Caldeirão da Bolsa

off topic ... Nasça-se em Mirandela

Espaço dedicado a todo o tipo de troca de impressões sobre os mercados financeiros e ao que possa condicionar o desempenho dos mesmos.

É cruel mas, é verdade

por rubi » 26/9/2006 14:32

Os fetos de Mirandela terão de ir nascer a Bragança.

Mas, quando forem adolescentes, se tudo correr 'bem', terão salas de chuto à sua disposição (em Mirandela!). Claro, não vai dar jeito porque, nessa altura, a escola mais perto, também, será em Bragança.

Mas quem precisa de maternidades, de escolas, de centros de saúde, tribunais, etc?

Precisamos é de salas de chuto e, trocar as velhas seringas.
 
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por Mágico » 26/9/2006 13:58

Só uma pequena correcção. Esse artigo foi escrito no no jornal de negocios. www.negocios.pt
O bpi foi buscá-lo, como muitos outros bancos o fazem.

Um abraço
Mágico
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off topic ... Nasça-se em Mirandela

por mcarvalho » 26/9/2006 13:55

in bpionline... com uma grande vénia ao autor

Nasça-se em Mirandela!


26/09/2006


O Governo decidiu fechar a maternidade de Mirandela, o povo reagiu com uma acção cautelar a que o Tribunal deu provimento, mas o Governo Central, através do Governador Civil, mandou a Polícia desocupar o edifício da maternidade, impedindo, na prática, o cumprimento da decisão do Tribunal. Um escândalo? Não. A coisa passa-se em Mirandela, Mirandela é no Douro, o Douro é longe, o escândalo dilui-se pelo longo, sinuoso e esburacado caminho que liga o Douro a Portugal.

Sim, bem sei que, para todos os efeitos (que é como quem diz "para todos menos para aqueles efeitos que realmente importam"), o Douro é parte integrante de Portugal. Mas, oh!, que tremenda distância o separa de tudo... não, não é de tudo. A TV está lá, aos berros, em cada casa, em cada restaurante, a levar fealdade e banalidade àquela paisagem que de feia e de banal não tem nada. E é ela, a TV, o factor de integração nacional realmente eficaz onde mais nada parece sequer pretender integrar coisa com coisa.

E, a esta altura, trata-se mesmo de integrar, de tornar íntegro, de fazer um movimento de integração, e não apenas de manter integrado, porque integrado já não está. O Douro está apartado de Portugal (e da Europa e do mundo). E quanto mais apartado está, mais apartado tende a ficar - quer por dificuldades tendencialmente crescentes de falar a mesma língua, quer por ressentimentos alimentados pela sensação de rejeição ou de abandono. E quando há uma tendência, só há duas hipóteses: ou se embarca nela, ou se a tenta contrariar. Integrar o Douro a Portugal e ao Mundo implica em contrariar uma tendência que já está visivelmente estabelecida.

Aos políticos cabe ter sensibilidade política - se por "sensibilidade política" se entender algo mais do que faro para votos. Cabe-lhes saber avaliar tendências e decidir se o país tem a ganhar com o seguimento das tendências detectadas ou se é preciso contrariá-las, mesmo que para isso seja preciso tomar decisões que, do ponto de vista meramente administrativo, não seriam adequadas. As razões administrativas para o encerramento da maternidade de Mirandela são óbvias. As consequências políticas é que podem ser mais graves do que supõe a sensibilidade deste governo.

O que o governo português está a dizer ao povo de Mirandela quando encerra a maternidade de Mirandela é que não vale a pena nascer em Mirandela, que Portugal não está disposto a pagar o preço de se nascer em Mirandela, que o facto de o Douro estar, tendencialmente, a se desertificar, de haver cada vez menos crianças - e as poucas que aparecem por lá aparecerem só em Agosto, e a falar francês - não é problema para Portugal. Esse é o significado político do encerramento da maternidade de Mirandela.

Porque não há mais do que duas opções - seguir ou contrariar -, na mesma medida em que não contraria, o Governo português reforça a tendência de desintegração daquela região. O que poderia parecer uma decisão administrativa é uma decisão política - profunda e brutalmente política. O governo desistiu de fazer de Mirandela um lugar onde valha a pena nascer e preferiu encerrar a maternidade. Essa nunca foi nem poderá ser decisão meramente administrativa. A decisão é política e como tal deve ser julgada pelos portugueses - durienses ou não.

PS: Quando desiste de reprimir o estacionamento em cima do passeio, a Polícia, a Câmara ou seja lá quem o decida, está também a tomar uma decisão política: o espaço público passa a ser o do mais forte (os carros sobre as pessoas).
 
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