Ah ele é isso?
(2) Quando perguntaram a Warren Buffet o que o fazia mexer enquanto empresário, respondeu que era o prazer de ver o dinheiro a acumular-se, John Kay em The Truth About Markets .
Série de posts dedicados com carinho a Helena Garrido, Daniel Oliveira, Vital Moreira, António José Teixeira, JMF e tutti quanti. Aconselha-se ainda a leitura atenta, com a dose certa de humildade e despreendimento ideológico, dos posts do Miguel Noronha, do João Miranda e do João Caetano Dias. Pode ser que aprendam alguma coisa.
Pelo que tenho lido nas últimas semanas, alguém convenceu a generalidade das pessoas (algumas inteligentes) que a empresarialidade é uma questão de conhecimento científico ou técnico (1). Ou seja, que a razão por que temos maus empresários em Portugal é a falta de formação destes. Não faço ideia onde foram buscar tão peregrina concepção de “empresário”, bom ou mau. Deviam saber, que o conhecimento científico (ou técnico) é importante apenas para ajudar a reorganizar, enquadrar e sistematizar outro tipo de conhecimento e características que não dependem da formação académica. Seria aliás interessante indagar quantas pessoas com formação trabalham em empresas criadas por tais ignorantes.
Para criar uma empresa, existem tantas motivações como empresas. O primeiro passo para ser-se empresário (bom ou mau) é a motivação, que diz respeito exclusivamente a cada um, porque a empresa não passa de um meio para atingir um fim (2)individual. Há ambientes e condições que são propícias a iniciativas empresariais, como as crises económicas com a falta de emprego, o ambiente jurídico e fiscal, as revoluções tecnológicas e industriais, a liberdade económica, etc. Tenho para mim que, para o indivíduo, o desespero é um fortíssimo factor de motivação e é provavelmente por isso que pessoas que não encontram emprego se lançam nos negócios. Imagine-se o leitor sem hipótese de arranjar emprego. Resta-lhe uma e só uma solução: avaliar o que sabe fazer e fazê-lo. Seja canalizador, engenheiro, advogado ou trolha. Cria o seu próprio emprego e depois, e só depois, descobre o seu próprio limite. Pode criar uma multinacional de serviços de canalização, ficar-se por projectos de engenharia de vivendas ou vice-versa. Não é o “conhecimento científico” que o irá determinar, são outras características e/ou situações. Um empresário, “bom” ou “mau”, precisa de cinco características e uma situação:
1 - Instinto (awareness);
2 - Humildade;
3 - Imaginação (no sentido da criatividade empresarial, que é diferente da criatividade artística, por exemplo);
4 - Saber as quatro operações aritméticas;
5 - Ser bom nas relações humanas;
6 - Oportunidade.
O instinto, a percepção do que acontece, é o que determina o aproveitamento da oportunidade, a aplicação da imaginação, o cálculo dos resultados e as relações com os outros (amor/ódio, empatia/repúdio, compensação e reconhecimento). O instinto (awareness) é a mais básica das qualidades, que ou se tem ou não se tem e a humildade pode aprender-se (é difícil) à própria custa, com dor e frustração. A imaginação não se compra nem se aprende, é inata e precisa de ser desenvolvida e afinada com muito trabalho, “lata” e risco, no sentido em que não se pode ter medo de fazer, dizer ou cometer asneiras. A aritmética básica não exige uma licenciatura e é o suficiente para perceber o necessário que são as contas de merceeiro. Entra X, sai Y, o saldo é Z. As relações humanas decorrem do instinto (awareness), da humildade e da disponibilidade para ouvir e aprender.
Há também este mito romântico do “bom empresário” que não gosta de perder nem a feijões, do olho por olho, dente por dente, do dog eat dog, que se desfaz na conquista guerreira dos mercados, etc. Não é assim e por muita retórica indignada que haja, por muitas reedições de Sun-Tzu, Maquiavel e Clausewitz que se vendam, o empresário sabe quando perde num negócio porque o adversário foi melhor e nesse caso aprende, evolui e na próxima oportunidade pode perder por todas as razões mas não pelas mesmas. A derrota é a melhor das motivações e o mais perfeito manual de gestão. O “bom empresário” sabe melhor que ninguém o que lhe convém e actua em conformidade, sabe que não pode parar e avalia riscos, mercados, competências e capacidades e dedica-se a fundo àquilo em que é melhor, o que nem sempre passa por conquistar novos mercados para os mesmos produtos. Pode ser consolidar, fazer crescer, criar produtos, necessidades e ideias.
Nada disto exige formação específica nem escolas de gestão. Esse é o passo seguinte que não é determinante e mesmo somado às condições aqui expostas não é suficiente para fazer uma boa empresa. Longe disso.
(continua)
(1)
…existe o risco de se ignorar completamente o conteúdo específico do conhecimento prático, como tão correctamente criticou Oakeshott, para quem oracionalismo, na sua versão mais perigosa, exagerada e errónea, consistia precisamente em acreditar “que o que se denominou conhecimento prático não é sequer conhecimento, ou seja, que no seu sentido mais próprio não existe mais nenhum conhecimento para além do conhecimento técnico".
Jesús Huerta de Soto em A Escola Austríaca, Mercado e Criatividade Empresarial (tradução de André Azevedo Alves), pág 77
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