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Inteligência Emocional: Ensina-se? Trabalha-se?

MensagemEnviado: 16/2/2007 1:23
por luiz22
Inteligência Emocional: Ensina-se? Trabalha-se?


“A verdadeira mudança deu-se com o “Inteligência Emocional”, essa nova ciência que veio revolucionar as áreas mais comportamentais”


09-02-2007, José Crespo de Carvalho

Numa primeira abordagem, a da Inteligência Emocional, a ideia já pairava sobre o espectro das relações e não sobre aquilo a que, tradicionalmente, se chamava e chama de coeficiente de inteligência (clássico): a inteligência racional.
Efectivamente, a perspectiva de Goleman quando, há dez anos, escreveu o seu “Inteligência Emocional”, era colocar o foco num novo tipo de inteligência, a que chamou emocional, sobretudo porque assente em competências relacionais. E que falta faz essa inteligência emocional e quão magra é a preparação que nos dão nos bancos da escola para a podermos aplicar – seja e nível básico seja a nível superior. Num curso de engenharia, por exemplo, o pilar central continua a ser o trabalho da inteligência racional clássica que, ninguém nega, permanece como de extrema importância, mas que não pode ser única. Nos cursos de gestão, por exemplo, algumas iniciativas têm sido tomadas para, precisamente, alterar o trabalho mais racional para um trabalho também emocional. A verdade, porém, é que o panorama nacional do ensino superior ainda não contempla, genericamente, equilíbrios mais fortes entre o trabalho de um e outro tipos: racional e emocional.
O novo livro de Goleman, o “Inteligência Social”, vai ainda mais à frente e pretende trabalhar mais do que a lógica um para um para passar a trabalhar os relacionamentos humanos em geral, apresentando questões como as da empatia, da sintonia, da compreensão dos pensamentos, sentimentos e intenções dos outros, da sabedoria social, i.e., procurando percepcionar como funciona o mundo social. A estas áreas Goleman chamou, agora, de Consciência Social. Mas ter Consciência Social não é, por si só, um garante de que as interacções com a sociedade, em geral, sejam frutuosas. É preciso mais que consciência. É preciso Facilidade Social. Que se encontra presente na sincronia (interacção harmoniosa a um nível não verbal), na auto-apresentação (sermos capazes de nos apresentar eficazmente), na influência (sermos capazes de influenciar e enformar o desfecho das interacções sociais) e no interesse (sermos capazes de nos interessarmos pelas necessidades dos outros, agindo em conformidade).
Este novo livro de Goleman continua a ser um hino à natureza humana e ao conhecimento relacional. Porém, a verdadeira mudança deu-se com o “Inteligência Emocional”, essa nova ciência que veio revolucionar as áreas mais comportamentais.
Tudo isto para dizer que, por um lado, contributos como este novo de Goleman, com “Inteligência Social”, continuam a provar que o homem é tão enigmático e que tem tanto para descobrir que apenas se podem saudar tentativas de criação de novas áreas e, por outro, que embora Goleman tenha em “Inteligência Social” mais uma excelente obra, a não perder, os conceitos chave e a o momento de viragem decisivo deu-se com “Inteligência Emocional”, já lá vão mais de dez anos.
Devemos perguntar, porém, onde estão a ser desenvolvidos e aplicados em Portugal, em programas académicos e por quem, de há dez anos a esta parte, tópicos e conceitos como os de tolerância ao stress, optimismo, felicidade, resolução de problemas e gestão de conflitos, negociação, testes sobre realidades várias, controlo dos impulsos, relações interpessoais, responsabilidade social, empatia, auto-actualização, independência, assertividade, auto-conhecimento emocional, auto-análise emocional, entre outros. E não de uma forma avulsa ou enxertados nesta ou naquela disciplina mas como áreas de desenvolvimento pessoal que são cada vez mais fundamentais.
O problema surge, porém, quando se sabe que este tipo de aspectos, não obstante essenciais, são, por um lado, dificilmente abordáveis num primeiro ou segundo ciclos de Bolonha (por falta de maturidade dos intervenientes), e, por outro, ao ficarem apenas para um terceiro ciclo ou para programas mais avançados estão, porventura, a ser trabalhados tarde demais para poderem dar resultados práticos. Com o “Inteligência Emocional” e, agora, com o “Inteligência Social” volta a emergir um dilema complexo e já conhecido em termos de ensino superior formal. Quando e como abordar estes conceitos e de que forma? E em que ciclo? E como? O espírito de Bolonha é, dou de barato, um espírito aberto a esses conceitos. Mas é só um espírito. E o resto?