Presidente russo critica política externa dos EUA O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, criticou ontem, em termos inequívocos, a política externa dos Estados Unidos, responsabilizando estes "por acções unilaterais e ilegítimas, que não resolveram um único problema internacional".
O Presidente russo falava na 43.ª Conferência sobre Políticas de Segurança, em Munique, este ano consagrada às "Crises globais - responsabilidades globais", onde pronunciou a principal intervenção do dia. Putin dedicou a maior parte da sua alocução a desmontar a política externa americana, criticando também o alargamento da Aliança Atlântica e o recurso à força - "o que só deve suceder em último recurso, e sob os auspícios das Nações Unidas".
Exprimindo-se em russo, Putin afirmou viver-se hoje "num mundo unipolar". Esta realidade, disse, "não significa senão uma coisa: um centro de poder, um centro de decisão agindo como senhor absoluto, um soberano incontestável, que acabará por desabar de dentro para fora. Isto nada tem a ver com democracia". "Um Estado, os EUA" - acusou o dirigente russo - "ultrapassa, de todas as formas, as suas fronteiras", o que origina uma situação de insegurança e incerteza "em que o direito internacional deixou de ter utilidade".
No diagnóstico de Putin, a actual conjuntura favorece "a corrida aos armamentos" e a proliferação nuclear. Não referindo expressamente os conflitos do Iraque e do Afeganistão, onde os EUA estão envolvidos, Putin teve palavras de apreço directo para George W. Bush. "O Presidente dos EUA, que é meu amigo, tem sido criticado por tudo e por nada, mas é uma pessoa honesta. Ele diz que Rússia e EUA nunca voltarão a ser inimigos, e eu concordo com ele", sublinhou o líder russo.
Putin falava perante cerca de 250 participantes na conferência, entre os quais se incluíam o alto representante europeu para a Política Externa e Segurança Comum, Javier Solana, o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer, o secretário da Defesa americano, Robert Gates, e mais de 40 ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, além de especialistas em questões de segurança e política internacional.
O líder do Kremlin pronunciou-se ainda contra a instalação de um sistema de mísseis americanos na Europa Central, contra uma solução para o Kosovo que não contemple, em paralelo, interesses sérvios e albaneses (ver também pág. 13), e o que classificou, sem mais detalhes, como a instrumentalização da OSCE.
A intervenção do Presidente russo, que participou pela primeira vez na conferência, foi considerada "provocadora", pelo senador americano Joseph Lieberman, e "errada" e até "intimidatória" pelo senador e possível candidato presidencial John McCain, presentes em Munique. Já o secretário da Defesa, Robert Gates, limitou-se a considerá-las "muito francas e interessantes". Hoop Scheffer, secretário-geral da NATO, também visada nas palavras de Putin, classificou como "decepcionantes", "pouco produtivas" e "desligadas da realidade" as considerações do estadista russo.
A conferência foi inaugurada pela chanceler Angela Merkel que, na presença do principal negociador iraniano para o nuclear, Ali Larijani, avisou que este país deve renunciar à vertente militar do seu programa nuclear ou enfrentar a "determinação" da comunidade internacional. Merkel pronunciou-se sobre as questões da actualidade, realçando, entre outros, as alterações climáticas.
A conferência surgiu em 1962 por iniciativa de um editor alemão, Ewald von Kleist, sendo actualmente organizada por Horst Teltschik, antigo conselheiro de política externa e de segurança do chanceler Helmut Kohl.