As OPA`s e os topos do mercado

Colecção de Artigos Didácticos do Caldeirão de Bolsa.

As OPA`s e os topos do mercado

por Ulisses Pereira » 30/5/2011 16:06

Uma das maiores ilusões do mercado é a ideia que muitos investidores têm de que o aumento do número de Ofertas Públicas de Aquisição (OPA) é sinal que o grande capital identificou oportunidades a baixo preço e, por isso, o mercado está barato e estamos no início de um "bull market". Teoricamente, esta ideia faz sentido mas, na prática, o que acontece é precisamente o contrário.

Se analisarmos o número de OPA, podemos verificar que elas tendem a aumentar à medida que os "bull markets" avançam, ou seja, o pico do número de OPA acontece quando os mercados se aproximam também dos topos. E não é apenas o número destas operações. As OPA de maior importância (forma eufemística de dizer "com mais dinheiro envolvido") também acontecem muito perto dos topos do mercado. O gráfico aqui apresentado é bem claro de como o volume negociado em OPA nos Estados Unidos varia no mesmo sentido que o S&P, o principal barómetro do mercado americano.

Isto desmistifica, por completo, a ideia de que o "grande capital" tem olho clínico na hora de lançar estas ofertas. Em Portugal, as grandes OPA também foram lançadas em alturas bem adiantadas dos "bull markets" e a sorte de muitos daqueles que lançaram essas operações de compra foi elas terem fracassado porque os potenciais vendedores acharam que o preço era demasiado baixo! Não há a menor dúvida que a percepção do que é barato ou caro altera-se por completo consoante estamos a viver um "bear" ou um "bull market".

A outra ideia que é "vendida" constantemente é a de que a maior parte das Ofertas Públicas de Venda (OPV) ocorrem perto do topo dos "bull markets" e, desta vez, não ouso contrariar esta ideia. Na verdade, quem quer colocar as suas empresas em Bolsa tem sabido bem aproveitar os períodos de euforia no mercado para fazer as OPV na altura certa, encaixando muito dinheiro.

Qual a situação actual que vivemos a este nível? No mercado americano, começamos a ter um número muito grande de OPA, sinalizando que podemos já estar numa fase bem adiantada do "bull market". Por outro lado, também já temos assistido a muitas OPV e, sobretudo, o mais preocupante é a quantidade dessas operações que se começam a preparar. Se o número de OPV explodir há aqui um sinal de euforia que, historicamente, antecipa uma inversão.

Em Portugal, a situação é bem diferente. OPA alguém as vê desde o tempo do anterior "bull market"? E OPV? Depois do descalabro das cotações da Martifer, REN e EDPRenováveis colocadas no mercado entre 2007 e 2008, alguém viu outras operações do género? Não. Provavelmente porque não vivemos um "bull market" como a maior parte dos mercados mundiais.

Por isso, quando os jornais começarem a noticiar sucessivas grandes operações deste género, desconfie. Desconfie do mercado. E desconfie que uma das partes fez um mau negócio. Quase sempre o comprador, já que a maioria das OPV e OPA acontecem já no final de um ciclo de subidas. Estranho mundo este em que são os preços caros que atraem os investidores. Os pequenos e os grandes.

Ulisses
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