Publicado 26 Outubro 2007 13:59
Pedro Santos Guerreiro
Tomai lá do BPI
psg@mediafin.pt
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É para vencer? É. Mas não à primeira. Não com esta proposta inicial. Mas impondo uma certeza: o futuro do BCP passa pelo BPI. A posição de elemento neutro extinguiu-se. Agora, ou se está com o BPI, ou se está contra o BPI.
O Banco Português de Investimento foi o primeiro a atirar-se ao pote de mel em que se tornou o BCP, vulnerável e apetitoso. Vulnerável pela espiral de decadência que começara entre presidentes, alastrara aos accionistas e chegara agora a ameaças de casos de polícia. Apetitoso porque um banco sem governo fervilha oportunidades de criação de valor para quem o for gerir bem e em paz. A autofagia insana em que se tornara a vida do BCP era um convite a ofertas. O banco estava a pedi-las. Estava mesmo a implorá-las. Tomai agora esta do BPI.
Bancos espanhóis estudavam operações ofensivas. Bancos portugueses analisavam medidas defensivas. Ao dar o tiro de partida, o BPI condiciona o que se seguirá.
Porque mais se seguirá. Os termos de troca oferecidos são bons na matemática de Ulrich (comparação com a OPA) mas parcos como prémio a quem tenha comprado recentemente acções do BCP. Melhorará o BPI os termos de troca? Aparecerá uma oferta do estrangeiro? Abdicarão BES e Caixa de trincar um bocado do lombo? Irão os administradores do BCP engolir um sapo do tamanho de elefante e recomendar o negócio aos seus accionistas?
Todas estas conjecturas entroncam numa inevitabilidade: o BPI é um banco gerido em Portugal apenas enquanto os seus accionistas estrangeiros quiserem. E nenhum Governo assiste de longe a uma mudança de controlo de 25% do mercado bancário nacional. A Caixa e a La Caixa são a costa e a contra-costa deste mapa de Tordesilhas. E só por inocência pode alguém pensar que José Sócrates deixará os catalães ficar como maiores accionistas do maior banco português.
Fernando Ulrich é de qualquer forma o homem do dia. Impetuoso nas palavras, o presidente executivo do BPI merece todavia a estátua do estratega paciente, que numa lenta perseverança espera que a translação da Terra crie as condições ideais ao ataque. Assim fez: depois de esperar que a OPA hostil do BCP soçobrasse como pólvora seca, esperou que a guerra-e-paz consumisse a energia e o valor do banco. Agora, oferece-lhe uma fusão amigável. Parece redenção mas é ataque. Parece ironia do destino mas é acerto de contas magnânimo.
É o BPI quem tem mais a ganhar com uma fusão com o BCP. Porque mais do que qualquer banco estrangeiro que procure entrada ou crescimento em Portugal, é o BPI quem tem mais sinergias potenciais, sobretudo na poupança de custos (na OPA BCP/BPI, o cenário era de três mil despedimentos e encerramento de 300 balcões). Mais: um Millennium BPI terá dimensão para saltar fronteiras com outra pujança, expandindo-se com maior balanço. Mas esta é também a última oportunidade para um banco estrangeiro entrar pela porta grande em Portugal. E para isso poderá estar disposto a pagar um bilhete caro. As reacções da BCP e da Caixa são agora determinantes. Mas lá está: os accionistas tornaram-se reactivos, ou estão com o BPI ou estão contra o BPI. O adro voltou a ter procissão.