Caldeirão da Bolsa

Em busca do investimento desaparecido

Espaço dedicado a todo o tipo de troca de impressões sobre os mercados financeiros e ao que possa condicionar o desempenho dos mesmos.

Em busca do investimento desaparecido

por Pata-Hari » 12/6/2007 19:12

fonte é o negócios

Miguel Frasquilho
Sinais inquietantes, ou em busca do investimento desaparecido
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Depois da publicação, no passado dia 15 de Maio, da estimativa rápida para o crescimento do PIB no primeiro trimestre deste ano, foi enfim divulgada pelo INE, no passado dia 8 de Junho (sexta-feira última), uma estimativa mais apurada para esse crescimento, bem como a forma como ele foi obtido em termos de componentes da procura.
Depois da publicação, no passado dia 15 de Maio, da estimativa rápida para o crescimento do PIB no primeiro trimestre deste ano, foi enfim divulgada pelo INE, no passado dia 8 de Junho (sexta-feira última), uma estimativa mais apurada para esse crescimento, bem como a forma como ele foi obtido em termos de componentes da procura.

A estimativa para o crescimento face ao trimestre anterior manteve-se em 0.8%; no entanto, o crescimento homólogo reduziu-se em uma décima: dos anteriores 2.1% passou-se para 2%. Claro que uma décima é coisa pouca - mas sempre teria sido melhor uma décima a mais e não a menos? sobretudo quando, em termos homólogos, quer a Zona Euro, quer a União Europeia a 27 (UE) cresceram mais de 3% (3.1% e 3.2%, respectivamente).

Ao mesmo tempo, a vizinha Espanha cresceu 4% e a Alemanha 3.6%. E, países do leste europeu, como a Eslováquia, a Letónia ou a Lituânia, cresceram, respectivamente, 8.9%, 10.7% e 6.7%. De todos os países de que já se conhece registo, só a França cresceu tanto como Portugal.

E, portanto, se em termos absolutos o crescimento foi, de facto, mais favorável (os 2% agora revelados pelo INE constituem o melhor resultado desde o segundo trimestre de 2004, quando foi registado um crescimento igual ao de agora), a verdade é que, como o crescimento da maioria dos países europeus e da UE é muito mais positivo, os portugueses atrasaram-se novamente face aos seus congéneres europeus?

Eis como um registo de crescimento de 2%, o melhor desde há três anos é, com a UE a crescer a mais de 3%, um resultado enganoso e preocupante. Mas não é tudo. É que, como os dados do INE revelaram - e já se desconfiava - estamos a ser literalmente arrastados pela Europa.

De facto, as exportações cresceram 8.1% em termos homólogos - e como quase 80% do que vendemos para fora se destina à UE, beneficiámos da conjuntura favorável que o "Velho Continente" continua a viver.

Ora, ter uma evolução económica assente na vertente externa é saudável - mas não chega (e deve notar-se que o crescimento das exportações desacelerou relativamente aos dois trimestres anteriores?). Falta a componente interna e, nomeadamente, o investimento, para que sejam criadas condições que nos levem a ir à frente da Europa - e não atrás, como agora acontece. E, neste particular, o que aconteceu?

O consumo privado cresceu 1.2%, sensivelmente em linha com os trimestres anteriores - e não é esta componente a decisiva para invertermos a actual situação.

O consumo público tornou a descer (pelo quarto trimestre consecutivo) - o que, como se deve diminuir o (ainda elevado) peso do nosso Estado na economia, espero que possa continuar.

E a formação bruta de capital, vulgo investimento?

Pois o investimento continua desaparecido: voltou a cair, o que aconteceu pelo nono trimestre consecutivo (é verdade, mais de 2 anos sempre a descer em termos homólogos!...) - e pior, caiu mais (2.3%) do que nos dois trimestres anteriores.

Com a agravante de a componente "Máquinas e Equipamento (excepto Material de Transporte)" ter crescido apenas 1.9%, depois de registos acima de 4% nos dois trimestres anteriores (as componentes do investimento "Material de Transporte" e "Construção", apesar de terem registado uma melhoria neste trimestre, continuaram em território negativo).

É que, sem mais investimento em máquinas e equipamentos não teremos, certamente, nem mais unidades produtivas instaladas, nem serão criados os empregos de que precisamos nem, enfim, sairemos do marasmo em que nos encontramos.

É, pois crucial que, a par com as exportações, o investimento "apareça" e mostre um dinamismo que há muito não revela. Para não andarmos totalmente ao sabor da evolução económica da Europa. Para tomarmos a dianteira e não sermos só rebocados, como tem vindo a acontecer sistematicamente desde há vários anos a esta parte.

Qual a diferença? Simples: se formos à frente, o nosso nível de vida recupera face ao europeu; se formos arrastados pela Europa, como tornou a suceder no primeiro trimestre de 2007, estamos a atrasar-nos. O que, obviamente, faz toda a diferença. Só quando isso suceder - e de forma sustentada - é que encontrarei razões para ficar satisfeito. Por enquanto, e infelizmente, os sinais continuam a ser inquietantes...
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