Energias
Martifer lança biodiesel e quer nuclear
Tem duas refinarias de biodiesel e quer 5% do mercado da distribuição. Mas não pára e já analisa o nuclear
Os grandes depósitos cinzentos, as tubagens, as estruturas metálicas e a coluna de refinação já são visíveis. Implantada no porto de Aveiro, a nova refinaria de biodiesel da Martifer já não é um sonho.
No meio do estaleiro, o seu presidente, Carlos Martins, sorridente, apresenta um projecto que ultrapassa em muito a dimensão regional: “Estão aqui investidos 27 milhões que permitirão produzir 100 mil toneladas de biodiesel. Mas além desta refinaria, temos outra igual na Roménia”. E com um investimento de mais cinco milhões de euros em cada refinaria podem duplicar a capacidade de produção.
Em Maio, a unidade de Aveiro já estará pronta. Produzirá, ainda em 2007, cerca de 55 mil toneladas de biodiesel. A capacidade de tancagem em Aveiro é de 80 milhões de litros de combustíveis. Até ao fim do ano a Martifer abrirá 20 postos de distribuição deste biocombustível, com a marca Prio, mas o objectivo é ter uma rede de cem postos para conquistar uma quota de 5% no mercado da distribuição.
Para abastecer as duas refinarias, têm culturas próprias de colza, girassol e soja produzidas na Roménia, numa área total que chegará aos 60 mil hectares, e no Brasil, onde contam ter 100 mil hectares no Maranhão. Ao todo, neste projecto do biodiesel, a Martifer investirá entre 200 e 250 milhões de euros.
Esta diversificação da Martifer, a maior metalomecânica ibérica e a sexta maior na Europa, traduz a grande aposta feita nas energias renováveis. Depois de entrar na indústria de geradores eólicos - a Martifer controla 25,4% da alemã Repower -, foi agora a vez do biodiesel. Mas, não vão parar aqui, Aliás, já avaliam oportunidades no nuclear.
No imediato, antes de avançar para o IPO que colocará a Martifer na Bolsa, Carlos Martins terá de decidir a estratégia a seguir para a OPA lançada pela Areva (líder mundial na produção de reactores nucleares, controlada pelo Estado francês) sobre a Repower.
Carlos Martins admite a ambição da Martifer. “Estamos muito atentos à oportunidade do nuclear. Achamos que este negócio será incontornável. Veja-se que a petrolífera Total, que tem 1% da Areva, considera o nuclear fundamental, porque é uma energia limpa, e também fará parte da solução para fornecer energia ao transporte automóvel. Não podemos esquecer que o nuclear, directa ou indirectamente, pode produzir energia para abastecer os veículos automóveis, nomeadamente através do hidrogénio. Por isso, a Areva é fundamental para a Total”, afirma.
O presidente da Martifer refere que o maior problema actual é a poluição, o CO2, que condicionará os tipos de energia utilizáveis. “A tecnologia automóvel avança muito rapidamente. Já há veículos híbridos. A Peugeot, a Renault, a Scania e Volvo estão a apadrinhar os biocombustíveis. A Toyota e a Honda estão a avançar com a tecnologia de hidrogénio muito a sério. A BMW acabou de lançar a série 7 com um motor capaz de queimar hidrogénio. Por isso, as redes de postos de distribuição deverão incluir este combustível. E ninguém tenha dúvidas que o hidrogénio avançará mais depressa do que seria suposto”, refere. Neste quadro, a energia nuclear e a areia poderão ser soluções energéticas viáveis. Até as maiores petrolíferas, como a Shell, já estão a avançar para novas áreas.
J.F. Palma-Ferreira
OPA DA AREVA
Bolsa avança mas com atraso
A OPA sobre a Repower, lançada pela Areva, o gigante industrial controlado pelo Estado francês, líder mundial na produção de reactores nucleares, exigirá uma clarificação à Martifer sobre o destino a dar à posição accionista de 25,4% detida no capital da Repower. Aos preços de mercado, estes 25,4% valem 216 milhões de euros, mas como constituem uma minoria de bloqueio, o seu valor será superior. Com evidente ironia, o presidente da Martifer, Carlos Martins, diz que “o cheque está passado em cima da mesa. Para baixo nunca vem”.
A Opa da Areva foi lançada sobre 50,01% da Repower. Carlos Martins refere que só a posição da Martifer “resolvia o problema da Areva”. Independentemente da estratégia que a Martifer adopte - vender ou manter os 25,4% - a entrada da Martifer na Bolsa “faz-se na mesma. Pode haver um acerto de calendário de um ou dois meses em função da OPA da Areva, mas vai fazer-se na mesma”. Para a Martifer, a estratégia na Repower é importante. Como tal, a Martifer reuniu os seus accionistas e discutiu o assunto em Conselho de Administração. Na próxima semana tornará pública a posição sobre a OPA. “Ou vendemos e repensamos o IPO, que se pode transformar numa OPV, ou não vendemos e mantemos o IPO como estava planeado”, diz Carlos Martins.