Eu, especulador, me confesso

Colecção de Artigos Didácticos do Caldeirão de Bolsa.

Eu, especulador, me confesso

por Ulisses Pereira » 30/5/2011 15:58

Eu sou um especulador.

Depois deste assustador primeiro parágrafo, já muitos leitores mudaram a página, incapazes de conseguir ler algo escrito por um daqueles que, segundo os políticos e a opinião pública, estão a dar cabo do nosso país.

Sou um especulador porque tento ganhar dinheiro nos mercados de capitais e tento fazer com que os meus clientes ganhem dinheiro. Sou um especulador porque tento comprar barato e vender caro. Sou ainda mais especulador porque, muitas vezes, tendo vender caro para depois comprar mais barato. Sou especulador porque vivo dos mercados financeiros.

Este parasita da sociedade que vos escreve lamenta informar-vos que sem especuladores não existiriam mercados financeiros. Eles existem desde o primeiro minuto da sua criação e a liquidez que os tornam apetecíveis são garantidos por estes parasitas da sociedade, como eu. Duvido, que sem, especuladores existissem tantos jornalistas a escrever neste jornal. Duvido também que as corretoras ganhassem tanto em comissões e os Estados em todas os impostos e taxas que o negócio dos mercados financeiros envolve.

Lamento também que, como analista, não esteja sistematicamente a dizer que a Bolsa portuguesa vai subir e que o futuro é cor-de-rosa. Bem sei que muitos leitores me acusam de estar a contribuir para o acentuar do pessimismo nacional e para o afundar da nossa confiança. Recordo que o meu papel é dizer o que penso e fazer dos meus leitores as pessoas mais bem informadas possíveis. Não sou eu que vou salvar a Bolsa portuguesa mas, se conseguir que quem me leia possa estar mais ciente da realidade, estarei seguramente a cumprir o meu papel. Mas lamento de novo não ter andado optimista no último ano e não me juntar à hipocrisia de quem via as recuperações em cada décima percentual de ganho num daqueles indicadores tão interessantes como as telenovelas mexicanas. Felizmente, não negoceio no mercado português (apenas para clientes portugueses), senão lá viria a acusação de dizer mal para comprar barato.

Todos os dias durmo de consciência pesada quando vejo José Sócrates, a sua equipa ministerial, o poeta candidato à Presidência da República e mais de metade dos deputados do Parlamento apontarem-me a mim e aos meus colegas especuladores como responsáveis pelo estado a que o país chegou. Por vezes, chego até a sonhar que fui eu que decidi as políticas fiscais, fui eu que tomei as decisões de investimento, tracei as linhas orientadoras das políticas sociais e fui eu que decidi que Portugal devia ser o rei dos Institutos Públicos porque temos dinheiro e perfil para isso.

Como especulador, gosto sempre de acreditar que a culpa dos nossos fracassos é nossa. Aprendi, com a dureza do mercado, que atirar a culpa para cima dos outros é apenas ter medo de enfrentar o erro, as opiniões dos outros e não nos conduz ao sucesso.

O Governo e a maioria dos deputados pensa o contrário. Acha que a culpa desta crise é minha e dos meus colegas especuladores. Provavelmente, ecos de José Mário Branco que no seu "FMI" clamava: "A culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa".

Se José Sócrates dormir mais descansado, eu assumo que a culpa do país estar neste estado é minha. Aliás, todos acreditam nisso.

Antes de lerem o meu artigo da próxima semana, pensem duas vezes. Afinal de contas, sou um especulador e não sabem se o vosso jornal ou computador se queimará nas vossas mãos por cometerem a heresia de me lerem. Cuidado, sou especulador.

Ulisses
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