"OPINIÃO Publicado 31 Outubro 2007
João Cândido da Silva
Oito e 80
joaosilva@mediafin.pt
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Os portugueses têm uma produtividade marroquina, mas gastam como alemães. Foi mais ou menos desta forma que o “Wall Street Journal” se referiu, há algum tempo, à situação do país. Em análise estava a perda de competitividade de Portugal, o modelo de desenvolvimento baseado nos baixos salários e o elevado endividamento das famílias, das empresas e do próprio Estado.
O influente jornal escolhia aquela imagem crua para ilustrar a raiz de todos os males que afectavam a economia doméstica. Pode ter ferido algumas sensibilidades patrióticas, mas tinha duas virtudes: reflectia a verdade e era bem apanhada. Em suma, tratava-se da caricatura perfeita de uma nação que desfrutava da vida como uma cigarra, desdenhando a prudência da formiga.
Observando a evolução da taxa de poupança durante as mais recentes décadas, nunca, como agora, os cidadãos portugueses demonstraram maior ausência de espírito aforrador. Aproveitaram o ciclo de dinheiro barato para contrair empréstimos que proporcionaram o acesso a habitação, automóveis e outros bens de consumo, o que, em si, não tem nada de especialmente criticável. Mas excederam a dose, ao comprometerem os parcos rendimentos futuros com níveis de compromisso que se revelam, com as taxas de juro em subida, difíceis, ou impossíveis, de cumprir.
Na vertigem dos sonhos, os contributos chegaram de todos os lados. O admirável mundo novo do euro parecia proteger o país de choques indesejados porque, afinal de contas, se estava a trocar uma moeda fraca, o escudo, por uma moeda talhada para discutir com o dólar o primeiro lugar no pódio da solidez e da credibilidade. E, por algum passe de magia, as qualidades do euro transmitir-se-iam a quem a utilizasse.
Como o Estado era o primeiro a dar os maus exemplos, cresceu sem disciplina e ajudou a cultivar a ilusão de que o endividamento tinha deixado de ser um problema. O país conseguira entrar para o exclusivo clube dos ricos e saudáveis membros da Zona Euro e não havia que temer o momento em que a factura da festa desse entrada na caixa do correio. Um dia, o carteiro chegou com as más notícias. Foi quando se percebeu que o fato era novo, mas que os hábitos não tinham mudado. Pelo meio, havia contas para pagar.
Para muitas famílias, chegar ao final do mês conseguindo esticar o rendimento de forma a satisfazer todos os compromissos é um exercício notável de boa gestão. Nesta situação, sugerir que uma parte do dinheiro seja colocado de parte, num esforço destinado a assegurar uma almofada capaz de aguentar embates inesperados ou de garantir um complemento de reforma, é pouco mais do que inútil. Além das dívidas a saldar, os baixos rendimentos explicam muito sobre a persistente curva descendente da taxa de poupança em Portugal. Mas há mais.
A iliteracia financeira é um fenómeno largamente negligenciado. Deixa quem tenha uma capacidade mínima para aforrar, perigosamente desarmado perante a oferta de produtos de investimento existentes no mercado. Quem pode fazer aplicações, oscila entre o oito e o 80. Refugia-se em terrenos tradicionais, permitindo à inflação comer os rendimentos, ou atira-se ao mar encapelado das acções quando o momento é menos favorável para marinheiros de água doce. Em Portugal, poupa-se pouco. Mas o pior é que se poupa mal."