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Portugal tem vários ‘subprimes’

MensagemEnviado: 10/8/2007 13:17
por Keyser Soze
Portugal tem vários ‘subprimes’

Cofidis, Mediatis, Credial são empresas que emprestam com um mínimo de exigência. Têm grandes margens, mas a concorrência obriga os bancos e instituições a esmagá-las.

A intervenção que o BCE ontem fez é um sinal de alarme?
Significa que o BCE está a reconhecer que há um problema sério de liquidez na Europa e que este pode agravar-se se nada for feito.

Podemos aferir a real dimensão do problema?
Se o problema for apenas de liquidez poderá ser domado através dessas operações e a crise será temporária. Mas ninguém percebeu ainda - os próprios bancos não revelam - qual o real grau de exposição ao mercado norte-americano. Se os activos subjacentes aos fundos europeus forem lixo, aí haverá perdas grandes em alguns operadores. Se a quebra de confiança se generalizar será desastroso.

Considera preocupante o caso do banco alemão IKB, exposto em 17,5 mil milhões de euros ao mercado ‘subprime’ americano?
Um pouco. A Alemanha até está a crescer, mas o problema surgiu. Está a haver muita incúria na avaliação do risco por parte de alguns bancos.

No passado houve algum caso parecido?
O mais sonante será o colapso do Long-Term Capital Management (LTCM), em 1998. Era um dos maiores fundos do mundo, não estava exposto ao risco e remunerava muito bem. Na sua direcção estavam dois prémios Nobel da Economia [Myron Scholes e Robert Merton]. Mas cresceu tanto, que teve de começar a investir noutros mercados. Tornou-se um ‘hedge fund’ e acabou por colapsar com milhões e milhões fora do balanço, milhões e milhões sem garantias reais.

Há um ‘subprime’ português?
É evidente que pode haver. Vários até. Basta ver a quantidade de empresas de crédito por telefone que para aí há: Cofidis, Mediatis, Credial… Emprestam dinheiro com um mínimo de exigência. Compram o dinheiro barato (na casa dos 4%, ao banco central), mas emprestam-no a quase 30%. Estas margens permitem-lhes mais do que compensar as situações de incumprimento que surjam. Mas a concorrência obriga os bancos e instituições a esmagarem essas margens. Era o que estava a acontecer nos EUA.

E no ramo da habitação? O Banco de Portugal diz que o endividamento não é um grande problema porque estão ‘seguros’ pelo património dos particulares…
Isso é muito bonito, mas a verdade é que num cenário de crise, se os bancos tomassem para si essas garantias, a oferta de casas no mercado seria tão grande que o preço delas vinha por aí abaixo. Seria fatal. Foi o que aconteceu no Reino Unido nos anos 80.


Miguel Beleza, Economista e ex-governador do Banco de Portugal