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Uma surpresa estratégica chinesa
Pequim tem ambições espaciais e estuda atentamente a maneira como os militares americanos conduzem as suas operações. Sem sofisticados satélites, os EUA teriam maior dificuldade em projectar o seu poderio
Ao longo dos últimos anos, a política externa chinesa assentou na ideia de que as surpresas raramente são uma boa opção em política externa. Então, o que é que levou Pequim a destruir um dos seus satélites com um míssil balístico no passado dia 11? Depois de um longo e embaraçoso silêncio, Liu Jianchao, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, veio a público no início da semana dizer que “o teste não foi dirigido contra nenhum país nem ameaça nenhum país”.
O melhor é começar por dizer o óbvio: o teste foi claramente dirigido contra Washington. O que Pequim fez no dia 11 foi mandar um forte recado estratégico aos decisores políticos e militares americanos. O espaço é absolutamente essencial para o modo americano de manter a paz e fazer a guerra.
Sem os seus sofisticados satélites, os EUA teriam muito mais dificuldade em projectar e usar o seu poder militar. O Governo americano está determinado a manter a actual supremacia espacial e por isso mesmo tem financiado nos últimos anos uma série de programas anti-satélite. Pequim também tem ambições espaciais e tem estudado, atentamente, a maneira como os militares americanos conduzem as suas operações. As ambições e as conclusões destes estudos levaram a China a desenvolver uma série de programas anti-satélite. Um deles, um programa de armas «laser», foi usado várias vezes no ano passado para ‘iluminar’ os satélites norte-americanos que sobrevoavam o território chinês.
Os ataques chineses deram origem a um forte debate interno na capital americana mas, por uma série de razões políticas - a Administração Bush precisa do apoio chinês para gerir os problemas do Irão e da Coreia do Norte -, as conclusões não foram divulgadas publicamente.
O poder e as ambições militares espaciais da China não são, pois, uma novidade. O que é novo é a sua divulgação de uma forma tão pública e destrutiva, depois de anos a apelar publicamente à não-militarização do espaço. Uma preocupação e um sinal ajudam a explicar a surpresa do dia 11. A preocupação tem que ver com a construção de uma série de sistemas de defesa antimíssil pelos EUA. Do ponto de vista político, tecnológico e industrial, 2006 foi um ano extremamente importante nesta área.
Pequim teme que os sistemas antimíssil americanos, especialmente se forem apoiados por componentes espaciais, ponham em causa a credibilidade do seu arsenal nuclear estratégico e aumentem ainda mais o relacionamento militar de Washington com o Japão e Taiwan. No caso de ser impossível negociar um tratado que proíba o desenvolvimento e construção de sofisticados sistemas de defesa antimíssil, a China enviou a Washington sinal de que tem os meios para destruir os olhos e os ouvidos militares norte-americanos. O dia 11 de Janeiro lembra-nos que o impressionante crescimento económico chinês não deixará de ter consequências militares.
Valete Escreveu:Para a China se tornar a maior potencia mundial, falta uma coisa que ninguém refere como importante. A cultura, o modo de vida. Actualmente tudo o que consumimos de intangível ( musica,moda, cinema, tv, desporto,etc), provem dos EUA e também da Europa, e não me parece que essa situação seja alterada facilmente. Portanto, podemos continuar a consumir tudo de tangível, que venha da China, sem disso dar-mos conta, mas quando quiserem passar para o ultimo grau, da dominação a nível cultural, aí não acredito que o mundo altere, as suas preferências.
Até onde vai o Dragão?
O maior mercado consumista em 2020
O choque ‘China’ é recente e muita gente ainda não o incorporou na sua estratégia política ou empresarial.
O primeiro abalo psicológico ocorreu quando a consultora Goldman Sachs, em 2003, veio colocar a China como número um na «pole-position» do que chamou ‘os BRIC’ - as quatro principais potências emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China. O estudo alvitrava que aquele país asiático seria a primeira potência económica do mundo em 2050, ultrapassando os Estados Unidos em Produto Interno Bruto, medido em paridade de poder de compra (ppc).
A revista ‘The Economist’ veio, um ano depois, antecipar essa data... para 2020, e aí o Ocidente e alguns vizinhos asiáticos (nomeadamente, o Japão) inquietaram-se de verdade. As revistas internacionais de economia e negócios passaram, então, a trazer, regularmente, o tema China na capa. O economista holandês Angus Maddison divulgou recentemente projecções que apontam para que a China alcance a paridade com os Estados Unidos em 2015 e que se transforme no número um do PIB (em ppc) em 2030. Independentemente das datas - mais ou menos uma década -, hoje já ninguém discute que aquele país será a próxima superpotência económica, num horizonte próximo.
Com esta notícia veio uma prenda para o comércio internacional que deixou os empresários do Ocidente mais tranquilos e de olho na oportunidade. A China terá a maior classe média do mundo em 2020. Será “o maior mercado de consumo do mundo, o mais dinâmico mercado de fronteira”, diz-nos o consultor chinês Zhibin Gu, autor de ‘Made in China’. Segundo os cálculos de Gu, a classe média já deverá rondar os 250 milhões de almas e, daqui a menos de 15 anos, deverá atingir os 600 milhões (40% da população).
Os excedentes gémeos
Mas o choque sobre o Ocidente não se ficaria por aqui. Os economistas começaram a falar das consequências dos ‘excedentes gémeos’ de que a China dispõe na balança de pagamentos desde meados dos anos 1990, que têm levado ao aumento astronómico das reservas cambiais. Gu avalia em 920 mil milhões de dólares o total atingido pelas reservas em 2006. A manter-se o ritmo, poderão atingir os 2 biliões em 2010.
Contudo, desde 2004 que o excedente da conta corrente suplantou os fluxos de investimento directo estrangeiro na China, tornando-se o principal motor da engorda das reservas, sublinhou Yu Yongding, do Instituto de Economia e Política Mundiais, ligado à Academia Chinesa de Ciências Sociais. Isto significa que a liquidez, não encontrando aplicações suficientes no investimento e consumo internos, é ‘desviada’ para títulos do tesouro e aplicações em dólares, que estão a transformar os Estados Unidos em prisioneiros do dinheiro chinês.
Os analistas discutem, agora, se a projectada liderança da China no PIB se irá traduzir na geopolítica. E neste ponto dividem-se. A ideia da inevitabilidade dessa passagem de número um da geoeconomia a número um da geopolítica é muito influenciada por um estudo de Paul Kennedy, de 1988, sobre a ascensão e queda das grandes potências, onde alega que a história ensinaria que as mudanças geopolíticas seguirão inexoravelmente as alterações no poder económico.
Por isso, é uma tentação fazer um paralelismo histórico com a emergência económica e política dos EUA entre 1885 (Conferência de Berlim) e 1919. Este país tornou-se na primeira potência económica do mundo em 1913.
Mas vários analistas discordam desse paralelismo. Angus Maddison diz que “não há uma correlação linear”, e recorda-nos: “No passado, a China foi a principal potência económica do mundo entre 1300 e 1820, e isso não se traduziu numa estratégia de projecção global agressiva. Os próprios chineses hoje são muito cautelosos sobre a questão”.
O exército de terracota
Por Virgínia Trigo
O que torna a China realmente competitiva é ser imbatível num conjunto de factores e não apenas num único
Desde 1989 que observo as pequenas mudanças insignificantes que todos os dias, de uma forma constante, se operam na China e que se traduzem numa evolução arrebatadora afectando directamente um quarto da população mundial e, indirectamente, quase todo o resto.
Um fenómeno, está dito e redito, que não tem paralelo no mundo. Qual a causa deste sucesso? Muitos analistas económicos não hesitam em afirmar que está nos baixos custos da mão-de-obra e, mais recentemente, no desenvolvimento das infra-estruturas. Contrapõem a Índia que, ao invés, terá apostado na educação, retardando o arranque mas assegurando um maior sucesso no longo prazo.
Não nos iludamos, porém: o sucesso da China como fábrica do mundo não está apenas no baixo custo da mão-de-obra. O sucesso existe porque os investidores necessitam de muito mais do que mão-de-obra barata ou até de infra-estruturas desenvolvidas: necessitam de um enquadramento organizacional e social eficaz, de estabilidade política, de segurança pública, de um sistema bancário minimamente funcional...
Se considerarmos isoladamente cada um destes factores, em nenhum deles a China tem uma vantagem comparada: a mão-de-obra é mais barata no Paquistão, no Bangladesh ou no Vietname; as infra-estruturas ou o sistema bancário são mais desenvolvidos nos Estados Unidos; a segurança pública é melhor no Japão; o enquadramento organizacional é mais experimentado na Coreia do Sul, e assim por diante. O que torna a China realmente competitiva é ser imbatível no conjunto de todos estes factores e não apenas numa única causa o que a tornaria muito mais vulnerável. Uma alegoria corrente na China é que se dermos uma cana a alguém para a partir ela será facilmente quebrada, mas se lhe dermos um molho tal será impossível.
Na mesma perspectiva, a China tem sido criticada e a sua importância desvalorizada por, contrariamente ao que sucedeu por exemplo com o Japão, não possuir grandes empresas que se imponham à escala mundial. Pelo contrário, em vez de se concentrarem em algumas poucas indústrias, as empresas chinesas dispersam-se por uma infinidade de sectores, dos têxteis à electrónica, da indústria farmacêutica às máquinas-ferramentas, sem jamais ganharem uma dimensão crítica.
Esta aparente debilidade pode ser uma força: quando, nos anos 1980, os Estados Unidos forçaram o Japão a desvalorizar a sua moeda, foi fácil fazê-lo ameaçando duas ou três empresas bem identificadas. Com a China, não existe nenhuma empresa que realmente valha a pena ameaçar e, atrás das que existem, muitas outras se preparam para as substituir, um infinito exército de terracota.