Negócios na China.. in Jornal de Negócios
OPINIÃO Publicado 31 Janeiro 2007
Luísa Bessa
Negócios na China
lbessa@mediafin.pt
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Proponho ao leitor que me acompanhe numa viagem no tempo. Recuamos dois anos e vamos ao encontro do então Presidente Jorge Sampaio e da sua visita à China. Uma visita que teve por objectivo assumido iniciar um "novo capítulo" no relacionamento entre os dois países, e recuperar no plano económico o tempo perdido – se identificou algo de familiar nesta mensagem não está enganado.
Mas o que marcou mais a viagem, naqueles dias de Janeiro de 2005, foram as notícias de que havia portugueses a trabalhar na deslocalização de unidades empresariais para a região e que o processo era, por assim dizer, abençoado por Belém.
Não há nada como deixar a poeira assentar. Por um lado, nem a maior parte das deslocalizações temidas se concretizaram, demonstrando na prática a distância que vai entre as declarações de intenções e a realidade dos negócios. Por outro, o "novo capítulo" no plano económico está longe de ser realidade mas começa a haver alguns sinais. As exportações portuguesas para a China estão a crescer na ordem dos 39% ao ano nesta década e dispararam 60% nos primeiros nove meses de 2006.
É neste enquadramento temporal que convém situar a segunda incursão político-económica à China, agora liderada por José Sócrates. Dois anos depois, a China está perfeitamente interiorizada no inconsciente colectivo como uma potência económica em ascensão, já a quarta maior do mundo e a caminho de passar para terceira. Enquanto a viagem de Cavaco Silva à Índia pode ter surpreendido muita gente por ter levantado o véu sobre a realidade indiana, sobre a China já não há surpresas.
O que ajuda a explicar a manutenção do calendário da viagem por S. Bento, apesar do revés que significa a ausência do Presidente chinês Hu Jintao – simbolicamente a dar início a uma visita a África – ou o incómodo das leituras políticas internas sobre a ausência de Sócrates (e já agora de uma parte significativa do Governo) na primeira semana da campanha do referendo sobre o aborto.
Que as visitas de Estado não têm apenas alcance político nem sequer é novidade em termos históricos. Desde sempre que por trás das boas relações políticas se tentaram fazer negócios.
Tornou-se lugar comum falar em diplomacia económica mas é positivo que esse objectivo esteja na primeira linha das prioridades. As empresas portuguesas precisam de novos mercados, para crescerem e para reduzirem a sua dependência do espaço europeu, e de novas oportunidades de internacionalização, que lhes tragam vantagens em termos competitivos numa economia cada vez mais global. Duas coisas que a China tem para oferecer.
Mas que ninguém espere facilidades. Um dos problemas dos portugueses é que passam depressa do tudo ao nada e estão pouco disponíveis para o trabalho de paciência que as etapas intermédias exigem. Facilmente se deslumbram e facilmente se decepcionam e com os negócios não é diferente. Veja-se o que aconteceu com a vaga de investimentos no Brasil, onde foram mais os que saíram do que aqueles que ficaram. Mas tende-se a esquecer que há quem continue.
Há um dado que altera a análise que é o do dirigismo político. Se nos anos 90 o Brasil foi mais uma aposta política do que uma aposta das empresas, os resultados estão à vista, embora também não falte agora quem use os políticos como desculpa para os erros de avaliação que cometeu.
Convém que o Governo evite os erros do passado. Que assuma um papel de facilitador mas não pretenda substituir-se às empresas que são quem deve decidir sobre os seus negócios. Seja em Portugal ou na China.
Luísa Bessa
Negócios na China
lbessa@mediafin.pt
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Proponho ao leitor que me acompanhe numa viagem no tempo. Recuamos dois anos e vamos ao encontro do então Presidente Jorge Sampaio e da sua visita à China. Uma visita que teve por objectivo assumido iniciar um "novo capítulo" no relacionamento entre os dois países, e recuperar no plano económico o tempo perdido – se identificou algo de familiar nesta mensagem não está enganado.
Mas o que marcou mais a viagem, naqueles dias de Janeiro de 2005, foram as notícias de que havia portugueses a trabalhar na deslocalização de unidades empresariais para a região e que o processo era, por assim dizer, abençoado por Belém.
Não há nada como deixar a poeira assentar. Por um lado, nem a maior parte das deslocalizações temidas se concretizaram, demonstrando na prática a distância que vai entre as declarações de intenções e a realidade dos negócios. Por outro, o "novo capítulo" no plano económico está longe de ser realidade mas começa a haver alguns sinais. As exportações portuguesas para a China estão a crescer na ordem dos 39% ao ano nesta década e dispararam 60% nos primeiros nove meses de 2006.
É neste enquadramento temporal que convém situar a segunda incursão político-económica à China, agora liderada por José Sócrates. Dois anos depois, a China está perfeitamente interiorizada no inconsciente colectivo como uma potência económica em ascensão, já a quarta maior do mundo e a caminho de passar para terceira. Enquanto a viagem de Cavaco Silva à Índia pode ter surpreendido muita gente por ter levantado o véu sobre a realidade indiana, sobre a China já não há surpresas.
O que ajuda a explicar a manutenção do calendário da viagem por S. Bento, apesar do revés que significa a ausência do Presidente chinês Hu Jintao – simbolicamente a dar início a uma visita a África – ou o incómodo das leituras políticas internas sobre a ausência de Sócrates (e já agora de uma parte significativa do Governo) na primeira semana da campanha do referendo sobre o aborto.
Que as visitas de Estado não têm apenas alcance político nem sequer é novidade em termos históricos. Desde sempre que por trás das boas relações políticas se tentaram fazer negócios.
Tornou-se lugar comum falar em diplomacia económica mas é positivo que esse objectivo esteja na primeira linha das prioridades. As empresas portuguesas precisam de novos mercados, para crescerem e para reduzirem a sua dependência do espaço europeu, e de novas oportunidades de internacionalização, que lhes tragam vantagens em termos competitivos numa economia cada vez mais global. Duas coisas que a China tem para oferecer.
Mas que ninguém espere facilidades. Um dos problemas dos portugueses é que passam depressa do tudo ao nada e estão pouco disponíveis para o trabalho de paciência que as etapas intermédias exigem. Facilmente se deslumbram e facilmente se decepcionam e com os negócios não é diferente. Veja-se o que aconteceu com a vaga de investimentos no Brasil, onde foram mais os que saíram do que aqueles que ficaram. Mas tende-se a esquecer que há quem continue.
Há um dado que altera a análise que é o do dirigismo político. Se nos anos 90 o Brasil foi mais uma aposta política do que uma aposta das empresas, os resultados estão à vista, embora também não falte agora quem use os políticos como desculpa para os erros de avaliação que cometeu.
Convém que o Governo evite os erros do passado. Que assuma um papel de facilitador mas não pretenda substituir-se às empresas que são quem deve decidir sobre os seus negócios. Seja em Portugal ou na China.
