
Modelo de Gestão da Logoplaste 2007-05-22 00:05
Ketchup Heinz contrata portugueses
Logoplaste de Filipe de Botton e Alexandre Relvas desenha e fabrica nova embalagem.Gilda de Sousa
São 4.30 da tarde. Quinta-feira, 17 de Maio. Filipe de Botton e Alexandre Relvas acabam de receber um telefonema. Está confirmado. A Logoplaste será fornecedor exclusivo para toda a Europa da nova embalagem de ketchup da Heinz. A decisão da administração americana da multinacional põe termo a um concurso de dois anos “em que estiveram envolvidos os três maiores ‘players’ mundiais, cujas facturações rondam os 4.000 milhões e os 2.000 milhões de euros”, diz Filipe de Botton sublinhando a proeza da Logoplaste, com os seus 240 milhões de vendas anuais. A vitória é a prova de que a “dimensão já não é limitativa”. “Já estamos na primeira liga”. E isso significa desenvolver tecnologia capaz de bater toda a concorrência. Foi o que aconteceu com a Heinz.
O contrato garante vendas anuais de 25 milhões de euros e obriga à construção de uma fábrica de raiz na Holanda. Um investimento de 23 milhões de euros que começará a produzir em Setembro de 2007. Para a Logoplaste, esta será a primeira bandeira na Holanda e na Heinz. Mas há outra inovação. A Logoplaste será “uma empresa 100% dedicada mas não integrada”. Ficará instalada em Elst, separada por uma estrada da fábrica de ketchup da Heinz. Ou seja, rompe com a prática de instalar a unidade de fabrico das embalagens dentro da fábrica do cliente. O modelo criado por Marcel de Botton, em 1976, quando foi preciso reagir à instabilidade provocada pela revolução e reinventar o negócio do fabrico de embalagens plásticas, então centrado na Titan, na Amadora, na altura, a maior indústria do género na Península Ibérica. Fiel herdeiro do instinto empreendedor do pai, “um homem à frente do seu tempo” e do avô, um turco de Istambul com 13 filhos que se espalharam pelo mundo, Filipe de Botton vê esta alteração do modelo que tem sustentado todo o crescimento da Logoplaste como “uma adaptação estratégica”. É a flexibilidade necessária “ para continuar a crescer e a alargar o leque de parceiros internacionais”.
Inovar sempre
A outra condição é o investimento em inovação. A Logoplaste investe cerca de 3% da facturação anual em investigação e desenvolvimento. O centro laboratorial está em Cascais, na sede. “Os portugueses pensam bem. Sabem lateralizar os problemas e pensar neles”. Eis uma vantagem que as grandes multinacionais valorizam cada vez mais, pressionadas pela voracidade do consumo e pelos ciclos de inovação cada vez mais curtos. Por isso, explicam os gestores, os fornecedores preferidos, aqueles que ganham contratos de exclusividade, têm de ser capazes de partilhar esse esforço. Caso contrário, são escolhidos em leilão. Ganha o que em cada momento for mais barato. A Logoplaste já está fora deste campeonato, mas a manutenção na “primeira liga” nunca é segura. O lema das multinacionais é “what have you done for me lately [o que fizeste por mim nos últimos tempos]”, diz Filipe de Botton. A “dívida de gratidão é sempre de curto prazo : 24 horas como máximo !”
Crescimento saudável
A solução, “o segredo da Logoplaste é a exigência constante”, revela Alexandre Relvas e também a preocupação em manter um crescimento “saudável”, “não inchado”. A meta é desde, há anos, “duplicar a cada cinco anos”. “Em 2012, chegaremos aos 500 milhões de euros”. Uma previsão baseada numa taxa de crescimento anual na ordem dos 19%. Até “há três, quatro anos” a via foi sobretudo o crescimento orgânico, com destaque para o estrangeiro. E não sem erros. Em Espanha, o primeiro país de internacionalização, em 1992, os dois empresários esperaram seis anos até obterem ‘cash-flows’ positivos. Concluíram que “não era possível gerir Espanha através de Portugal”. Não voltaram a cometer o mesmo erro, seguiram para o Brasil (1995) e vários países da Europa: Inglaterra, França, Itália. Recentemente a banca de investimentos colocou a Logoplaste na mira. Reconheceu-lhes a dimensão e credibilidade para comprar e começaram a aparecer as propostas. Foi assim que entraram no Canadá e nos Estados Unidos. Nesta altura, têm três aquisições em negociação, um investimento mínimo de 150 milhões de euros. Os alvos estão na Europa e Estados Unidos. Mas a atenção da Logoplaste é mais ampla: quer entrar no México. Estuda o Chile e a Argentina a partir da base no Brasil. Na Europa, falta colocar uma bandeira em Moscovo. Porque as multinacionais exigem fornecedores regionais e para as que estão na Europa isso significa “uma presença de Cascais até aos Montes Urais”. São 6.30. Filipe de Botton e Alexandre Relvas ainda não acabaram o dia de trabalho. Têm mais um telefonema para fazer. Para o Brasil. O resultado já não consta desta história.