A ilusão dos dividendos

Colecção de Artigos Didácticos do Caldeirão de Bolsa.

A ilusão dos dividendos

por Ulisses Pereira » 30/5/2011 16:03

"A nossa maior ilusão é acreditar que somos o que pensamos ser"
Henri Amiel


Um dos maiores erros dos investidores ocorre quando se aproxima o pagamento de dividendos.

Nessa altura, muitos são aqueles que correm a comprar as acções com melhores dividendos, quase ignorando o facto das acções, no primeiro dia que não dão direito a esse dividendo, corrigirem esse valor.

Há dois argumentos muito utilizados por investidores nestas circunstâncias: Um é que, com o aproximar dos dividendos, há sempre uma tendência para as acções subirem, por causa da "corrida" aos dividendos. O outro é que, mal a acção já não dá direito aos dividendos, após a correcção na abertura, as acções rapidamente recuperam esse valor perdido. Lamento, mas são duas ilusões porque se é verdade que algumas vezes isso acontece, outras vezes não e não há qualquer estudo que aponte nesse sentido.

Aliás, recentemente, a propósito do dividendo extraordinário da PT tive a oportunidade de rebater esses argumentos de alguns participantes do Caldeiraodebolsa.com, alertando para o perigo destes pensamentos simplistas. E a verdade é que a PT, caiu antes de entrar em ex-dividendo e caiu bastante a seguir (já contando com o natural ajuste). Não estou a dizer que caiu por causa disso. O que quero sublinhar é que aqueles dois argumentos são das maiores ilusões que vigoram na mente dos pequenos investidores.

Os dividendos são irrelevantes? Não. Para os grandes investidores que detêm posições estratégicas são importantíssimos porque não têm a flexibilidade de poder reduzir a exposição à acção como os pequenos investidores têm.

Por exemplo, um pequeno investidor que detém acções do BPI e BCP e está descontente por não ter o seu dividendo de 2 ou 3%. O que pode fazer? Reduzir a sua exposição, vendendo 2 ou 3% dessas suas acções. Porque, no fundo, o que qualquer um desses dois bancos está a fazer é incorporar na empresa aquilo que antes distribuía pelos accionistas, pelo que as acções não sofrerão o habitual ajuste.

Um accionista de referência não tem esta liberdade já que, como estamos a falar de posições estratégicas, reduzir a sua posição no banco teria consequências graves, por exemplo, ao nível do controlo e gestão do Banco. Para estes accionistas de referência, a política de dividendos é verdadeiramente importante.

Naturalmente que poderia falar aqui da importância da política de dividendos na estratégia da empresa, sendo um importante instrumento de decisão. Contudo, como habitualmente, nos meus artigos gosto mais de me focar nos investidores do que em questões de gestão. E a realidade é que a autêntica obsessão pelos dividendos por parte da maioria dos investidores é completamente injustificada e acaba por ter efeitos contraproducentes.

É difícil desmistificar certas ilusões que, ao longo dos anos se vão enraizando nos investidores. Nem tenho essa presunção porque esta é apenas a minha opinião e, como habitualmente, terei sempre dezenas de mails a discordar do que aqui escrevo. É o poder da ilusão.

Ulisses
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Re: A ilusão dos dividendos

por whiteshark » 28/2/2014 11:52

[quote="Ulisses Pereira"][i]"A nossa maior ilusão é acreditar que somos o que pensamos ser"[/i]
[b]Henri Amiel[/b]


Um dos maiores erros dos investidores ocorre quando se aproxima o pagamento de dividendos.

Nessa altura, muitos são aqueles que correm a comprar as acções com melhores dividendos, quase ignorando o facto das acções, no primeiro dia que não dão direito a esse dividendo, corrigirem esse valor.

Há dois argumentos muito utilizados por investidores nestas circunstâncias: Um é que, com o aproximar dos dividendos, há sempre uma tendência para as acções subirem, por causa da "corrida" aos dividendos. O outro é que, mal a acção já não dá direito aos dividendos, após a correcção na abertura, as acções rapidamente recuperam esse valor perdido. Lamento, mas são duas ilusões porque se é verdade que algumas vezes isso acontece, outras vezes não e não há qualquer estudo que aponte nesse sentido.

Aliás, recentemente, a propósito do dividendo extraordinário da PT tive a oportunidade de rebater esses argumentos de alguns participantes do Caldeiraodebolsa.com, alertando para o perigo destes pensamentos simplistas. E a verdade é que a PT, caiu antes de entrar em ex-dividendo e caiu bastante a seguir (já contando com o natural ajuste). Não estou a dizer que caiu por causa disso. O que quero sublinhar é que aqueles dois argumentos são das maiores ilusões que vigoram na mente dos pequenos investidores.

Os dividendos são irrelevantes? Não. Para os grandes investidores que detêm posições estratégicas são importantíssimos porque não têm a flexibilidade de poder reduzir a exposição à acção como os pequenos investidores têm.

Por exemplo, um pequeno investidor que detém acções do BPI e BCP e está descontente por não ter o seu dividendo de 2 ou 3%. O que pode fazer? Reduzir a sua exposição, vendendo 2 ou 3% dessas suas acções. Porque, no fundo, o que qualquer um desses dois bancos está a fazer é incorporar na empresa aquilo que antes distribuía pelos accionistas, pelo que as acções não sofrerão o habitual ajuste.

Um accionista de referência não tem esta liberdade já que, como estamos a falar de posições estratégicas, reduzir a sua posição no banco teria consequências graves, por exemplo, ao nível do controlo e gestão do Banco. Para estes accionistas de referência, a política de dividendos é verdadeiramente importante.

Naturalmente que poderia falar aqui da importância da política de dividendos na estratégia da empresa, sendo um importante instrumento de decisão. Contudo, como habitualmente, nos meus artigos gosto mais de me focar nos investidores do que em questões de gestão. E a realidade é que a autêntica obsessão pelos dividendos por parte da maioria dos investidores é completamente injustificada e acaba por ter efeitos contraproducentes.

É difícil desmistificar certas ilusões que, ao longo dos anos se vão enraizando nos investidores. Nem tenho essa presunção porque esta é apenas a minha opinião e, como habitualmente, terei sempre dezenas de mails a discordar do que aqui escrevo. É o poder da ilusão.

Ulisses[/quote]

Bom dia Ulisses,

Isto é capaz de ser uma pergunta estúpida mas que impede um investidor de shortar a sua posição para se proteger da desvalorização ex-div?

Por exemplo se tiver 1000 acções da PT e, mantendo essa mesma posição, se entrar short em 1000 açcões e fechar essa posição short a seguir à distribuição de dividendos.

Cumprimentos,
 
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Re: A ilusão dos dividendos

por MarcoAntonio » 5/3/2014 10:44

Quem está curto tem de pagar o dividendo ao credor das acções, também não ganha com "queda" do ex-dividendo.
Bons Negócios,
Marco Antonio
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1. Mais vale perder um ganho que ganhar uma perda, a menos que se cumpra a Segunda Lei.
2. A expectativa de ganho deve superar a expectativa de perda, onde a expectativa mede a
....amplitude média do ganho/perda contra a respectiva probabilidade.
3. A Primeira Lei não é mesmo necessária mas com Três Leis isto fica definitivamente mais giro.
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Re: A ilusão dos dividendos

por whiteshark » 5/3/2014 12:07

[quote="MarcoAntonio"]Quem está curto tem de pagar o dividendo ao credor das acções, também não ganha com "queda" do ex-dividendo.[/quote]

Pois, ok ok.
Obrigado!
 
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Re: A ilusão dos dividendos

por TorresTrader » 6/3/2014 19:34

e ai galera tudo certo? ótimos artigos para aprender ainda mais sobre o mercado, abraços
 
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