O fim do DRM e uma nova era na música
O homem dos iPods, Steve Jobs, já tinha avisado a indústria. Pode parecer um paradoxo, mas não é: vende-se muito mais música se não existirem barreiras à sua circulação.
Há três meses, em finais de Janeiro, o patrão da Apple incitara o que resta das outrora poderosas labels musicais, Universal Music, EMI, Sony BMG Music e Warner Music, a venderem a música online sem os bloqueios de software que impedem a sua audição nos diversos aparelhos reprodutores. A carta foi amplamente divulgada pela Imprensa, rendida à "maravilhosa" Apple.
Era o início de uma forte acção de propaganda e pressão com a opinião pública mundial, que teve recompensa esta semana, em Londres, numa conferência de Imprensa que juntou Steve Jobs a Eric Nicoli, o CEO da EMI. Com a submissão, at last, da EMI abre-se o caminho para as outras, esperando Jobs que a sua loja iTunes, que domina as vendas de música online, fique ainda mais poderosa. A iTunes quer até final do ano disponibilizar mais de metade do seu catálogo sem o tristemente famoso DRM, sigla de Digital Rights Management, mas que os críticos gostam de verter para "Digital Restrictions Management".
Eric Nicoli foi lacónico: admitia que a sua marca tenciona ajudar a resolver as falta de interoperabilidade que "é frustrante para tantos fans musicais".
Em termos gerais, podemos pensar no DRM como uma espécie de "marca de água" que impede que a música comprada na loja da iTunes seja reproduzida por leitores de MP3 que não o iPod, que por sua vez não reconhecerá faixas adquiridas noutras lojas online. Resolver a interoperabilidade é fundamental para que o comércio em linha de música possa sair da fase actual de alguma hesitação patente no mercado. Jobs está com pressa de capitalizar o sucesso do iPod antes que outras empresas com grande capacidade de marketing possam captar uma boa fatia.
É de facto uma nova era que se abre. Com a EMI a mudar-se de campo, as outras três grandes serão forçadas a seguir-lhe os passos ou a desaparecerem engolidas pelos escritórios de advogados que fazem vida de espremer leis anacrónicas. Por ora, a Universal Music, a Sony BMG Music e a Warner Music mantém a posição de não abrir mão do DRM. A Warner acusara a proposta de Jobs de não ter nem lógica, nem mérito – o que é um completo disparate. Acabar com o DRM será, aliás, a única coisa lógica a fazer nesta altura em que se vislumbra um novo modelo de negócio, testado e confirmado pela Apple e o mérito vai inteirinho para quem ousou arriscar montar banca no meio da pirataria geral, trazendo relativa disciplina a um sector que parecia perdido.
Nesta matéria (como noutras) Steve Jobs pode ser acusado justamente de outras coisas, como de ganancioso, frio e objectivo. De ilógico é que não tem nada.
A ordem das "prateleiras virtuais" da iTunes e o poder da marca são aspectos a levar em consideração. A alternativa – as redes de partilha – demanda alguns comportamentos de risco e apresenta-se como um caos desorganizado, próprio para espíritos aventureiros e impróprio para a maioria dos consumidores de música. A interoperabilidade, adivinhou Steve Jobs, é actualmente o único obstáculo entre este público desejoso de encher os seus MP3 de música "fácil", que prefere pagar o conforto das escolhas, da arrtumação e das garantias do que perder tempo à procura de faixas num ambiente desconhecido.
Não é preciso ser um génio – e Steve Jobs costuma ser considerado um deles – para perceber esta mudança.
Paulo Querido, jornalista
Publicado sexta-feira, 6 de Abril de 2007