Jardim deixa de ser intocável no BCP
Há cada vez mais vozes no Conselho Superior do Banco contra as regras de funcionamento propostas pelo fundador do BCP.
Sílvia de Oliveira e Pedro Marques Pereira
Jorge Jardim Gonçalves enfrentará, na assembleia geral de 28 de Maio, o primeiro grande teste à sua liderança desde que fundou, em 1985, o BCP. A primeira questão prende-se com as polémicas propostas de alteração de estatutos, no sentido de aumentar a sua presença no dia-a-dia do grupo e de reforçar a protecção do banco contra ofensivas hostis. A divisão entre accionistas é notória. A segunda, prende-se com a urgência de provar que, apesar do desaire da OPA sobre o BPI, com custos na dinâmica do projecto, o BCP será capaz de continuar a crescer e criar valor. O que dependerá, sobretudo, da existência de equipa executiva forte e independente – a terceira e, porventura, a mais importante questão do teste ao fundador do BCP.
Três aspectos determinantes para escrever o futuro do BCP. Jardim Gonçalves tem a caneta de fundador na mão, mas são os accionistas que mandam no banco. Na assembleia geral de dia 28, Jardim Gonçalves terá de apresentar soluções convincentes. Se decidir manter a aposta em Paulo Teixeira Pinto, que escolheu, há dois anos, para seu sucessor, Jardim Gonçalves terá de criar as condições para o exercício sem mácula da liderança. A autoridade do actual presidente do conselho de administração do BCP está nas mãos de Jardim Gonçalves, da força que o banqueiro conseguir reunir junto dos principais accionistas do banco.
A hora da verdade aproxima-se. Na AG, os accionistas avaliarão o trabalho desenvolvido pela gestão do banco, bem como a estratégia para o futuro. O projecto será tanto mais forte quanto mais poderosa se apresentar a liderança do BCP. Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto terão de falar a uma só voz.
O Diário Económico falou com seis membros do conselho superior, órgão que reúne os principais parceiros do banco, bem como com outros accionistas mais recentes. A coesão já não é a mesma de outros tempos. De um lado, os parceiros históricos, os aliados de Jardim Gonçalves, que encaram o investimento numa perspectiva de longo prazo. Do outro, investidores institucionais, estrangeiros e nacionais, entre os quais, o BPP de João Rendeiro e Joe Berardo. Os primeiros criticam o endurecimento da blindagem de estatutos nesta fase pós-OPA, mas relevam, sobretudo, a importância de uma estratégia de criação de valor no médio e longo prazo e, claro está, a necessidade de uma liderança eficaz, à prova de bala. O segundo grupo questiona, de forma mais dura, as propostas de alteração aos estatutos, que reforçam a protecção do banco contra investidas hostis. Alegam estes accionistas que o modelo de governação do BCP, ao extrair poder aos accionistas, vai contra a maré e ignora as melhores práticas. O principal receio dos investidores é a queda do potencial de valorização das acções. Consciente da situação, Jardim Gonçalves desmultiplica-se em contactos com os principais accionistas. Dia 28, as dúvidas desaparecerão: Jardim passará na prova se reunir dois terços dos accionistas presentes no Palácio da Bolsa no Porto.
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