Pedro Santos Guerreiro
Os bodes que nunca expiam
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Ontem, o presidente executivo da Bear Sterns escreveu a todos os seus funcionários esclarecendo que nunca fumou droga em torneios de Bridge. Anteontem, o director de obrigações do Bank of América deixou o banco após colapso dos resultados. No dia anterior, o presidente da Merril Lynch foi deposto, depois de uma desvalorização de quase um terço das acções. Não há dúvida: Portugal é mesmo um país de brandos costumes.
Ontem, o presidente executivo da Bear Sterns escreveu a todos os seus funcionários esclarecendo que nunca fumou droga em torneios de Bridge. Anteontem, o director de obrigações do Bank of América deixou o banco após colapso dos resultados. No dia anterior, o presidente da Merril Lynch foi deposto, depois de uma desvalorização de quase um terço das acções. Não há dúvida: Portugal é mesmo um país de brandos costumes.
A Bear Stearns e a Merril Lynch são duas das cinco maiores casas de investimento americanas e todas estão sob olhar impiedoso, por causa da incompetência, dolosa ou displicente, na crise do "subprime", cujos efeitos estão já contidos mas não medidos.
Quando ontem o "Wall Street Journal" fez manchete com a "conduta questionável" de James Cayne, presidente da Bear Stearns, que segundo o jornal fumou "charros" à mesa de Bridge e esteve duas semanas ausente do escritório em Julho, na fase aguda da crise financeira, não houve assessores de comunicação que evitassem o escândalo. Já na Merril Lynch, Stan O'Neal caiu depois de apresentar prejuízos de 1,6 mil milhões de euros no terceiro trimestre? seis vezes mais do que a previsão de três semanas antes. O'Neal foi despedido e sem direito a indemnização.
O modelo justiceiro norte-americano não é um manto de virtudes, propicia bodes expiatórios, injustiças e deslealdades organizacionais. Mas há poucas coisas piores que a certeza da impunidade que protege alguns audazes em Portugal. Nem é preciso ir muito atrás, por exemplo à Operação Furacão. Ao lermos estes casos com grandes bancos americanos não podemos deixar de pasmar com as coexistências e sobrevivências num BCP moralmente saqueado.
A CMVM veio ontem pedir contenção ao BCP e ao BPI, para que a negociação da fusão não seja feita na praça pública. A CMVM é prudente. Mas também é púdica: é incapaz de travar Joe Berardo, que se tornou um incendiário inimputável, talvez aprendendo com o seu conterrâneo Jardim (o político, não o banqueiro?), e pôde desfraldar no "Prós e Contras" desta segunda-feira enormes bandeiras de informação inexacta ou mesmo errada sobre o banco de que é accionista e que tem grande peso na Bolsa. Se Fernando Ulrich tivesse dito, como Berardo disse, que tem estudos que provam que as acções do BCP valem 5,8 euros caso o banco seja vendido aos bocados, alguém duvida que a CMVM pediria explicações? A Berardo só os jornalistas as pediram: Que estudos são esses? "De três economistas". Quais? "Não digo". Perfeito?
Mas há mais exemplos de ditos e desditos, como os da Galp, que em Agosto anunciou a entrada no mercado da electricidade no início de 2008 (numa conferência de imprensa em que desafiou os jornalistas a assinarem logo a adesão como clientes) para dois meses depois adiar o projecto para as calendas. Ou o aeroporto projectado para a Ota, aliás estudado para Alcochete, aliás suspenso até Janeiro, numa deriva de decisões incredíveis que ninguém fora das nossas fronteiras acha normal. Ou um Ministério das Finanças, arrasador na caça ao contribuinte e empreendedor numa lista de devedores ao Estado que prometeu equilibrar com outra lista, a de credores.
Ela aí está, em versão minimal, sem abranger hospitais nem autarquias (que por acaso são dos maiores devedores a privados), depois de passar pelo filtro do PS no Parlamento. Um PS que está a mostrar a sua garra: devolveu a Belém o diploma de responsabilidade civil do Estado, que Cavaco vetara com grandes oposições substanciais, fazendo uma irrelevante alteração formal. (É a primeira vez que Cavaco é assim desafiado.)
Há em Portugal bodes que nunca expiam. Nem, infelizmente, expiram.