Quinta-feira, Dezembro 21, 2006
Turqueménia ficou "órfã". A luta pelo gás vai recomeçar...
Não obstante todo o poder que detinha, o omnipotente e omnipersente Saparmurat Niazov, Presidente da Turqueménia, morreu mais depressa do que o que se esperava. As autoridades dizem que morreu de morte natural: paragem cardíaca durante o sono, mas a oposição duvida dessa versão.
O facto é que o autoproclamado "Pai de todos os turquemenos" está morto e resta saber quem o irá substituir à frente da Turqueménia, país rico em gás e petróleo e situado numa zona muito complicada: entre o Afeganistão, Cazaquistão, Irão, Uzbequistão e Mar Cáspio. Actualmente, a maior parte do gás turquemeno é exportado através dos gasodutos russos da Gazprom, mas a União Europeia e os Estados Unidos não estão contentes com esta situação, por isso poderão participar na "guerra de sucessão". Além disso, a China também precisa de combustíveis e é muito sensível à situação na Ásia Central
Fala-se, para sucessor, de Gurbanguli Budimukhamedov, vice-primeiro-ministro e, segundo rumores no país, "filho ilegítimo" do ditador. Mas Niazov tem filhos e filhas legítimas, que poderão entrar na luta pelo poder. Para alguns analistas, a instabilidade política neste país pode levar a uma situação semelhante à que se vive no Líbano. Vamos ver.
Entretanto, publicamos aqui a lista de "boas acções" do Presidente Vitalício da Turqueménia.
Saparmurat Niazov, “Pai de todos os turquemenos”, ficou também conhecido por ter empreendido uma série de obras e medidas extravagantes.
O dirigente turquemeno escreveu, em 2001, o livro Rukhama (Espiritualidade),obra filosófica e histórica. O seu estudo é obrigatório nas escolas e nos locais de trabalho. Traduzida para mais de 30 línguas estrangeiras. Em 2004, quando da publicação do segundo volume, o Presidente turquemeno declarou: “Eu pedi a Alá que vá imediatamente para o paraíso todo aquele que leia este livro três vezes em sua casa, em voz alta, uma hora de manhã e uma hora de tarde”.
Além disso, Niazov alterou o calendário, ordenou a alteração dos nomes dos dias da semana. Em honra da sua obra “Espiritualidade”, o Sábado passou a chamar-se “dia da espiritualidade”, o Domingo - “dia principal”, a segunda-feira - “dia jovem”, etc. Quanto aos meses, Janeiro passou a designar-se por “Pai de todos os turquemenos”; Fevereiro – “mês do conhecimento”; Março – “Narvuz “ (festa islâmica); Abril – “ Gurbansoltan-edje” (em honra de sua mãe); Maio – “Makhrumkuli” (nome do poeta preferido do Presidente); Junho – “Oguz” (pai mítico dos turquemenos); Julho – “Garkut” (herói mítico dos turquemenos); Agosto – “Alp Arslan” (comandante militar turquemeno); Setembro – “Rukhman” (Espiritualidade, título da sua principal obra escrita); Outubro – “Independência”; Novembro – “Soljar” (figura histórica da Turqueménia) e Dezembro – “Neutralidade”.
O Presidente vitalício criou também a Festa do Melão. “ O melão é uma prenda dos deuses e tem uma história gloriosa – anunciou a televisão turquemena. – O nosso grande chefe, que gosta muito do seu país, elevou o melão saboroso ao nível de festa nacional”.
Niazov ordenou igualmente gastar 18 milhões de dólares na construção de um zoo no deserto de Karakum, onde a temperatura vai além dos 40 graus centígrados, e considerou ser necessária a presença de pinguins, porque “são uma espécie em vias de extinção devido ao aquecimento global”. Mandou edificar uma pista de gelo no deserto. “Vamos construir um pavilhão com pista de gelo, monumental, capaz de albergar mil pessoas” –declarou Niazov, acrescentando que: “os nossos filhos poderão aprender a patinar e nós poderemos construir aí cafés e restaurantes”.
Em 2003, Niazov abriu um concurso para os jornalistas da televisão turquemena: “Quem elogia menos o Pai de todos os turquemenos”. “Se tivesse um buraco no chão, desaparecia devido às odes elogiosas. Não há canção que não me cante. Nem sei para onde olhar de vergonha” – declarou Niazov.
Além disso, Niazov substituiu os nomes das ruas de Achkhabad, capital da Turqueménia, por números; obrigou os seus ministros a participar numa maratona de 36 quilómetros para manter a saúde; ordenou passar a chamar ao pão o nome de sua mãe “Gurbansoltan-edje”; construir um gigantesco Palácio dos Casamentos, que tem os nomes dele e sua mãe; declarou ilegais a cólera e a SIDA, proibindo que se fale delas; publicou vários volumes de poemas e contos, onde se autodomina de “nova alma dos turquemenos” e “salvador”; proibiu o bailado, ópera e circo; considerou “não válidos” os diplomas de universidades estrangeiras tirados nos últimos 10 anos; proibiu a instalação de rádios nos automóveis e os jovens de andar com cabelos, barbas ou bigodes compridos; ordenou que os cidadãos não usassem dentes de ouro; subordinou a polícia de trânsito ao Ministério da Defesa.
José Milhazes
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