muito melhor posicionada para aproveitar esse ciclo do que estava há alguns anos.
É aqui que está a minha principal diferença em relação à análise do Borja.
Ele olha para a Mota com bastante prudência e projeta uma evolução mais próxima do histórico recente. Eu atribuo uma probabilidade maior à execução do FOCUS e à transformação que já começa a aparecer nos números.
Posso estar errado, naturalmente, mas é precisamente por tudo o que tenho vindo a explicar aqui no fórum que continuo bullish e bastante investido na Mota-Engil.
Para mim, o maior potencial não está apenas no que a empresa vale hoje com os resultados atuais.
Está naquilo em que a Mota-Engil se pode transformar nos próximos anos se continuar a executar bem.
J.f.vieira
Desde logo, a CCCC já não tem 32,41% da Mota-Engil, mas 31%, depois da venda de 1,41% em abril.
Também a referência aos 79% da CCCC merece alguma precisão: essa percentagem refere-se às ações A detidas pela CCCG e não a 79% do capital total da CCCC. O controlo pelo Estado chinês existe através da CCCG, mas são coisas diferentes.
Outro pormenor que encontrei no Relatório e Contas: o artigo refere que não foi divulgado o custo da aquisição dos 50% restantes da Empresa Construtora Brasil. Na realidade, as contas de 2025 permitem apurar a contrapartida: 2,385 M€ em numerário + 7,949 M€ por encontro de contas + 6,283 M€ por liquidar, cerca de 16,6 M€ no total.
Também teria cuidado com a afirmação de que a Mota celebra “sempre” contratos em euros ou dólares e “nunca” em moedas locais. Num grupo presente em tantas geografias parece-me demasiado absoluto, até porque o próprio 1S26 voltou a mostrar que o risco cambial existe e afeta os resultados.
Há ainda uma distinção que considero importante: EBITDA não é cash flow. E aqui os últimos resultados até acrescentam um dado bastante interessante à análise: a Mota gerou 159 M€ de free cash flow no semestre, equivalente a cerca de 33% do EBITDA.
Quanto às projeções do Borja, aí não vejo propriamente erros. Vejo sobretudo uma opção bastante conservadora.
O Borja assume crescimento médio das receitas de 5,9% e margem líquida de 2,9%. O FOCUS 2030 aponta para cerca de 9 mil M€ de receitas e margem líquida do Grupo igual ou superior a 4%.
E convém esclarecer um ponto que já discutimos aqui: no glossário do próprio FOCUS, o resultado líquido do Grupo corresponde ao resultado atribuível ao Grupo. Portanto, os 4% são efetivamente uma margem líquida atribuível aos acionistas da Mota-Engil, depois dos interesses minoritários.
Também nos dividendos a projeção do Borja é prudente, porque mantém os atuais 0,1736 € por ação, enquanto o FOCUS estabelece um payout de 30% a 50%. Não é um erro, mas é uma escolha que torna naturalmente o retorno projetado mais conservador se os lucros crescerem como a administração espera.
Na carteira, os 17,714 mil M€ no final de junho estão corretos, mas há ainda cerca de 2,5 mil M€ de contratos assinados posteriormente que não estavam incluídos nesse valor. Portanto, para analisar a visibilidade futura também acho importante considerar essa informação mais recente.
E há finalmente a mudança na composição do negócio.
No 1S26, a Engenharia Industrial/mineração apresentou 118 M€ de EBITDA e margem de 29%, enquanto o Ambiente fez 65 M€ de EBITDA com margem de 21%.
Para mim isto é importante porque a avaliação futura não vai depender apenas de quanto cresce a faturação. Vai depender também de quais os negócios que passam a representar uma parcela maior dos resultados e do cash flow do Grupo.
Por isso, no geral, considero a análise do Borja boa e útil. A principal diferença entre a leitura dele e a minha está sobretudo nas premissas futuras.
Se a Mota ficar por crescimentos próximos dos 5,9% e margens líquidas de 2,9%, a prudência do modelo poderá revelar-se bastante acertada.
Mas pessoalmente a minha leitura continua a ser mais bullish.
Não porque considere o FOCUS 2030 garantido, mas porque vejo vários sinais de que a Mota-Engil está a mudar de qualidade: mineração com margens muito elevadas, Ambiente com boa rentabilidade, concessões de longo prazo, melhor conversão de EBITDA em caixa e uma carteira que dá enorme visibilidade para os próximos anos.
Se a empresa conseguir aproximar-se dos 4% de margem líquida, mantendo a dívida controlada e aumentando o peso destes negócios de maior rentabilidade, então acredito que uma avaliação baseada em 2,9% de margem e 5,9% de crescimento poderá acabar por ficar claramente curta.
E, como tenho vindo a explicar aqui no fórum, a minha visão mais bullish não assenta numa única notícia nem num único número.
Assenta no conjunto: crescimento da carteira, melhoria das margens, mineração, Ambiente, concessões, Corredor do Lobito, novos mercados, maior geração de caixa e todas as oportunidades que poderão surgir nos próximos anos.
A isto juntaria ainda o enorme ciclo de investimento em infraestruturas que se prepara em várias geografias, seja em ferrovia, energia, portos, aeroportos, mobilidade militar, reconstrução ou novas infraestruturas digitais.
Naturalmente, nem todas essas oportunidades irão para a Mota-Engil e haverá riscos pelo caminho. Mas considero que a empresa está hoje muito melhor posicionada para aproveitar esse ciclo do que estava há alguns anos.
É aqui que está a minha principal diferença em relação à análise do Borja.
Ele olha para a Mota com bastante prudência e projeta uma evolução mais próxima do histórico recente. Eu atribuo uma probabilidade maior à execução do FOCUS e à transformação que já começa a aparecer nos números.
Posso estar errado, naturalmente, mas é precisamente por tudo o que tenho vindo a explicar aqui no fórum que continuo bullish e bastante investido na Mota-Engil.
Para mim, o maior potencial não está apenas no que a empresa vale hoje com os resultados atuais.
Está naquilo em que a Mota-Engil se pode transformar nos próximos anos se continuar a executar bem.
J.f.vieira
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
No setor da energia uma nova área com produção de Biometano.
Pensam em grande, e logo 10 fábricas.
https://www.jornaldenegocios.pt/empresa ... fim-do-ano
Pensam em grande, e logo 10 fábricas.
https://www.jornaldenegocios.pt/empresa ... fim-do-ano
Re: Mota Engil - Tópico Geral
Análise fundamental das ações da MOTA-ENGIl por Cesar Borja OnStocks. Muita gente as quer comprar a preços mais baixos tendo em conta as projeções de crescimento para 2030
https://borjaonstocks.com/acoes-mota-en ... e-profunda
Maior empresa do setor em Portugal, maior empresa de África (excluindo as chinesas) e 2a maior na América latina.
https://borjaonstocks.com/acoes-mota-en ... e-profunda
Maior empresa do setor em Portugal, maior empresa de África (excluindo as chinesas) e 2a maior na América latina.
Editado pela última vez por Kiko_463 em 1/9/2026 17:33, num total de 1 vez.
Re: Mota Engil - Tópico Geral
https://www.jornaldenegocios.pt/empresa ... ia-a-china
A notícia sobre a pressão de Trump para acelerar a construção de data centers fez-me olhar com mais atenção para esta área e, depois de ir consultar o próprio Focus 2030 da Mota-Engil, penso que este tema pode ser bastante mais importante para o Grupo do que parece à primeira vista.
Não estamos apenas a especular sobre uma possível nova área de negócio. No Focus 2030, a Mota-Engil diz claramente que pretende expandir seletivamente a Engenharia & Construção para setores estratégicos, onde inclui industrial, energia e infraestruturas digitais, reforçando capacidade técnica e parcerias para executar projetos EPC complexos.
Mas há um pormenor ainda mais interessante. Na área da Energia, a Mota identifica como objetivo a entrada em segmentos de elevado valor como “Power to DC”, sendo que o próprio documento esclarece que DC significa Data Centers. E nas iniciativas prioritárias fala também no desenvolvimento de projetos de energia em solar, armazenamento, hídrica e “power to data”. Portanto, a ligação entre energia e centros de dados está explicitamente prevista na estratégia até 2030.
E percebe-se porquê quando olhamos para a dimensão do mercado.
McKinsey estima que a procura mundial de capacidade de data centers possa chegar a cerca de 220 GW em 2030 e calcula que o investimento global apenas em infraestrutura de data centers, excluindo o hardware informático, possa ultrapassar US$1,7 biliões até 2030. Isto é importante: não estamos a falar dos milhares de milhões gastos em GPUs e servidores, mas da infraestrutura necessária para os colocar a funcionar — edifícios, sistemas elétricos e mecânicos, energia, refrigeração e restante infraestrutura física.
Na Europa, a mesma McKinsey estima que a procura possa aumentar de cerca de 10 GW para 35 GW até 2030, exigindo aproximadamente US$250 a US$300 mil milhões de investimento em infraestrutura de data centers. E esse número nem sequer inclui a nova produção elétrica nem investimentos a montante nas redes de transporte e distribuição de eletricidade.
A própria União Europeia acelerou esta aposta. Em julho lançou o processo para criar até sete AI Gigafactories, apoiadas por até €10 mil milhões de financiamento europeu e nacional, com o objetivo de mobilizar pelo menos mais €20 mil milhões de investimento privado. São instalações que combinam capacidade computacional, cloud e grandes data centers energeticamente eficientes.
E depois temos Portugal, onde a oportunidade é especialmente interessante para uma empresa como a Mota-Engil.
O Plano Nacional de Centros de Dados indica que Portugal tem atualmente mais de 2,6 GW de capacidade de TI planeada. O Governo estima ainda que, por cada gigawatt adicional de capacidade efetivamente instalada, sejam necessários cerca de €8 mil milhões de investimento inicial. Não significa que os 2,6 GW venham todos a ser construídos, mas dá uma boa ideia da intensidade de capital deste negócio.
Só o Sines Data Campus, da Start Campus, está projetado para atingir 1,2 GW, com um investimento global estimado em €8,5 mil milhões.
E a Mota-Engil já não parte do zero.
Foi-lhe adjudicada pela REN a primeira fase da remodelação do Data Center de Ermesinde, por €9,6 milhões. É um contrato pequeno comparado com os grandes hyperscalers, evidentemente, mas é uma referência real dentro do setor e já permite à empresa mostrar experiência executada num data center.
Depois há um ponto que considero ainda mais importante: energia e eletromecânica.
A Mota-Engil tem mais de 40 anos de experiência em eletromecânica, executa instalações de média, alta e muito alta tensão, instalações mecânicas, automação e sistemas de gestão técnica, e constrói subestações elétricas de 60 a 400 kV. Num grande data center, garantir dezenas ou centenas de MW de energia de forma contínua e redundante é uma das partes mais críticas do projeto.
Também considero relevante a obra da CALB em Sines, de €207,3 milhões. Não é um data center e convém deixar isso claro, mas demonstra capacidade para executar um grande projeto industrial complexo que inclui estruturas, instalações especializadas, uma estação de redução de tensão, edifício associado à central de energia, equipamentos industriais e cablagem. São competências bastante próximas das necessárias para participar na construção de grandes infraestruturas digitais.
Depois há o México, onde para mim talvez esteja uma das oportunidades mais interessantes.
CloudHQ anunciou US$4,8 mil milhões para construir seis data centers em Querétaro, num projeto que deverá criar cerca de 7.200 postos de trabalho durante a construção.
A AWS, por sua vez, abriu a região México Central e prevê investir mais de US$5 mil milhões no país durante 15 anos.
Ora, o México é precisamente um dos mercados que a Mota identifica como core no Focus 2030. Está no país desde 2008, participa na conceção, construção e operação de infraestruturas e possui também atividade própria de energia através da Fénix. Em 2025, a Generadora Fénix produziu mais de 800 GWh e a Suministradora Fénix comercializou mais de 2.000 GWh de eletricidade.
Portanto, no México, a Mota reúne uma combinação que poucos construtores tradicionais conseguem oferecer: construção + grandes projetos industriais + eletromecânica + energia + conhecimento local.
No Brasil o mercado também está a ganhar uma dimensão enorme. O Ministério das Minas e Energia brasileiro refere 38 GW de pedidos de acesso à rede para data centers, dos quais 7,1 GW correspondem a cerca de R$159 mil milhões de investimentos previstos para os próximos anos. Mais uma vez, pedidos de ligação não significam projetos garantidos, mas revelam a escala do interesse que está a chegar ao país.
E isto encaixa novamente no Focus 2030, onde a Mota pretende elevar a América do Sul e procurar novos projetos de elevado retorno, ao mesmo tempo que entra seletivamente em energia, indústria e infraestruturas digitais.
Para mim, o potencial está precisamente na integração destas competências.
Um data center de IA não começa nos servidores. Antes disso é necessário preparar o terreno, construir edifícios e estruturas, garantir acessos, instalar subestações e ligações elétricas,
sistemas de média e alta tensão, equipamentos mecânicos, automação, sistemas de armazenamento de energia, geração renovável, refrigeração e toda a infraestrutura necessária para funcionar praticamente sem interrupções.
É precisamente por isso que considero tão relevante a expressão “Power to DC” no Focus 2030. A Mota pode não ter de ser dona nem operadora dos data centers para ganhar dinheiro neste mercado. Pode participar na construção, EPC, energia, subestações, instalações eletromecânicas e infraestrutura exterior, individualmente ou através de parceiros especializados.
Naturalmente, há que manter os pés no chão. A Mota ainda não anunciou um grande contrato hyperscale e esta é uma indústria extremamente exigente em prazos, redundância elétrica, refrigeração e experiência técnica específica. A própria administração reconhece no Focus 2030 a necessidade de reforçar a profundidade técnica e o ecossistema de parceiros para executar projetos EPC complexos.
Mas uma coisa é dizer que os data centers poderiam ser uma oportunidade para a Mota-Engil e outra completamente diferente é perceber que a própria empresa já colocou infraestruturas digitais, Power to DC e power to data dentro do seu plano estratégico até 2030.
E isso acontece precisamente quando o mercado mundial se prepara para investir mais de US$1,7 biliões em infraestrutura de data centers até 2030, a Europa poderá necessitar de US$250–300 mil milhões, Portugal tem mais de 2,6 GW planeados, e México e Brasil estão a anunciar projetos e intenções de investimento de enorme dimensão.
Portanto, eu não colocaria ainda este negócio nas contas futuras da Mota-Engil como se estivesse garantido. Mas também já não o trataria como uma possibilidade remota.
A estratégia está definida, existe já uma primeira referência em data centers, existem as competências de construção e energia e, acima de tudo, existe um mercado gigantesco a formar-se precisamente nos países onde a Mota-Engil já tem presença.
Agora falta aquilo que realmente fará o mercado prestar atenção a esta área: a primeira grande adjudicação em infraestruturas digitais.
Se ela aparecer, o “Power to DC” do Focus 2030 poderá deixar rapidamente de ser apenas uma linha numa apresentação estratégica para se tornar mais um verdadeiro vetor de crescimento da Mota-Engil.
J.f.vieira
A notícia sobre a pressão de Trump para acelerar a construção de data centers fez-me olhar com mais atenção para esta área e, depois de ir consultar o próprio Focus 2030 da Mota-Engil, penso que este tema pode ser bastante mais importante para o Grupo do que parece à primeira vista.
Não estamos apenas a especular sobre uma possível nova área de negócio. No Focus 2030, a Mota-Engil diz claramente que pretende expandir seletivamente a Engenharia & Construção para setores estratégicos, onde inclui industrial, energia e infraestruturas digitais, reforçando capacidade técnica e parcerias para executar projetos EPC complexos.
Mas há um pormenor ainda mais interessante. Na área da Energia, a Mota identifica como objetivo a entrada em segmentos de elevado valor como “Power to DC”, sendo que o próprio documento esclarece que DC significa Data Centers. E nas iniciativas prioritárias fala também no desenvolvimento de projetos de energia em solar, armazenamento, hídrica e “power to data”. Portanto, a ligação entre energia e centros de dados está explicitamente prevista na estratégia até 2030.
E percebe-se porquê quando olhamos para a dimensão do mercado.
McKinsey estima que a procura mundial de capacidade de data centers possa chegar a cerca de 220 GW em 2030 e calcula que o investimento global apenas em infraestrutura de data centers, excluindo o hardware informático, possa ultrapassar US$1,7 biliões até 2030. Isto é importante: não estamos a falar dos milhares de milhões gastos em GPUs e servidores, mas da infraestrutura necessária para os colocar a funcionar — edifícios, sistemas elétricos e mecânicos, energia, refrigeração e restante infraestrutura física.
Na Europa, a mesma McKinsey estima que a procura possa aumentar de cerca de 10 GW para 35 GW até 2030, exigindo aproximadamente US$250 a US$300 mil milhões de investimento em infraestrutura de data centers. E esse número nem sequer inclui a nova produção elétrica nem investimentos a montante nas redes de transporte e distribuição de eletricidade.
A própria União Europeia acelerou esta aposta. Em julho lançou o processo para criar até sete AI Gigafactories, apoiadas por até €10 mil milhões de financiamento europeu e nacional, com o objetivo de mobilizar pelo menos mais €20 mil milhões de investimento privado. São instalações que combinam capacidade computacional, cloud e grandes data centers energeticamente eficientes.
E depois temos Portugal, onde a oportunidade é especialmente interessante para uma empresa como a Mota-Engil.
O Plano Nacional de Centros de Dados indica que Portugal tem atualmente mais de 2,6 GW de capacidade de TI planeada. O Governo estima ainda que, por cada gigawatt adicional de capacidade efetivamente instalada, sejam necessários cerca de €8 mil milhões de investimento inicial. Não significa que os 2,6 GW venham todos a ser construídos, mas dá uma boa ideia da intensidade de capital deste negócio.
Só o Sines Data Campus, da Start Campus, está projetado para atingir 1,2 GW, com um investimento global estimado em €8,5 mil milhões.
E a Mota-Engil já não parte do zero.
Foi-lhe adjudicada pela REN a primeira fase da remodelação do Data Center de Ermesinde, por €9,6 milhões. É um contrato pequeno comparado com os grandes hyperscalers, evidentemente, mas é uma referência real dentro do setor e já permite à empresa mostrar experiência executada num data center.
Depois há um ponto que considero ainda mais importante: energia e eletromecânica.
A Mota-Engil tem mais de 40 anos de experiência em eletromecânica, executa instalações de média, alta e muito alta tensão, instalações mecânicas, automação e sistemas de gestão técnica, e constrói subestações elétricas de 60 a 400 kV. Num grande data center, garantir dezenas ou centenas de MW de energia de forma contínua e redundante é uma das partes mais críticas do projeto.
Também considero relevante a obra da CALB em Sines, de €207,3 milhões. Não é um data center e convém deixar isso claro, mas demonstra capacidade para executar um grande projeto industrial complexo que inclui estruturas, instalações especializadas, uma estação de redução de tensão, edifício associado à central de energia, equipamentos industriais e cablagem. São competências bastante próximas das necessárias para participar na construção de grandes infraestruturas digitais.
Depois há o México, onde para mim talvez esteja uma das oportunidades mais interessantes.
CloudHQ anunciou US$4,8 mil milhões para construir seis data centers em Querétaro, num projeto que deverá criar cerca de 7.200 postos de trabalho durante a construção.
A AWS, por sua vez, abriu a região México Central e prevê investir mais de US$5 mil milhões no país durante 15 anos.
Ora, o México é precisamente um dos mercados que a Mota identifica como core no Focus 2030. Está no país desde 2008, participa na conceção, construção e operação de infraestruturas e possui também atividade própria de energia através da Fénix. Em 2025, a Generadora Fénix produziu mais de 800 GWh e a Suministradora Fénix comercializou mais de 2.000 GWh de eletricidade.
Portanto, no México, a Mota reúne uma combinação que poucos construtores tradicionais conseguem oferecer: construção + grandes projetos industriais + eletromecânica + energia + conhecimento local.
No Brasil o mercado também está a ganhar uma dimensão enorme. O Ministério das Minas e Energia brasileiro refere 38 GW de pedidos de acesso à rede para data centers, dos quais 7,1 GW correspondem a cerca de R$159 mil milhões de investimentos previstos para os próximos anos. Mais uma vez, pedidos de ligação não significam projetos garantidos, mas revelam a escala do interesse que está a chegar ao país.
E isto encaixa novamente no Focus 2030, onde a Mota pretende elevar a América do Sul e procurar novos projetos de elevado retorno, ao mesmo tempo que entra seletivamente em energia, indústria e infraestruturas digitais.
Para mim, o potencial está precisamente na integração destas competências.
Um data center de IA não começa nos servidores. Antes disso é necessário preparar o terreno, construir edifícios e estruturas, garantir acessos, instalar subestações e ligações elétricas,
sistemas de média e alta tensão, equipamentos mecânicos, automação, sistemas de armazenamento de energia, geração renovável, refrigeração e toda a infraestrutura necessária para funcionar praticamente sem interrupções.
É precisamente por isso que considero tão relevante a expressão “Power to DC” no Focus 2030. A Mota pode não ter de ser dona nem operadora dos data centers para ganhar dinheiro neste mercado. Pode participar na construção, EPC, energia, subestações, instalações eletromecânicas e infraestrutura exterior, individualmente ou através de parceiros especializados.
Naturalmente, há que manter os pés no chão. A Mota ainda não anunciou um grande contrato hyperscale e esta é uma indústria extremamente exigente em prazos, redundância elétrica, refrigeração e experiência técnica específica. A própria administração reconhece no Focus 2030 a necessidade de reforçar a profundidade técnica e o ecossistema de parceiros para executar projetos EPC complexos.
Mas uma coisa é dizer que os data centers poderiam ser uma oportunidade para a Mota-Engil e outra completamente diferente é perceber que a própria empresa já colocou infraestruturas digitais, Power to DC e power to data dentro do seu plano estratégico até 2030.
E isso acontece precisamente quando o mercado mundial se prepara para investir mais de US$1,7 biliões em infraestrutura de data centers até 2030, a Europa poderá necessitar de US$250–300 mil milhões, Portugal tem mais de 2,6 GW planeados, e México e Brasil estão a anunciar projetos e intenções de investimento de enorme dimensão.
Portanto, eu não colocaria ainda este negócio nas contas futuras da Mota-Engil como se estivesse garantido. Mas também já não o trataria como uma possibilidade remota.
A estratégia está definida, existe já uma primeira referência em data centers, existem as competências de construção e energia e, acima de tudo, existe um mercado gigantesco a formar-se precisamente nos países onde a Mota-Engil já tem presença.
Agora falta aquilo que realmente fará o mercado prestar atenção a esta área: a primeira grande adjudicação em infraestruturas digitais.
Se ela aparecer, o “Power to DC” do Focus 2030 poderá deixar rapidamente de ser apenas uma linha numa apresentação estratégica para se tornar mais um verdadeiro vetor de crescimento da Mota-Engil.
J.f.vieira
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- Registado: 29/11/2007 3:59
Re: Mota Engil - Tópico Geral
Kiko_463 Escreveu:Há um facto positivo que ainda não foi referido nas análises, as sinergias. A empresa tem conseguido renovar concessões o que demonstra confiança dos clientes.....e assim não chegam a desmontar os estaleiros. Além disso tem cada vez mais fileiras integradas de valor(integração vertical) que passam pelos estudos/projetos, concessões, explorações a longo prazo , vias de comunicação em PPP, caminhos d ferro, construção de portos, operador logístico, ambiente, fornecedor de meios de transporte, produção de energia.
Podiam era investir mais em habitação em Portugal mas não iam ganhar muito mais, pois neste país está tudo caro e inflacionado.
............. ................. ....................
Kiko, concordo. Essa integração das várias áreas da Mota-Engil é uma vantagem competitiva importante. A empresa não se limita a construir: participa em projetos, concessões, operação, logística, ambiente, energia e infraestruturas de longo prazo. Isso cria sinergias, permite aproveitar melhor os ativos e reduz a dependência de obras isoladas.
Quanto à habitação, em Portugal provavelmente não conseguiria margens tão interessantes como noutras geografias.
E há um dado que não deixa de ser relevante: a Berkshire Hathaway avançou para a compra de uma grande construtora residencial norte-americana por 6,8 mil milhões de dólares, num negócio em dinheiro.
Quando um dos maiores investidores de todos os tempos coloca milhares de milhões de dólares em capital num negócio ligado à construção e habitação, é porque continua a ver valor económico e potencial de longo prazo no setor.
J.f.vieira
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
Há um facto positivo que ainda não foi referido nas análises, as sinergias. A empresa tem conseguido renovar concessões o que demonstra confiança dos clientes.....e assim não chegam a desmontar os estaleiros. Além disso tem cada vez mais fileiras integradas de valor(integração vertical) que passam pelos estudos/projetos, concessões, explorações a longo prazo , vias de comunicação em PPP, caminhos d ferro, construção de portos, operador logístico, ambiente, fornecedor de meios de transporte, produção de energia.
Podiam era investir mais em habitação em Portugal mas não iam ganhar muito mais, pois neste país está tudo caro e inflacionado.
Podiam era investir mais em habitação em Portugal mas não iam ganhar muito mais, pois neste país está tudo caro e inflacionado.
Re: Mota Engil - Tópico Geral
NirSup, respondo pela mesma ordem.
1.º — Broadcom.
Aquilo a que chamas certeza, eu continuo a chamar convicção muito forte. Os resultados da Nvidia podem aumentar bastante a probabilidade de bons resultados da Broadcom, mas até serem publicados não são uma certeza. E até bons resultados podem fazer uma ação cair se o mercado esperava ainda melhor. Não é uma questão de semântica, é simplesmente Bolsa.
2.º — os 86% em África e América Latina.
O número está correto e o risco cambial existe. Mas 86% da carteira não significa 86% dependente de uma única moeda, país ou economia. E na mineração convém lembrar que a Mota é sobretudo prestadora de serviços mineiros; não é o preço diário do ouro ou do cobre que determina diretamente a sua faturação.
Aliás, eu vejo também o outro lado: esses 86% representam precisamente os mercados onde a Mota tem conseguido crescer, ganhar grandes contratos e construir uma carteira recorde. Risco existe, mas risco e oportunidade normalmente andam juntos.
3.º — dívida e concessões.
Os 3.514 M€ e os 3,43x EBITDA estão certos. Mas falta a outra metade da fotografia: o rácio baixou de 3,50x para 3,43x e a dívida líquida/EBITDA melhorou de 1,98x para 1,94x, abaixo dos 2x definidos no FOCUS 2030. Portanto, neste semestre a alavancagem relativa melhorou, não piorou.
Quanto ao Lobito e às novas concessões mexicanas, estão numa fase inicial de investimento. É normal que nesta fase pressionem resultados; a própria Mota diz que as concessões maduras já compensam parcialmente esse impacto. Estamos a falar de ativos que foram adquiridos para gerar resultados durante muitos anos, não durante um semestre.
Portanto, os avisos à navegação são bem-vindos. Só acho que, quando apontamos os riscos, devemos colocar também os números completos.
Eu vejo os rochedos. Só não parto do princípio de que o navio vai bater neles.
J.f.vieira
1.º — Broadcom.
Aquilo a que chamas certeza, eu continuo a chamar convicção muito forte. Os resultados da Nvidia podem aumentar bastante a probabilidade de bons resultados da Broadcom, mas até serem publicados não são uma certeza. E até bons resultados podem fazer uma ação cair se o mercado esperava ainda melhor. Não é uma questão de semântica, é simplesmente Bolsa.
2.º — os 86% em África e América Latina.
O número está correto e o risco cambial existe. Mas 86% da carteira não significa 86% dependente de uma única moeda, país ou economia. E na mineração convém lembrar que a Mota é sobretudo prestadora de serviços mineiros; não é o preço diário do ouro ou do cobre que determina diretamente a sua faturação.
Aliás, eu vejo também o outro lado: esses 86% representam precisamente os mercados onde a Mota tem conseguido crescer, ganhar grandes contratos e construir uma carteira recorde. Risco existe, mas risco e oportunidade normalmente andam juntos.
3.º — dívida e concessões.
Os 3.514 M€ e os 3,43x EBITDA estão certos. Mas falta a outra metade da fotografia: o rácio baixou de 3,50x para 3,43x e a dívida líquida/EBITDA melhorou de 1,98x para 1,94x, abaixo dos 2x definidos no FOCUS 2030. Portanto, neste semestre a alavancagem relativa melhorou, não piorou.
Quanto ao Lobito e às novas concessões mexicanas, estão numa fase inicial de investimento. É normal que nesta fase pressionem resultados; a própria Mota diz que as concessões maduras já compensam parcialmente esse impacto. Estamos a falar de ativos que foram adquiridos para gerar resultados durante muitos anos, não durante um semestre.
Portanto, os avisos à navegação são bem-vindos. Só acho que, quando apontamos os riscos, devemos colocar também os números completos.
Eu vejo os rochedos. Só não parto do princípio de que o navio vai bater neles.
J.f.vieira
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
pmlcastanho Escreveu:Margens de 4% até 2030 são realistas, mas quando incluimos a Bamina e a Odebrechet na equação, a coisa muda de figura.
O projecto Bamina têm minério estimado em 62 mil milhões de dolares, com um investimento da Mota de 5 mil milhões, tem tudo ser um bom negocio a longo prazo.
A compra de 40% da Odebrecht parece ser estratégico nesta perspectiva, mas dado o histórico da empresa parece-me arriscado.
O problema é que tudo isto vai pressionar as margens, independentemente da forma como o emprestimo for feito.
Entrada de stakeholders na unidade de mineração ajuda a aliviar a divida, mas vai reduzir os lucros.
Se tudo isto vier a ser concretizado, custa-me a acreditar em margens de 4% em 2030.
................. ................... .................
pmlcastanho, concordo que há riscos, mas não acho que Bamin e uma eventual entrada de 40% na Odebrecht tenham necessariamente de impedir os 4% de margem.
Os 40% ainda não estão confirmados, mas considero a possibilidade séria: a Odebrecht procura um parceiro estratégico e a relação com a Mota já existe há muitos anos.
Na Bamin, tudo dependerá da estrutura. Não é a mesma coisa carregar milhares de milhões no balanço ou avançar com parceiros, equity e project finance.
E na Mining Services, vender uma participação reduz a parte dos lucros, mas também reduz capital, risco e dívida.
Por isso continuo a achar os 4% possíveis. O mais importante não é quanto a Mota investe, mas o retorno que consegue gerar sobre o capital que realmente coloca.
J.f.vieira
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
E Tem Mais uma Coisita (de somenos importância)
O mercado mantém um olhar atento ao nível de endividamento bruto (3 514 milhões de euros, 3,43 X EBITDA) e ao abrandamento temporário na margem em novas operações de concessão (como no México e no Corredor do Lobito).
By Nirvana
O mercado mantém um olhar atento ao nível de endividamento bruto (3 514 milhões de euros, 3,43 X EBITDA) e ao abrandamento temporário na margem em novas operações de concessão (como no México e no Corredor do Lobito).
By Nirvana
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
NirSup Escreveu:AVISO À NAVEGAÇÃO
Uma parte substancial do negócio da Mota-Engil provém da América Latina e de África (cerca de 86% da carteira).
Flutuações nas moedas locais dessas regiões ou volatilidade nos setores de matérias-primas/mineração podem impactar fortemente a cotação da Mota-Engil.
É verdade que em terra de cegos quem tem um olho é Rei.
O problema não é esse. O problema é que, em terra de cegos, andam todos às escuras.
By Nirvana
Alguns andam bem às claras... a ME parece que por estas bandas vai tendo boa visibilidade, mas claro, são mercados que mais voláteis.
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
NirSup Escreveu:AVISO À NAVEGAÇÃO
Uma parte substancial do negócio da Mota-Engil provém da América Latina e de África (cerca de 86% da carteira).
Flutuações nas moedas locais dessas regiões ou volatilidade nos setores de matérias-primas/mineração podem impactar fortemente a cotação da Mota-Engil.
É verdade que em terra de cegos quem tem um olho é Rei.
O problema não é esse. O problema é que, em terra de cegos, andam todos às escuras.
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Alguns andam bem às claras... a ME parece que por estas bandam vai tendo boa visibilidade, mas claro, são mercados que mais voláteis.
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
AVISO À NAVEGAÇÃO
Uma parte substancial do negócio da Mota-Engil provém da América Latina e de África (cerca de 86% da carteira).
Flutuações nas moedas locais dessas regiões ou volatilidade nos setores de matérias-primas/mineração podem impactar fortemente a cotação da Mota-Engil.
É verdade que em terra de cegos quem tem um olho é Rei.
O problema não é esse. O problema é que, em terra de cegos, andam todos às escuras.
By Nirvana
Uma parte substancial do negócio da Mota-Engil provém da América Latina e de África (cerca de 86% da carteira).
Flutuações nas moedas locais dessas regiões ou volatilidade nos setores de matérias-primas/mineração podem impactar fortemente a cotação da Mota-Engil.
É verdade que em terra de cegos quem tem um olho é Rei.
O problema não é esse. O problema é que, em terra de cegos, andam todos às escuras.
By Nirvana
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
J.f.vieira Escreveu:Quanto às “certezas”, aí talvez vejamos a bolsa de maneira diferente. Eu pelo menos não conheço muitas certezas no mercado. O que procuro são probabilidades, evolução dos números e perceber se a empresa está ou não a caminhar na direção que prometeu.
Na Bolsa não há certezas absolutas, nem tão pouco certezas.
Em Bolsa temos mais dúvidas do que certezas, mas eu tenho a certeza que os resultados da Broadcom, na próxima semana, serão positivos, altamente positivos, acompanhando os resultados positivos da Nvidia.
Se é que me faço entender.
By Nirvana
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
Margens de 4% até 2030 são realistas, mas quando incluimos a Bamina e a Odebrechet na equação, a coisa muda de figura.
O projecto Bamina têm minério estimado em 62 mil milhões de dolares, com um investimento da Mota de 5 mil milhões, tem tudo ser um bom negocio a longo prazo.
A compra de 40% da Odebrecht parece ser estratégico nesta perspectiva, mas dado o histórico da empresa parece-me arriscado.
O problema é que tudo isto vai pressionar as margens, independentemente da forma como o emprestimo for feito.
Entrada de stakeholders na unidade de mineração ajuda a aliviar a divida, mas vai reduzir os lucros.
Se tudo isto vier a ser concretizado, custa-me a acreditar em margens de 4% em 2030.
O projecto Bamina têm minério estimado em 62 mil milhões de dolares, com um investimento da Mota de 5 mil milhões, tem tudo ser um bom negocio a longo prazo.
A compra de 40% da Odebrecht parece ser estratégico nesta perspectiva, mas dado o histórico da empresa parece-me arriscado.
O problema é que tudo isto vai pressionar as margens, independentemente da forma como o emprestimo for feito.
Entrada de stakeholders na unidade de mineração ajuda a aliviar a divida, mas vai reduzir os lucros.
Se tudo isto vier a ser concretizado, custa-me a acreditar em margens de 4% em 2030.
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
Há ainda um tema que considero importante para os próximos anos: o enorme aumento do investimento europeu em defesa e segurança.
E quando se fala em defesa não estamos apenas a falar de armamento. Os países da NATO comprometeram-se a caminhar até 2035 para um esforço total de 5% do PIB, sendo pelo menos 3,5% para defesa militar propriamente dita e até 1,5% para despesas mais amplas relacionadas com segurança, onde entram proteção de infraestruturas críticas, resiliência, preparação civil, redes, indústria e mobilidade militar.
E aqui há um ponto importante: não estamos a falar de um único orçamento europeu, mas de cada país aumentar progressivamente a percentagem do seu próprio PIB destinada à defesa e segurança. À medida que essa percentagem sobe, também aumenta muito o valor absoluto disponível para investimentos associados à defesa.
Naturalmente, esse dinheiro não vai todo para armamento. Uma parte terá necessariamente de ser utilizada em infraestruturas críticas e mobilidade militar: reforço de pontes, melhoria de estradas, ferrovias, túneis, portos, aeroportos, plataformas logísticas, energia e outras infraestruturas necessárias para movimentar rapidamente tropas e equipamento pesado.
A União Europeia já identificou cerca de 500 pontos críticos nas principais rotas europeias que precisam de intervenção. Entre 2021 e 2027 foram destinados cerca de 1,69 mil M€ à mobilidade militar e, para 2028-2034, a Comissão Europeia propõe aumentar essa verba para cerca de 17,65 mil M€, praticamente dez vezes mais.
Além disso, o plano europeu Readiness 2030/ReArm Europe pretende criar condições para mobilizar até 800 mil M€ adicionais para defesa, incluindo 150 mil M€ através do programa SAFE. Naturalmente, não estou a dizer que estes 800 mil M€ vão para construção, mas mostram bem a dimensão do ciclo de investimento que está a começar.
Portanto, quando cada país aumentar a percentagem do PIB dedicada à defesa, parece-me inevitável que também aumente significativamente o valor destinado a infraestruturas.
Não estou naturalmente a dizer que essas obras serão entregues à Mota-Engil. Mas olhando para a experiência do grupo precisamente em estradas, pontes, túneis, ferrovias, portos, aeroportos e grandes projetos de engenharia, vejo aqui mais uma área que poderá criar oportunidades importantes durante muitos anos.
No fundo, quando se fala nos muitos milhares de milhões que Europa e NATO vão investir em defesa, convém não olhar apenas para quem fabrica armamento.
Sem estradas, pontes, ferrovias, portos e aeroportos preparados para movimentar pessoas e equipamento pesado, a própria defesa não funciona.
J.f.vieira
E quando se fala em defesa não estamos apenas a falar de armamento. Os países da NATO comprometeram-se a caminhar até 2035 para um esforço total de 5% do PIB, sendo pelo menos 3,5% para defesa militar propriamente dita e até 1,5% para despesas mais amplas relacionadas com segurança, onde entram proteção de infraestruturas críticas, resiliência, preparação civil, redes, indústria e mobilidade militar.
E aqui há um ponto importante: não estamos a falar de um único orçamento europeu, mas de cada país aumentar progressivamente a percentagem do seu próprio PIB destinada à defesa e segurança. À medida que essa percentagem sobe, também aumenta muito o valor absoluto disponível para investimentos associados à defesa.
Naturalmente, esse dinheiro não vai todo para armamento. Uma parte terá necessariamente de ser utilizada em infraestruturas críticas e mobilidade militar: reforço de pontes, melhoria de estradas, ferrovias, túneis, portos, aeroportos, plataformas logísticas, energia e outras infraestruturas necessárias para movimentar rapidamente tropas e equipamento pesado.
A União Europeia já identificou cerca de 500 pontos críticos nas principais rotas europeias que precisam de intervenção. Entre 2021 e 2027 foram destinados cerca de 1,69 mil M€ à mobilidade militar e, para 2028-2034, a Comissão Europeia propõe aumentar essa verba para cerca de 17,65 mil M€, praticamente dez vezes mais.
Além disso, o plano europeu Readiness 2030/ReArm Europe pretende criar condições para mobilizar até 800 mil M€ adicionais para defesa, incluindo 150 mil M€ através do programa SAFE. Naturalmente, não estou a dizer que estes 800 mil M€ vão para construção, mas mostram bem a dimensão do ciclo de investimento que está a começar.
Portanto, quando cada país aumentar a percentagem do PIB dedicada à defesa, parece-me inevitável que também aumente significativamente o valor destinado a infraestruturas.
Não estou naturalmente a dizer que essas obras serão entregues à Mota-Engil. Mas olhando para a experiência do grupo precisamente em estradas, pontes, túneis, ferrovias, portos, aeroportos e grandes projetos de engenharia, vejo aqui mais uma área que poderá criar oportunidades importantes durante muitos anos.
No fundo, quando se fala nos muitos milhares de milhões que Europa e NATO vão investir em defesa, convém não olhar apenas para quem fabrica armamento.
Sem estradas, pontes, ferrovias, portos e aeroportos preparados para movimentar pessoas e equipamento pesado, a própria defesa não funciona.
J.f.vieira
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
@nmv! Escreveu:esquecem-se de mais uma coisa.
FED aumenta as taxas de juro para controlar a inflação.
a IA leva a despedimentos massivos, onde o aumento do desemprego será uma evidência
com as barreiras à entrada fruto da política de emigração de Trump e execução do ICE em aperto aos ilegais, induz na redução da população emigrante que faz os trabalhos que os americanos não querem.
taxas de juro elevadas incrementam o preço do dinheiro
aumento do desemprego leva a crise económica
o conflito no Médio Oriente provocou perdas de infra estruturas que levarão anos a retomar, e o preço do oil e gás vão ficar elevados por muito tempo!
diminuição da actividade económica global
adiamento dos grandes projectos de investimento dos governos a nível mundial
............... ...................... ....................
@nmv, alguns dos riscos que referes são reais, mas acho que estás a assumir que vários cenários negativos vão acontecer todos ao mesmo tempo e conduzir inevitavelmente a uma crise global.
Quanto à IA, no caso da Mota-Engil vejo mais oportunidade do que ameaça. A IA pode reduzir trabalho administrativo, melhorar projetos, planeamento e custos, mas não constrói pontes, túneis, ferrovias, aeroportos nem opera minas. A Mota-Engil continuará a precisar de muita maquinaria e mão de obra no terreno. E restringir fortemente a imigração nos EUA pode até agravar a falta de trabalhadores na construção, não eliminar a necessidade das obras.
Juros e energia elevados são obviamente negativos e podem adiar alguns investimentos privados. Mas não concordo que daí resulte necessariamente o adiamento generalizado das grandes infraestruturas. Há investimentos em ferrovia, energia, água, portos, defesa e novas rotas logísticas que hoje são considerados estratégicos e que os governos não podem simplesmente abandonar.
E infelizmente há ainda outra realidade: o mundo vai precisar de reconstruir muito. Só na Ucrânia, Banco Mundial, Comissão Europeia, ONU e Governo ucraniano estimam cerca de US$588 mil milhões de necessidades de recuperação e reconstrução na próxima década. Em Gaza, a estimativa mais recente aponta para cerca de US$71,4 mil milhões, dos quais aproximadamente US$26,3 mil milhões serão necessários apenas nos primeiros 18 meses.
A isto juntam-se sismos, cheias, incêndios e outros fenómenos extremos que, infelizmente, têm provocado cada vez mais destruição de infraestruturas.
Não estou obviamente a dizer que essas obras serão para a Mota-Engil. Digo apenas que me parece difícil defender que o mundo vai deixar de precisar de grandes empresas de construção e infraestruturas quando as necessidades de reconstrução continuam desta dimensão.
Por isso não vejo a sequência IA → desemprego → crise → fim das grandes obras como uma inevitabilidade.
No caso da Mota-Engil, estamos precisamente num setor difícil de substituir pela IA e ligado a necessidades físicas que continuarão a existir: ferrovias, estradas, pontes, túneis, mineração, ambiente, água, energia e reconstrução.
Os riscos existem. Mas também existem oportunidades que esse cenário mais pessimista não está a considerar.
J.f.vieira
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
esquecem-se de mais uma coisa.
FED aumenta as taxas de juro para controlar a inflação.
a IA leva a despedimentos massivos, onde o aumento do desemprego será uma evidência
com as barreiras à entrada fruto da política de emigração de Trump e execução do ICE em aperto aos ilegais, induz na redução da população emigrante que faz os trabalhos que os americanos não querem.
taxas de juro elevadas incrementam o preço do dinheiro
aumento do desemprego leva a crise económica
o conflito no Médio Oriente provocou perdas de infra estruturas que levarão anos a retomar, e o preço do oil e gás vão ficar elevados por muito tempo!
diminuição da actividade económica global
adiamento dos grandes projectos de investimento dos governos a nível mundial
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
NirSup Escreveu:J.f.vieira Escreveu:Mota-Engil – a minha leitura depois dos resultados do 1.º semestre
9.000 M€ de receitas × 4% de margem líquida = aproximadamente 360 M€ de lucro.
Com as atuais 306,8 milhões de ações, seriam cerca de 1,17 € de lucro por ação.
A um PER de 8x, isso corresponderia a aproximadamente 9,40 € por ação.
A 9x, aproximadamente 10,55 €.
A 10x, cerca de 11,70 €.
São números risonhos/floridos. Mas a realidade atual é esta: a Margem Líquida é aproximadamente de 2,55\%.
O que é curto. Muito curto.
E eu não vivo de promessas vãs, mas de certezas.
By Nirvana
.................. ..................... ..................
NirSup, tens razão numa coisa: uma margem líquida atual de cerca de 2,6% é curta. Isso eu não contesto.
Mas penso que estás a misturar duas coisas diferentes. Eu não disse que a Mota-Engil tem hoje uma margem de 4%. Os 4% que utilizei são a meta definida pela própria empresa no FOCUS 2030, e as contas que fiz são precisamente para mostrar quanto poderá valer se essa meta for atingida.
Aliás, no 1.º semestre a margem passou de 2,2% para 2,6%, com o lucro a subir 24% enquanto as receitas cresceram apenas 6%. Ainda está longe dos 4%, concordo, mas a trajetória está a ir no sentido certo.
E para não vivermos nem de números “risonhos” nem de promessas, podemos fazer a conta ao contrário.
Com 9.000 M€ de receitas em 2030:
mantendo uma margem de 2,6%, seriam cerca de 234 M€ de lucro, ou aproximadamente 0,76 € por ação;
com margem de 3%, seriam 270 M€, cerca de 0,88 € por ação;
com os 4% do FOCUS, seriam 360 M€, cerca de 1,17 € por ação.
A um PER de 9x, por exemplo, isso daria aproximadamente 6,86 €, 7,92 € ou 10,55 € por ação, respetivamente.
Portanto, não estou a dizer que os 10 € são uma certeza. Estou a dizer exatamente o contrário: dependem da execução.
Se em 2030 a margem continuar perto dos atuais 2,6%, naturalmente a minha avaliação terá de ser bastante mais baixa. Se chegar aos 4% que a administração colocou como objetivo, então os 10 € deixam de me parecer um número florido, porque corresponderiam a um PER inferior a 9x.
Quanto às “certezas”, aí talvez vejamos a bolsa de maneira diferente. Eu pelo menos não conheço muitas certezas no mercado. O que procuro são probabilidades, evolução dos números e perceber se a empresa está ou não a caminhar na direção que prometeu.
Neste momento temos uma realidade: 2,6% ainda é pouco, mas era 2,2% há um ano e o lucro cresceu 24%.
Agora cabe à Mota-Engil provar que consegue continuar essa evolução. Se não conseguir, também terei de rever as minhas contas.
J.f.vieira
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
J.f.vieira Escreveu:Mota-Engil – a minha leitura depois dos resultados do 1.º semestre
9.000 M€ de receitas × 4% de margem líquida = aproximadamente 360 M€ de lucro.
Com as atuais 306,8 milhões de ações, seriam cerca de 1,17 € de lucro por ação.
A um PER de 8x, isso corresponderia a aproximadamente 9,40 € por ação.
A 9x, aproximadamente 10,55 €.
A 10x, cerca de 11,70 €.
São números risonhos/floridos. Mas a realidade atual é esta: a Margem Líquida é aproximadamente de 2,55\%.
O que é curto. Muito curto.
E eu não vivo de promessas vãs, mas de certezas.
By Nirvana
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
Mota-Engil – a minha leitura depois dos resultados do 1.º semestre
Depois de olhar com mais calma para os resultados, para a carteira de encomendas e para aquilo que está a acontecer à volta da Mota-Engil, continuo a achar que avaliar hoje esta empresa simplesmente como uma construtora é olhar para uma realidade que está a mudar rapidamente.
No primeiro semestre de 2026, a Mota-Engil apresentou 2.898 M€ de volume de negócios, 487 M€ de EBITDA e 74 M€ de lucro atribuível aos acionistas, contra 59 M€ no período homólogo. Ou seja, as receitas cresceram 6%, o EBITDA 10% e o lucro 24%. A margem EBITDA passou de 16% para 17% e a margem líquida de 2,2% para 2,6%. Para mim, isto é importante: os lucros estão a crescer muito mais depressa do que a faturação, o que mostra uma melhoria real da rentabilidade e da qualidade dos negócios que estão a entrar no Grupo.
E estes números foram conseguidos num semestre que esteve longe de ser fácil. Tivemos energia cara, perturbações no transporte através do Estreito de Ormuz, juros elevados e diferenças cambiais desfavoráveis. Aliás, a própria Mota-Engil refere que as diferenças cambiais tiveram impacto negativo nos resultados financeiros. Mesmo assim, os encargos financeiros líquidos melhoraram de 128 M€ para 97 M€, ajudados pela redução da taxa média de financiamento. Portanto, conseguir aumentar o lucro atribuível em 24% neste contexto parece-me um sinal bastante positivo.
A dívida é outro assunto que gosto de analisar com contexto e não apenas olhando para o número absoluto.
A dívida líquida estava em 1.990 M€, com dívida líquida/EBITDA de 1,94x, melhor do que os 1,98x de dezembro. A própria apresentação dos resultados diz que a alavancagem continua dentro dos objetivos do FOCUS 2030. Mais importante ainda, a empresa gerou 159 M€ de free cash flow no semestre, correspondentes a 33% do EBITDA, acima do objetivo ≥25% definido para o período 2026-2030.
E há aqui um ponto que muitas vezes é esquecido quando se fala do aumento do investimento: a Mota-Engil investiu 185 M€ de CAPEX, sendo 63% dirigido à Engenharia Industrial, nomeadamente ao equipamento necessário para os grandes contratos de mineração.
E isto não é apenas uma interpretação minha. A própria IFC, do Banco Mundial, explica no financiamento concedido à Mota-Engil que o dinheiro se destina à compra de equipamento de construção e mineração para projetos em África e acrescenta expressamente que essas máquinas poderão posteriormente ser utilizadas em diferentes projetos dentro desses países. Ou seja, uma escavadora, um camião mineiro ou outro equipamento pesado comprado hoje não é um custo que desaparece quando termina a primeira obra. É um ativo que pode trabalhar durante vários anos, passar para extensões dos atuais contratos e depois para novos projetos.
A IFC já concedeu à Mota-Engil um financiamento de US$214 M precisamente para apoiar a expansão de projetos mineiros e ferroviários em África. Portanto, quando vejo dívida associada à compra de maquinaria que vai produzir receitas durante anos, analiso-a de forma diferente de dívida criada simplesmente para financiar prejuízos ou despesas correntes.
Depois temos a carteira de encomendas, que atingiu um nível que há poucos anos seria difícil imaginar.
No final de junho eram 17,7 mil M€, um novo máximo histórico. E durante o primeiro semestre entraram 4,1 mil M€ de novas adjudicações, antes do consumo da carteira. A carteira de 17,7 mil M€ representa cerca de 3,7 anos de visibilidade de execução em Engenharia & Construção.
E atenção: os 17,7 mil M€ não incluem cerca de 2,5 mil M€ de contratos assinados depois de junho. A apresentação identifica negócios posteriores no México, Peru, Brasil, Portugal, Nigéria e RDC. Entre eles estão US$655 M adicionais na ferrovia Kano-Maradi, na Nigéria, e US$1,8 mil M relacionados com a extensão do Corredor do Lobito na República Democrática do Congo. É daí que resulta a referência aos aproximadamente 20,2 mil M€, somando a carteira de junho aos contratos posteriores.
Portanto, trabalho não parece faltar. A questão agora é outra: transformar estes mais de 20 mil M€ em EBITDA, caixa e lucro.
E é aqui que a mineração me parece cada vez mais importante.
No primeiro semestre, a Engenharia Industrial/mineração gerou 411 M€ de receitas e 118 M€ de EBITDA, com uma margem EBITDA de 29%. Em comparação, eram 357 M€ de receitas e 102 M€ de EBITDA no primeiro semestre de 2025. Portanto, o EBITDA cresceu 16%, mantendo uma margem que é muito superior à construção tradicional.
A carteira da mineração já ronda 3,2 mil M€.
E apareceu entretanto um dado que considero bastante significativo: o contrato da mina de ouro de Kurmuk, na Etiópia, inicialmente de US$584 M, foi aumentado para US$842 M, uma subida de 44%, e prolongado por mais um ano. Não é rumor nem estimativa; consta da apresentação dos resultados. Só esta extensão acrescenta aproximadamente US$258 M ao contrato.
Temos depois Amulsar, na Arménia, com uma carteira de 581 M€, prevista para iniciar operações no terceiro trimestre de 2026. Portanto, aqueles 118 M€ de EBITDA no primeiro semestre foram obtidos sem Amulsar ainda estar a contribuir em pleno.
E entretanto foi criada a ME Mining Services, dando uma estrutura própria a esta atividade. Não sei se amanhã aparecerá um investidor, se haverá abertura de capital ou outra operação — não vou especular sobre isso. Mas parece-me evidente que autonomizar um negócio que já produz mais de 100 M€ de EBITDA em seis meses e margens de 29% pode ajudar a tornar o seu valor muito mais visível.
O Ambiente também não pode ser tratado como um negócio secundário.
Fez 314 M€ de receitas e 65 M€ de EBITDA no semestre. O EBITDA cresceu 12% e a margem passou de 19% para 21%.
E há um pormenor que considero muito importante: a carteira de encomendas publicada pela Mota-Engil não inclui o negócio de tratamento de resíduos da EGF, que ainda tem cerca de oito anos de duração contratual e apresenta receitas LTM de aproximadamente 417 M€. Ou seja, existe aqui visibilidade futura que não aparece nos 17,7 mil M€ de backlog.
Somando apenas Mineração + Ambiente, temos 183 M€ de EBITDA num único semestre, e com margens de 29% e 21%, respetivamente. É por isto que continuo a dizer que a Mota-Engil está cada vez menos dependente da margem tradicional da construção.
E ainda há novos negócios de circularidade. A empresa prevê começar a operar unidades de biometano no quarto trimestre de 2026, criando mais uma fonte potencial de receitas recorrentes.
Depois chegamos ao Corredor do Lobito, e aqui considero que existe uma dimensão estratégica e geopolítica que merece atenção.
O Corredor do Lobito liga o interior mineiro da RDC e da Zâmbia ao Atlântico através de Angola. A União Europeia estima que esta infraestrutura possa reduzir o tempo necessário para transportar mercadorias da RDC/Zâmbia até ao mar de mais de um mês para aproximadamente uma semana. E a UE e os seus Estados-Membros estão a mobilizar mais de 2 mil M€ para iniciativas associadas ao corredor.
Isto é particularmente relevante porque estamos a falar de uma das regiões mais importantes do mundo em cobre, cobalto e outros minerais críticos.
Num mundo em que assistimos ao que pode acontecer quando rotas estratégicas como Ormuz ou o Mar Vermelho ficam condicionadas, considero normal que EUA e Europa procurem diversificar cadeias de abastecimento e rotas de transporte. Não estou a dizer que Lobito substitui Ormuz — são matérias-primas e rotas diferentes. Estou a dizer que a lógica estratégica é a diversificação e segurança das cadeias de abastecimento.
E os Estados Unidos não estão apenas a acompanhar o projeto de longe.
Em dezembro, a DFC norte-americana assinou uma carta de interesse diretamente com a Mota-Engil Engenharia e Construção África para a reabilitação, operação e transferência da linha Dilolo-Sakania, na RDC. O projeto poderá procurar até US$1.000 M de financiamento da DFC, sujeito naturalmente à análise final. A própria DFC diz que esta ferrovia deverá ligar-se ao Lobito Atlantic Railway e reforçar as cadeias de fornecimento de minerais críticos dos EUA e aliados.
E há poucos dias a Mota-Engil assinou a concessão da extensão do corredor na RDC, um projeto identificado pela empresa em cerca de US$1,8 mil M e com uma PPP de 30 anos.
Ou seja, temos uma situação bastante interessante: a Mota-Engil participa na construção e operação da infraestrutura, tem atividade própria de serviços mineiros e está envolvida na rota que permitirá escoar parte das matérias-primas dessa região até ao Atlântico.
Além disso, o financiamento institucional internacional começa a ter peso. No Capital Markets Day, a Mota-Engil referiu cerca de 753 M€ reunidos através da DFC norte-americana e do Development Bank of Southern Africa para o Lobito. Tem também o financiamento de US$214 M da IFC e uma linha de US$250 M com o TDB Group para suportar crescimento de infraestrutura em África.
Para mim, isto também diz alguma coisa sobre a capacidade da empresa em financiar projetos gigantescos em mercados onde nem todas as construtoras conseguem fazê-lo.
Quanto à CCCC, também pensei bastante na redução de 32,41% para exatamente 31%.
Confesso que inicialmente também me pareceu estranho: se acreditam tanto no potencial da empresa, porquê vender?
Mas fui ver o comunicado e prefiro não inventar explicações.
A Epoch/CCCC vendeu 4.326.429 ações, equivalentes a 1,41% do capital, reduzindo a participação de 32,41% para 31,00%. A própria CCCC chamou à operação um “simples ajustamento”. Mais importante: explicou expressamente que permanece acima do limiar dos 30%, continuando a beneficiar de todos os direitos que os Estatutos conferem a uma participação desta dimensão, e afirmou que a manutenção da posição continua a refletir o seu firme compromisso com o acordo de investimento na Mota-Engil.
Não considero uma venda de ações algo positivo por si só. Mas também não vejo elementos para dizer que a CCCC está a abandonar ou a perder confiança na Mota-Engil. Se fosse esse o objetivo, parece-me curioso parar precisamente nos 31%, deixando explicitamente salvaguardado o patamar superior a 30%.
Portanto, fico com os factos: vendeu 1,41%, continua com 31% e reafirmou oficialmente o compromisso estratégico. O motivo económico concreto da redução não foi divulgado.
E ainda temos Portugal, que para mim pode voltar a representar um enorme ciclo de oportunidades para a empresa.
A própria apresentação dos resultados da Mota-Engil fala num pipeline de aproximadamente 60 mil M€ de investimento em infraestruturas em Portugal até 2035. Estamos a falar de alta velocidade, novo aeroporto, novas travessias do Tejo, estradas, portos, logística e outras infraestruturas.
A Mota-Engil já tem na carteira o primeiro troço da alta velocidade Porto-Oiã e a primeira fase da gigafábrica da CALB em Sines, esta última com um contrato de 207,3 M€ e duração prevista de 22 meses.
Quanto ao troço seguinte, Oiã-Soure, convém sermos rigorosos: a Mota-Engil ainda não ganhou. Mas neste momento existem apenas duas propostas em avaliação, sendo uma delas do agrupamento LusoLav III, que inclui a Mota-Engil, Teixeira Duarte, Casais, Alves Ribeiro, Conduril e outras empresas portuguesas. A Infraestruturas de Portugal prevê que o contrato possa ser assinado no primeiro semestre de 2027.
Portanto, não vou dizer que a Mota-Engil tem “50% de probabilidades” de ganhar porque os concursos não funcionam assim. Mas estar entre apenas duas propostas para uma obra desta dimensão é obviamente uma oportunidade concreta.
E depois vêm projetos ainda maiores.
A própria Mota-Engil identifica como oportunidades o novo Aeroporto Luís de Camões, com investimento previsto entre 7,9 e 8,9 mil M€, as duas novas travessias do Tejo, incluindo ponte e túnel em regime de PPP, às quais diz que pretende concorrer em consórcio, e 15 novas concessões de portos e logística, num investimento estimado de cerca de 4 mil M€.
Não significa que a Mota-Engil vá ganhar tudo — obviamente que não. Mas sendo líder do mercado português, tendo experiência em megaobras ferroviárias, aeroportuárias, pontes, túneis e PPP em vários continentes, parece-me difícil imaginar um ciclo de 60 mil M€ de investimento em infraestruturas portuguesas sem uma participação relevante da Mota-Engil.
E finalmente chegamos ao FOCUS 2030 e àquilo que tudo isto poderá valer.
O plano da própria empresa aponta para aproximadamente 9 mil M€ de receitas em 2030, margem EBITDA ≥18%, FCF/EBITDA ≥25%, dívida líquida/EBITDA ≤2x, margem líquida ≥4% e payout entre 30% e 50% do lucro.
A conta mais simples é esta:
9.000 M€ de receitas × 4% de margem líquida = aproximadamente 360 M€ de lucro.
Com as atuais 306,8 milhões de ações, seriam cerca de 1,17 € de lucro por ação.
A um PER de 8x, isso corresponderia a aproximadamente 9,40 € por ação.
A 9x, aproximadamente 10,55 €.
A 10x, cerca de 11,70 €.
Por isso continuo a dizer o mesmo: se a Mota-Engil cumprir o FOCUS 2030, falar em 10 € não me parece uma avaliação de euforia. A 10 €, estaríamos a falar de apenas cerca de 8,5 vezes os potenciais lucros de 2030.
E há ainda um ponto do FOCUS que considero pouco discutido: os dividendos.
O dividendo aprovado este ano foi de 0,173 € por ação. O FOCUS estabelece para 2030 um payout entre 30% e 50%.
Se a Mota-Engil chegar aos referidos 360 M€ de lucro e mantivermos o atual número de ações, as contas dão aproximadamente:
30% de payout → 0,35 € por ação
40% de payout → 0,47 € por ação
50% de payout → 0,59 € por ação
Com a ação a fechar esta sexta-feira perto de 4,81 €, isto corresponderia, sobre esse preço de compra, a um rendimento potencial de aproximadamente 7,3%, 9,8% ou 12,2%, respetivamente.
Naturalmente, não estou a dizer que em 2030 a ação vai continuar nos 4,81 €. Aliás, espero precisamente o contrário se os objetivos forem cumpridos. Estou apenas a mostrar o potencial yield on cost para quem comprasse hoje e mantivesse as ações caso o FOCUS seja executado.
E acho curioso que o mercado ainda não esteja propriamente a atribuir múltiplos muito exigentes à empresa. Na própria página de investidores da Mota-Engil, o CaixaBank BPI apresenta atualmente um preço-alvo central de 7,30 €, com intervalo de avaliação entre 5,30 € e 10,40 €; a CaixaBI tem 5,70 € com recomendação de compra e a JB Capital Markets 7,10 €. Não faço a minha tese depender dos analistas, mas também mostra que falar em valores bastante acima da cotação atual deixou de ser uma ideia assim tão fora da realidade.
Para 2026, a própria administração mantém o guidance de crescimento das receitas entre 10% e 15%, margem líquida próxima de 3% e dívida líquida/EBITDA abaixo de 2x. Portanto, antes de pensar em 2030, temos um teste muito concreto já este ano: verificar se a empresa consegue transformar a enorme carteira de encomendas em crescimento, margem e caixa.
A minha conclusão neste momento é bastante simples.
Vejo uma empresa com mais de 20 mil M€ de trabalho contratado/pro forma, mineração com 29% de margem EBITDA, Ambiente com 21%, 159 M€ de free cash flow em seis meses, dívida/EBITDA controlada, concessões de 30 anos, investimento pesado em maquinaria que poderá continuar a trabalhar em futuros projetos, forte apoio de instituições financeiras internacionais e exposição crescente a infraestruturas estratégicas ligadas aos minerais críticos.
Temos ainda Portugal a entrar num ciclo de dezenas de milhares de milhões de euros de investimento e negócios opcionais que nem sequer estou a colocar nas contas, como uma eventual valorização separada da ME Mining Services ou projetos que ainda estejam em estudo.
Claro que existem riscos. Há dívida elevada em valor absoluto, execução de projetos gigantescos, exposição geopolítica, risco cambial, África, América Latina, juros e necessidade de manter disciplina na alocação de capital.
Mas é precisamente por reconhecer esses riscos que acho os atuais múltiplos interessantes.
Para mim, a questão central passou a ser esta:
O mercado vai continuar a avaliar a Mota-Engil como uma simples construtora cíclica ou vai começar a reconhecer que dentro do Grupo existem mineração, Ambiente, concessões, logística, energia e ativos estratégicos de longa duração que merecem uma avaliação diferente?
Não sei quando o mercado dará essa resposta.
Mas olhando para os números que já existem — e não para promessas — considero que a Mota-Engil de hoje está muito mais forte, diversificada e estrategicamente posicionada do que há alguns anos.
Agora é continuar a executar.
Transformar carteira em receitas, receitas em EBITDA, EBITDA em caixa e caixa em lucros e dividendos.
Se isso acontecer mantendo a dívida controlada, não vejo os objetivos do FOCUS 2030 como uma fantasia. E, nesse cenário, continuo a considerar que 10 € por ação pode perfeitamente ser uma etapa e não necessariamente o destino final.
Desculpem a extensão do texto, mas achei que valia a pena juntar tudo. Tentei confirmar os números e os factos, mas se encontrarem algum erro, alguma imprecisão ou até algum ponto importante que me tenha escapado, agradeço que me corrijam ou acrescentem.
Como já aqui disse, é uma ação em que acredito e na qual estou bastante investido, atualmente com uma média de cerca de 4,45 €. Naturalmente, isso também pode influenciar a minha leitura, por isso todas as opiniões, críticas e contributos são bem-vindos. O objetivo é partilhar informação e tentar perceber cada vez melhor a empresa.
J.f.vieira
Depois de olhar com mais calma para os resultados, para a carteira de encomendas e para aquilo que está a acontecer à volta da Mota-Engil, continuo a achar que avaliar hoje esta empresa simplesmente como uma construtora é olhar para uma realidade que está a mudar rapidamente.
No primeiro semestre de 2026, a Mota-Engil apresentou 2.898 M€ de volume de negócios, 487 M€ de EBITDA e 74 M€ de lucro atribuível aos acionistas, contra 59 M€ no período homólogo. Ou seja, as receitas cresceram 6%, o EBITDA 10% e o lucro 24%. A margem EBITDA passou de 16% para 17% e a margem líquida de 2,2% para 2,6%. Para mim, isto é importante: os lucros estão a crescer muito mais depressa do que a faturação, o que mostra uma melhoria real da rentabilidade e da qualidade dos negócios que estão a entrar no Grupo.
E estes números foram conseguidos num semestre que esteve longe de ser fácil. Tivemos energia cara, perturbações no transporte através do Estreito de Ormuz, juros elevados e diferenças cambiais desfavoráveis. Aliás, a própria Mota-Engil refere que as diferenças cambiais tiveram impacto negativo nos resultados financeiros. Mesmo assim, os encargos financeiros líquidos melhoraram de 128 M€ para 97 M€, ajudados pela redução da taxa média de financiamento. Portanto, conseguir aumentar o lucro atribuível em 24% neste contexto parece-me um sinal bastante positivo.
A dívida é outro assunto que gosto de analisar com contexto e não apenas olhando para o número absoluto.
A dívida líquida estava em 1.990 M€, com dívida líquida/EBITDA de 1,94x, melhor do que os 1,98x de dezembro. A própria apresentação dos resultados diz que a alavancagem continua dentro dos objetivos do FOCUS 2030. Mais importante ainda, a empresa gerou 159 M€ de free cash flow no semestre, correspondentes a 33% do EBITDA, acima do objetivo ≥25% definido para o período 2026-2030.
E há aqui um ponto que muitas vezes é esquecido quando se fala do aumento do investimento: a Mota-Engil investiu 185 M€ de CAPEX, sendo 63% dirigido à Engenharia Industrial, nomeadamente ao equipamento necessário para os grandes contratos de mineração.
E isto não é apenas uma interpretação minha. A própria IFC, do Banco Mundial, explica no financiamento concedido à Mota-Engil que o dinheiro se destina à compra de equipamento de construção e mineração para projetos em África e acrescenta expressamente que essas máquinas poderão posteriormente ser utilizadas em diferentes projetos dentro desses países. Ou seja, uma escavadora, um camião mineiro ou outro equipamento pesado comprado hoje não é um custo que desaparece quando termina a primeira obra. É um ativo que pode trabalhar durante vários anos, passar para extensões dos atuais contratos e depois para novos projetos.
A IFC já concedeu à Mota-Engil um financiamento de US$214 M precisamente para apoiar a expansão de projetos mineiros e ferroviários em África. Portanto, quando vejo dívida associada à compra de maquinaria que vai produzir receitas durante anos, analiso-a de forma diferente de dívida criada simplesmente para financiar prejuízos ou despesas correntes.
Depois temos a carteira de encomendas, que atingiu um nível que há poucos anos seria difícil imaginar.
No final de junho eram 17,7 mil M€, um novo máximo histórico. E durante o primeiro semestre entraram 4,1 mil M€ de novas adjudicações, antes do consumo da carteira. A carteira de 17,7 mil M€ representa cerca de 3,7 anos de visibilidade de execução em Engenharia & Construção.
E atenção: os 17,7 mil M€ não incluem cerca de 2,5 mil M€ de contratos assinados depois de junho. A apresentação identifica negócios posteriores no México, Peru, Brasil, Portugal, Nigéria e RDC. Entre eles estão US$655 M adicionais na ferrovia Kano-Maradi, na Nigéria, e US$1,8 mil M relacionados com a extensão do Corredor do Lobito na República Democrática do Congo. É daí que resulta a referência aos aproximadamente 20,2 mil M€, somando a carteira de junho aos contratos posteriores.
Portanto, trabalho não parece faltar. A questão agora é outra: transformar estes mais de 20 mil M€ em EBITDA, caixa e lucro.
E é aqui que a mineração me parece cada vez mais importante.
No primeiro semestre, a Engenharia Industrial/mineração gerou 411 M€ de receitas e 118 M€ de EBITDA, com uma margem EBITDA de 29%. Em comparação, eram 357 M€ de receitas e 102 M€ de EBITDA no primeiro semestre de 2025. Portanto, o EBITDA cresceu 16%, mantendo uma margem que é muito superior à construção tradicional.
A carteira da mineração já ronda 3,2 mil M€.
E apareceu entretanto um dado que considero bastante significativo: o contrato da mina de ouro de Kurmuk, na Etiópia, inicialmente de US$584 M, foi aumentado para US$842 M, uma subida de 44%, e prolongado por mais um ano. Não é rumor nem estimativa; consta da apresentação dos resultados. Só esta extensão acrescenta aproximadamente US$258 M ao contrato.
Temos depois Amulsar, na Arménia, com uma carteira de 581 M€, prevista para iniciar operações no terceiro trimestre de 2026. Portanto, aqueles 118 M€ de EBITDA no primeiro semestre foram obtidos sem Amulsar ainda estar a contribuir em pleno.
E entretanto foi criada a ME Mining Services, dando uma estrutura própria a esta atividade. Não sei se amanhã aparecerá um investidor, se haverá abertura de capital ou outra operação — não vou especular sobre isso. Mas parece-me evidente que autonomizar um negócio que já produz mais de 100 M€ de EBITDA em seis meses e margens de 29% pode ajudar a tornar o seu valor muito mais visível.
O Ambiente também não pode ser tratado como um negócio secundário.
Fez 314 M€ de receitas e 65 M€ de EBITDA no semestre. O EBITDA cresceu 12% e a margem passou de 19% para 21%.
E há um pormenor que considero muito importante: a carteira de encomendas publicada pela Mota-Engil não inclui o negócio de tratamento de resíduos da EGF, que ainda tem cerca de oito anos de duração contratual e apresenta receitas LTM de aproximadamente 417 M€. Ou seja, existe aqui visibilidade futura que não aparece nos 17,7 mil M€ de backlog.
Somando apenas Mineração + Ambiente, temos 183 M€ de EBITDA num único semestre, e com margens de 29% e 21%, respetivamente. É por isto que continuo a dizer que a Mota-Engil está cada vez menos dependente da margem tradicional da construção.
E ainda há novos negócios de circularidade. A empresa prevê começar a operar unidades de biometano no quarto trimestre de 2026, criando mais uma fonte potencial de receitas recorrentes.
Depois chegamos ao Corredor do Lobito, e aqui considero que existe uma dimensão estratégica e geopolítica que merece atenção.
O Corredor do Lobito liga o interior mineiro da RDC e da Zâmbia ao Atlântico através de Angola. A União Europeia estima que esta infraestrutura possa reduzir o tempo necessário para transportar mercadorias da RDC/Zâmbia até ao mar de mais de um mês para aproximadamente uma semana. E a UE e os seus Estados-Membros estão a mobilizar mais de 2 mil M€ para iniciativas associadas ao corredor.
Isto é particularmente relevante porque estamos a falar de uma das regiões mais importantes do mundo em cobre, cobalto e outros minerais críticos.
Num mundo em que assistimos ao que pode acontecer quando rotas estratégicas como Ormuz ou o Mar Vermelho ficam condicionadas, considero normal que EUA e Europa procurem diversificar cadeias de abastecimento e rotas de transporte. Não estou a dizer que Lobito substitui Ormuz — são matérias-primas e rotas diferentes. Estou a dizer que a lógica estratégica é a diversificação e segurança das cadeias de abastecimento.
E os Estados Unidos não estão apenas a acompanhar o projeto de longe.
Em dezembro, a DFC norte-americana assinou uma carta de interesse diretamente com a Mota-Engil Engenharia e Construção África para a reabilitação, operação e transferência da linha Dilolo-Sakania, na RDC. O projeto poderá procurar até US$1.000 M de financiamento da DFC, sujeito naturalmente à análise final. A própria DFC diz que esta ferrovia deverá ligar-se ao Lobito Atlantic Railway e reforçar as cadeias de fornecimento de minerais críticos dos EUA e aliados.
E há poucos dias a Mota-Engil assinou a concessão da extensão do corredor na RDC, um projeto identificado pela empresa em cerca de US$1,8 mil M e com uma PPP de 30 anos.
Ou seja, temos uma situação bastante interessante: a Mota-Engil participa na construção e operação da infraestrutura, tem atividade própria de serviços mineiros e está envolvida na rota que permitirá escoar parte das matérias-primas dessa região até ao Atlântico.
Além disso, o financiamento institucional internacional começa a ter peso. No Capital Markets Day, a Mota-Engil referiu cerca de 753 M€ reunidos através da DFC norte-americana e do Development Bank of Southern Africa para o Lobito. Tem também o financiamento de US$214 M da IFC e uma linha de US$250 M com o TDB Group para suportar crescimento de infraestrutura em África.
Para mim, isto também diz alguma coisa sobre a capacidade da empresa em financiar projetos gigantescos em mercados onde nem todas as construtoras conseguem fazê-lo.
Quanto à CCCC, também pensei bastante na redução de 32,41% para exatamente 31%.
Confesso que inicialmente também me pareceu estranho: se acreditam tanto no potencial da empresa, porquê vender?
Mas fui ver o comunicado e prefiro não inventar explicações.
A Epoch/CCCC vendeu 4.326.429 ações, equivalentes a 1,41% do capital, reduzindo a participação de 32,41% para 31,00%. A própria CCCC chamou à operação um “simples ajustamento”. Mais importante: explicou expressamente que permanece acima do limiar dos 30%, continuando a beneficiar de todos os direitos que os Estatutos conferem a uma participação desta dimensão, e afirmou que a manutenção da posição continua a refletir o seu firme compromisso com o acordo de investimento na Mota-Engil.
Não considero uma venda de ações algo positivo por si só. Mas também não vejo elementos para dizer que a CCCC está a abandonar ou a perder confiança na Mota-Engil. Se fosse esse o objetivo, parece-me curioso parar precisamente nos 31%, deixando explicitamente salvaguardado o patamar superior a 30%.
Portanto, fico com os factos: vendeu 1,41%, continua com 31% e reafirmou oficialmente o compromisso estratégico. O motivo económico concreto da redução não foi divulgado.
E ainda temos Portugal, que para mim pode voltar a representar um enorme ciclo de oportunidades para a empresa.
A própria apresentação dos resultados da Mota-Engil fala num pipeline de aproximadamente 60 mil M€ de investimento em infraestruturas em Portugal até 2035. Estamos a falar de alta velocidade, novo aeroporto, novas travessias do Tejo, estradas, portos, logística e outras infraestruturas.
A Mota-Engil já tem na carteira o primeiro troço da alta velocidade Porto-Oiã e a primeira fase da gigafábrica da CALB em Sines, esta última com um contrato de 207,3 M€ e duração prevista de 22 meses.
Quanto ao troço seguinte, Oiã-Soure, convém sermos rigorosos: a Mota-Engil ainda não ganhou. Mas neste momento existem apenas duas propostas em avaliação, sendo uma delas do agrupamento LusoLav III, que inclui a Mota-Engil, Teixeira Duarte, Casais, Alves Ribeiro, Conduril e outras empresas portuguesas. A Infraestruturas de Portugal prevê que o contrato possa ser assinado no primeiro semestre de 2027.
Portanto, não vou dizer que a Mota-Engil tem “50% de probabilidades” de ganhar porque os concursos não funcionam assim. Mas estar entre apenas duas propostas para uma obra desta dimensão é obviamente uma oportunidade concreta.
E depois vêm projetos ainda maiores.
A própria Mota-Engil identifica como oportunidades o novo Aeroporto Luís de Camões, com investimento previsto entre 7,9 e 8,9 mil M€, as duas novas travessias do Tejo, incluindo ponte e túnel em regime de PPP, às quais diz que pretende concorrer em consórcio, e 15 novas concessões de portos e logística, num investimento estimado de cerca de 4 mil M€.
Não significa que a Mota-Engil vá ganhar tudo — obviamente que não. Mas sendo líder do mercado português, tendo experiência em megaobras ferroviárias, aeroportuárias, pontes, túneis e PPP em vários continentes, parece-me difícil imaginar um ciclo de 60 mil M€ de investimento em infraestruturas portuguesas sem uma participação relevante da Mota-Engil.
E finalmente chegamos ao FOCUS 2030 e àquilo que tudo isto poderá valer.
O plano da própria empresa aponta para aproximadamente 9 mil M€ de receitas em 2030, margem EBITDA ≥18%, FCF/EBITDA ≥25%, dívida líquida/EBITDA ≤2x, margem líquida ≥4% e payout entre 30% e 50% do lucro.
A conta mais simples é esta:
9.000 M€ de receitas × 4% de margem líquida = aproximadamente 360 M€ de lucro.
Com as atuais 306,8 milhões de ações, seriam cerca de 1,17 € de lucro por ação.
A um PER de 8x, isso corresponderia a aproximadamente 9,40 € por ação.
A 9x, aproximadamente 10,55 €.
A 10x, cerca de 11,70 €.
Por isso continuo a dizer o mesmo: se a Mota-Engil cumprir o FOCUS 2030, falar em 10 € não me parece uma avaliação de euforia. A 10 €, estaríamos a falar de apenas cerca de 8,5 vezes os potenciais lucros de 2030.
E há ainda um ponto do FOCUS que considero pouco discutido: os dividendos.
O dividendo aprovado este ano foi de 0,173 € por ação. O FOCUS estabelece para 2030 um payout entre 30% e 50%.
Se a Mota-Engil chegar aos referidos 360 M€ de lucro e mantivermos o atual número de ações, as contas dão aproximadamente:
30% de payout → 0,35 € por ação
40% de payout → 0,47 € por ação
50% de payout → 0,59 € por ação
Com a ação a fechar esta sexta-feira perto de 4,81 €, isto corresponderia, sobre esse preço de compra, a um rendimento potencial de aproximadamente 7,3%, 9,8% ou 12,2%, respetivamente.
Naturalmente, não estou a dizer que em 2030 a ação vai continuar nos 4,81 €. Aliás, espero precisamente o contrário se os objetivos forem cumpridos. Estou apenas a mostrar o potencial yield on cost para quem comprasse hoje e mantivesse as ações caso o FOCUS seja executado.
E acho curioso que o mercado ainda não esteja propriamente a atribuir múltiplos muito exigentes à empresa. Na própria página de investidores da Mota-Engil, o CaixaBank BPI apresenta atualmente um preço-alvo central de 7,30 €, com intervalo de avaliação entre 5,30 € e 10,40 €; a CaixaBI tem 5,70 € com recomendação de compra e a JB Capital Markets 7,10 €. Não faço a minha tese depender dos analistas, mas também mostra que falar em valores bastante acima da cotação atual deixou de ser uma ideia assim tão fora da realidade.
Para 2026, a própria administração mantém o guidance de crescimento das receitas entre 10% e 15%, margem líquida próxima de 3% e dívida líquida/EBITDA abaixo de 2x. Portanto, antes de pensar em 2030, temos um teste muito concreto já este ano: verificar se a empresa consegue transformar a enorme carteira de encomendas em crescimento, margem e caixa.
A minha conclusão neste momento é bastante simples.
Vejo uma empresa com mais de 20 mil M€ de trabalho contratado/pro forma, mineração com 29% de margem EBITDA, Ambiente com 21%, 159 M€ de free cash flow em seis meses, dívida/EBITDA controlada, concessões de 30 anos, investimento pesado em maquinaria que poderá continuar a trabalhar em futuros projetos, forte apoio de instituições financeiras internacionais e exposição crescente a infraestruturas estratégicas ligadas aos minerais críticos.
Temos ainda Portugal a entrar num ciclo de dezenas de milhares de milhões de euros de investimento e negócios opcionais que nem sequer estou a colocar nas contas, como uma eventual valorização separada da ME Mining Services ou projetos que ainda estejam em estudo.
Claro que existem riscos. Há dívida elevada em valor absoluto, execução de projetos gigantescos, exposição geopolítica, risco cambial, África, América Latina, juros e necessidade de manter disciplina na alocação de capital.
Mas é precisamente por reconhecer esses riscos que acho os atuais múltiplos interessantes.
Para mim, a questão central passou a ser esta:
O mercado vai continuar a avaliar a Mota-Engil como uma simples construtora cíclica ou vai começar a reconhecer que dentro do Grupo existem mineração, Ambiente, concessões, logística, energia e ativos estratégicos de longa duração que merecem uma avaliação diferente?
Não sei quando o mercado dará essa resposta.
Mas olhando para os números que já existem — e não para promessas — considero que a Mota-Engil de hoje está muito mais forte, diversificada e estrategicamente posicionada do que há alguns anos.
Agora é continuar a executar.
Transformar carteira em receitas, receitas em EBITDA, EBITDA em caixa e caixa em lucros e dividendos.
Se isso acontecer mantendo a dívida controlada, não vejo os objetivos do FOCUS 2030 como uma fantasia. E, nesse cenário, continuo a considerar que 10 € por ação pode perfeitamente ser uma etapa e não necessariamente o destino final.
Desculpem a extensão do texto, mas achei que valia a pena juntar tudo. Tentei confirmar os números e os factos, mas se encontrarem algum erro, alguma imprecisão ou até algum ponto importante que me tenha escapado, agradeço que me corrijam ou acrescentem.
Como já aqui disse, é uma ação em que acredito e na qual estou bastante investido, atualmente com uma média de cerca de 4,45 €. Naturalmente, isso também pode influenciar a minha leitura, por isso todas as opiniões, críticas e contributos são bem-vindos. O objetivo é partilhar informação e tentar perceber cada vez melhor a empresa.
J.f.vieira
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- Registado: 29/11/2007 3:59
Re: Mota Engil - Tópico Geral
Se a margem se aproximar dos 3%, são 600M de lucro. Agora falta saber o tempo médio para execução das mesmas.
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
pmlcastanho Escreveu:J.f.vieira Escreveu:https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/carteira-de-encomendas-da-mota-engil-supera-20-mil-milhoes/
20,2 mil milhões de carteira de encomendas, o maior valor de sempre. E ainda com 2,5 mil milhões de novos contratos entretanto. Acho que estes números dizem muito mais do que qualquer previsão: há trabalho para muitos anos e crescimento pela frente. Agora é transformar carteira em resultados e caixa.
J.f.vieira
20,2 mil milhões é o total, já a contar com as adjudicações pós 1S.
................. ................. .....................
Obrigado pela correção, pmlcastanho. Eu sabia que eram 17,7 mil milhões, mas tinha na cabeça que os 20,2 mil milhões eram o valor final e ao escrever, acabei por me enganar.
J.f.vieira
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
J.f.vieira Escreveu:https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/carteira-de-encomendas-da-mota-engil-supera-20-mil-milhoes/
20,2 mil milhões de carteira de encomendas, o maior valor de sempre. E ainda com 2,5 mil milhões de novos contratos entretanto. Acho que estes números dizem muito mais do que qualquer previsão: há trabalho para muitos anos e crescimento pela frente. Agora é transformar carteira em resultados e caixa.
J.f.vieira
20,2 mil milhões é o total, já a contar com as adjudicações pós 1S.
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Re: Mota Engil - Tópico Geral
Mota-Engil quer replicar consórcio português para novo aeroporto e travessias do Tejo - Construção - Jornal de Negócios
Carlos Mota dos Santos assume a intenção de promover consórcios de construtoras nacionais para as grandes obras anunciadas, como o aeroporto Luís de Camões, a ponte Chelas-Barreiro ou o túnel Algés-Trafaria, tendo por base o agrupamento criado para a alta velocidade.
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1. Mais vale perder um ganho que ganhar uma perda, a menos que se cumpra a Segunda Lei.
2. A expectativa de ganho deve superar a expectativa de perda, onde a expectativa mede a
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3. A Primeira Lei não é mesmo necessária mas com Três Leis isto fica definitivamente mais giro.
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