Boa noite a todos.
Este é o meu primeiro post, apesar das minhas visitas quase sempre diárias ao Caldeirão..Como ainda não tenho conhecimentos que me permitiam ser uma mais-valia deste forúm no que há Bolsa diz respeito, gostava de colaborar com outro tipo de contributos, alargando um pouco a partilha de opiniões, experiências e pontos de vista..
A ideia de um mundo global, sem limites nem fronteiras, parece o cenário perfeito para que se possa desenvolver uma ampla circulação de pessoas, bens e serviços.
Ao nível dos Recursos Humanos, a “aldeia global” em que o nosso mundo se vem transformando, pode facilitar a concretização do objectivo de os melhores elementos para os melhores lugares nas melhores organizações, com a finalidade de aproveitar as potencialidades tanto dos indivíduos como dos produtos e serviços. Com um leque mais abrangente de escolhas, é natural que os elementos que constituem o tecido humano de uma empresa possam surgir de origens diversas e tragam consigo referências culturais com padrões diferenciados. A forma de abordagem a estes padrões pode conduzir a mais-valias para as organizações, mas quando encarados como nefastos para uma boa harmonia organizacional podem inviabilizar que essas mais-valias surjam como decorrentes da troca de influências e experiências.
Será que a multiculturalidade acarreta a perda da identidade organizacional? Vários factores podem mediar esta problemática, entre eles a distância psicológica, a presença/ausência de estereótipos e o (des)entendimento cultural. Nomeadamente no que se refere ao segundo factor, o dos esteréotipos, a atribuição de características via generalização conduz, regra geral, a atitudes discriminatórias e pouco indicadas para um ambiente de trabalho saudável, permitindo que os colaboradores incorram em práticas que lesam os direitos de cada um.
Num país outrora maioritariamente exportador de recursos humanos, elementos que partiam rumo a uma realidade que não era a deles e perseguindo aquilo que não conseguiam alcançar entre nós, não deverá ser assim tão difícil de compreender que mais do que a origem, o que torna um colaborador uma mais-valia para a organização são as suas competências e a sua entrega para a empresa. Afinal, o que é que distingue um bom operário russo na Rússia do mesmo operário russo labutando na América? Não foi também com o suor de italianos, irlandeses e outros povos deste lado do Atlântico que se foi erguendo o país referência em vários níveis?
A realidade das economias emergentes, nomeadamente os BRIC (Brasil, Rússia, Indía e China), vem colocar novos desafios aos grandes players empresariais, que com a necessidade de apostar forte nestes mercados em crescimento, vêem-se perante a exigência de se adaptar à multiculturalidade, aprendendo a sentir-se “estrangeiros” mas também a incutir as suas ideias e as suas referências aonde chegam. Olhares desconfiados, sentimentos de reserva ou a atitude de “pé atrás” deixam de fazer sentido a cada dia que passa, a rotatividade de recursos também se aplica ao nível dos recursos humanos, e as mais-valias que isso pode trazer são evidentes. Diferentes abordagens na resolução de problemas, aquisição de conhecimento diversificado ou maior facilidade para conhecer novos mercados com consumidores diferentes são algumas das vantagens que a multiculturalidade traz às organizações. A aceitação do próximo, e daquilo que ele encerra em si, pode e diz muito da própria organização, e as organizações de hoje não sobrevivem apenas comunicando para dentro, necessitam de ser permeáveis à influência cultural exterior para que o crescimento e evolução possam ser uma realidade.
“Dream Team”, “Galácticos”… a referência futebolística é clara, mas passada para o contexto organizacional continua a fazer sentido, e cada vez mais. Organizações de “sonho”, com os elementos ideais, com os melhores do mercado nas respectivas posições são ambições legítimas de qualquer CEO, e para que isto possa acontecer a cor de pele, o credo religioso ou o idioma não entram como elementos relevantes para a selecção de entre as opções disponíveis. Uma abordagem tipicamente americana, uma dedicação marcadamente japonesa ou um rigor inconfundivelmente suíço já não são assim tão difíceis de reunir e de conciliar e se se podem mostrar uma mais-valia, então estamos perante uma demonstração do que é e para que serve a multiculturalidade.
Organizações mais flexíveis, mais tolerantes, mais empenhadas em aceitar as diferenças do que em políticas de uniformização são as que se poderão mostrar mais atractivas para que os bons colaboradores se mostrem satisfeitos e motivados para se sentirem como parte integrante da própria organização. Os conflitos que existem nas organizações não são (apenas) fruto da diversidade cultural, muitas das vezes as partes envolvidas assumem posições divergentes devido à abordagem do mercado, à política de investimento ou à racionalização dos meios disponíveis…serão estas questões menos relevantes, menos incontornáveis do que a adopção de diferentes religiões ou formas de estar na vida pelos seus colaboradores? O olhar deve estar virado para o fomento da integração e adaptação dos elementos provenientes de diversas origens, não sendo isto sinónimo de que este processo é unilateral, porque também a organização deve saber moldar-se, numa outra escala, aos novos colaboradores. Saber retirar o melhor de cada um, independentemente das diferenças que possam existir, é o que vai distinguir os processos de crescimento do capital humano de cada organização. E colaboradores adaptados, satisfeitos e motivados são mais-valias para a organização e eliminam custos e ineficiências que aqui e ali põem em causa a sustentabilidade da mesma.
O talento, a inovação, a criatividade, a flexibilidade, a entrega, a disponibilidade…tudo isto faz parte do colaborador que todas as organizações procuram. E são características que ultrapassam fronteiras, que extravasam a cor de pele, que falam mais alto que o próprio idioma e que se escrevem independentemente do alfabeto utilizado por cada um. Mas a harmonia, o equilíbrio de todas as variáveis em jogo é algo que se conquista com esforços de parte a parte, com concessões e em prol do melhor para todos, de forma a que o colaborador ganhe com a integração na nova organização e que esta possa ganhar com a presença dos melhores colaboradores nos seus quadros, independentemente da sua cultura.
A miscelânea cultural favorece o crescimento da própria organização, adaptando-a para a inovação, para a globalidade e para a modernidade. Termino parafraseando Carlos Tê, na voz de Rui Veloso, “…muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”. Este deve ser o espírito presente na díade colaborador – organização, independente das diferenças culturais.
Parabéns a quem conseguiu chegar ao fim
Este texto não foi escrito propositadamente para o forúm, mas achei por bem partilhar e com isso espero dar um contributo positivo a esta "grande" comunidade..
Quem quiser acrescentar, criticar ou defender esteja à vontade..Bom fim-de-semana