scpnuno Escreveu:A fome, onde existe (e em Portugal também existe) não é consequência de um acto de maldade. Talvez haja culpados e de certeza que poderia haver soluções. Mas não tem nada a ver com o 11 de Setembro.
Raramente neste fórum discuto questões que não tenham directamente a ver com o propósito para que ele foi criado, a saber, os mercados financeiros e tudo o que gira à sua volta.
E, é verdade, os acontecimentos do 11 de Setembro, bem como as suas consequências e a transformação que trouxeram ao mundo, tiveram e têm ainda uma influência marcante no nosso modo de vida, com óbvios reflexos na economia e, por consequência, também nas Bolsas. Logo, é perfeitamente natural e lícito que o recordemos aqui e até nem em "off topic".
Aliás, na previsão apenas parcialmente correcta que escrevi ontem à noite, eu salientei inclusive o carácter psicológico desta data para assim sustentar uma possível subida dos mercados que, no final, até acabou por se dar, embora com uma expressão muito mitigada.
Para mim, que partilho daquilo a que se chama o "pensamento holístico" ou ainda global ou sincrético, é difícil compartimentar os vários acontecimentos em divisórias estanques, já que há mesmo tantas relações de causalidade ou até simples semelhança que podemos estabelecer entre tantas e tão diversas coisas...
Noutros fóruns generalistas, onde ocasionalmente participo, é-me mais fácil discorrer sobre estes temas, os quais podem inclusive provocar uma natural comoção e até réplicas mais inflamadas, quiçá indignadas ou mesmo pouco educadas. Bem, embora seja sempre desejável manter um nível mínimo de urbanidade e respeito, as simples palavras não me chocam por aí além, mesmo que o provérbio árabe diga que elas podem ferir mais do que golpes de espada. Talvez sim, mas por certo não as de meros desconhecidos, veiculadas nestes espaços onde até mal nos conhecemos.
Quem me conhece, sabe que partilho, já desde a tenra adolescência, do ideal de vida ligado às doutrinas e filosofias do antigo Oriente, em especial a serena equanimidade proclamada pelo Budismo, com a maravilhosa via da "não-violência" ou
ahimsa, uma arma poderosíssima só ao alcance dos espíritos verdadeiramente iluminados, como Ghandi ou Madre Teresa ou Francisco de Assis, para citar 3 exemplos marcantes e universais.
Num dos livros do actual Dalai-Lama li que o maior pecado que podemos cometer é magoar voluntária e conscientemente alguém. Cristo e Buda estão em sintonia neste aspecto, já que ambos formularam a belíssima regra de ouro que tantas vezes esquecemos:
"Não faças ao outro aquilo que não gostarias que ele te fizesse!" ou, na formulação positiva, "Trata os outros como gostarias também de ser tratado!"
E é esta talvez a nossa meia desculpa, porque somos inconscientes, a maior parte das vezes, do mal que causamos involuntariamente ao nosso próximo, o nosso irmão de quem devemos também cuidar, como esse bom samaritano louvado na parábola dos Evangelhos.
Sim, o 11 de Setembro foi um acto de ódio, infelizmente igual a tantos outros a que dia após dia assistimos nas mais diversas e atrozes circunstâncias. E quero crer que nenhum de nós jamais pensaria tirar a vida ao seu semelhante, por muito até que abominasse as suas ideias ou o seu modo de vida ou o que quer que fosse. Porque o "não matar" é um imperativo moral universal, uma lei ética que todos reconhecem. Talvez com algumas excepções, como a legítima defesa ou até a luta pela sobrevivência, por exemplo num cenário de guerra ou em condições atrozes. Como a fome, não o jejum ou a "larica", mas a pura e atroz experiência da mais absoluta FOME que leva até a devorar qualquer coisa... anything!... incluindo obviamente o canibalismo.
Há vários exemplos históricos, e mesmo no século XX, como o espantoso crime na União Soviética de Estaline e que ficou conhecido pelo infame nome de
Holodomor, um morticínio que nada fica a dever ao Holocausto do povo judeu, uma década depois.
Deveras, mais recentemente ainda, deu brado e causou enorme polémica o caso da norte-americana
Terri Schiavo, legalmente assassinada pela retirada do tubo naso-gástrico através do qual era alimentada, desde que ficou inconsciente após um acidente vascular, na juventude. E, contudo, mesmo num estado vegetativo, vulgo "coma", o cérebro pode reagir a estímulos sensorais e mesmo ordens verbais, provando-se deste modo que a pessoa permanece consciente de si e do ambiente que a rodeia, não podendo apenas comunicar verbalmente ou de um modo perceptível com os outros, como aliás sucede nos casos de autismo profundo. Deveras, casos destes são por vezes relatados no Oriente, com ascetas em estados de meditação profunda que podem durar vários meses, necessitando de serem alimentados "à força", como os pobres gansos para a engorda. Infelizmente, os pais de Terri não puderam evitar este crime "legal"... à fome!... já que não se tratou de mera eutanásia, mas de uma agonia que durou 2 longuíssimas semanas.
Na Grécia e Roma antigas, e mesmo na Idade Média, há também registos de condenações à morte por "inanição", ou seja, uma greve da fome imposta à força. Os infelizes condenados devoravam
qualquer coisa, como a madeira das camas ou a própria roupa... anyting at all!
Logo, é esta a nossa "humanidade"... que mais dizer?! Temos a desculpa da ignorância, talvez, não estamos a cometer um crime voluntário e consciente, mas somos coniventes, sim. Porque, deveras, o Génesis está certo quando diz que também somos o "guardião" do nosso irmão.
Já agora, e para terminar esta longa dissertação, eu pensava hoje à tarde como talvez fosse muitíssimo mais eficaz na tal "luta contra o terrorismo", se uma percentagem até diminuta dos escandalosos e gigantescos orçamentos com a defesa - ou seja, com novas e mais sofisticadas formas de destruir e matar - fosse encaminhado para os programas de ajuda humanitária, mormente a erradicação do flagelo da fome, uma vergonha e um terrível libelo acusatório contra TODO o género Humano!
Talvez apenas 1% ou 2% desses incontáveis biliões e biliões chegassem, eu sei lá, e mesmos os tais "terroristas" não ficariam insensíveis a um gesto sincero dos governos ocidentais se, de facto, ele existisse. Mas não existe, ou continua a ser insuficiente e demasiado escasso. Deveras, só muito recentemente se tem feito algum esforço sério em prol do
"comércio justo", face aos deserdados do 3º Mundo, que não podem de facto competir numa desequilibradíssima economia de mercado na qual eles não têm parte.
Logo, 11 de Setembro ou 11 de Março para nós, mas cada dia do calendário para... pasme-se!... 800 MILHÕES de seres humanos, um sétimo da humanidade!!!
E aqui estou eu, de barriga cheia e frigorífico bem atestado, feliz da vida e sem nunca ter experimentado esse impensável facto de não ter NADA para comer! Bem, e a única caridade que pratico é a de alimentar os lazarentos cães e gatos vadios e abandonados que vagueiam de noite pelas ruas e jardins. Ou desfazer em migalhas algum pão que sobre, junto às árvores onde a passarada feliz se vai alimentar.
Porque, felizmente, quero crer que em Portugal já não se morre de fome, mesmo nesta terra há uma cantina social, vulgo "sopa dos pobres", e até nos bancos dos parques e jardins se vêem sacos com merendas por comer, logo mesmo um pobre envergonhado teria com que matar a fome.
Que ainda mata 11000 - ONZE MIL! - crianças por dia, segundo aquilo que leio e não quero acreditar. Deve ser exagero, espero, talvez estes números estejam desactualizados e haja aí um zero a mais, sei lá! Mas ainda que todos os zeros desaparecessem, 11 ainda seria horrivelmente muito. Lentamente, lentamente... Não sei quantos minutos... ou talvez mesmo só segundos!... levaram a perecer os judeus gaseados em Auschwitz e nos outros campos de morte. Mas já li relatos indizíveis do espantoso sofrimento e total desumanização que é perecer de fome... FOME, repito, FOME!!!
E não concebo, não consigo deveras imaginar padecimento mais cruel e desumano. Creio que nem há mesmo Holocaustos e Hiroshimas e Inquisições que se possam comparar ao facto de TODOS NÓS, a orgulhosa Raça Humana, deixar ou se alhear do facto de que deixamos perecer milhares de seres... homens, mulheres, velhos, crianças!...
todos os dias, à simples míngua de uma côdea de pão ou uma gota de água. Já para não falar da falta de um sorriso ou um olhar ou uma só palavra, mesmo numa linguagem desconhecida, já que o total abandono e alheamento também matam...
So... who is the killer... really?! Where is the true terror, when we turn our back on such a vivid horror... how cruel is
starvation?!
On average, every five seconds a child dies from starvation.
Every five seconds... every five seconds... every five seconds!!! 12 num SÓ minuto!!!!!!!!
So we don't really think about it and we don't give a damn... do we?! Olha, que culpa temos?! Eu até nem sei de nada, só agora li...
E morrer alguém de fome?! Impossível! Nunca vi!!!
Uivam os pobres cães, neste momento. Outro pobre destino lazarento...
E morrem quantos mais ao frio, ao sol, ao vento... inteiramente sós, sem pão nem um lamento?...
12 de Setembro de 2006
Rui Vaz da Fonseca