O meu pior negócio

Colecção de Artigos Didácticos do Caldeirão de Bolsa.

O meu pior negócio

por Ulisses Pereira » 26/12/2010 17:55

Março de 2001.

Ulisses, com muitos anos de mercado e uma vasta experiência no mercado de futuros, resolve olhar para um dos futuros mais ilíquidos da nossa praça: os futuros sobre a Cimpor.

Em pleno "Bear market", a Cimpor vivia um momento de ouro, fruto da luta pelo controlo da empresa. Ulisses que, 99% das vezes, negoceia com base nas suas análises técnicas, resolve fazer uma incursão pelo campo dos fundamentais e chega à conclusão que a Cimpor é a cimenteira mais cara do mundo, a léguas das suas congéneres mundiais.

A explicação era simples: a Cimpor estava a dias da sua Assembleia Geral onde se ia jogar o futuro da empresa, sendo todos os votos decisivos e os "big players" andavam no mercado a comprar tudo o que era acção.

Ulisses achou que podia ser mais esperto que o mercado e decidiu que iria abrir uma posição curta sobre a Cimpor no último dia que as acções davam direito a votos na Assembleia Geral, para tentar aproveitar a previsível queda posterior a esse dia.

O mercado começa aí a pregar-lhe a primeira partida pois, 4 dias antes do dia D, começa a cair ligeiramente. Em mais uma tentativa de "ler" o mercado, o mais que confiante Ulisses conclui que havia muita gente a apostar numa puxada final e que, ao verem que afinal não estava a haver essa puxada, decidem sair, fazendo cair a acção. Antes que a queda se acentuasse, decide abrir a posição curta, 2 dias antes do programado.

Nos dois dias seguintes, a Cimpor voa, subindo cerca de 10%. Na altura, a alavancagem nesses futuros era de cerca de 10 vezes pelo que, em dois dias, o Ulisses tinha perdido tudo o que lá tinha investido!

Apesar da dimensão da possível perda, mantinha-se confiante porque, apesar de tudo, esta puxada violenta estava perfeitamente prevista na análise inicial dele, pelo que só tinha errado no "timing" de entrada.

Na sessão seguinte, a Cimpor anda o dia todo a cair ligeiramente mas, com uma compra violenta no último segundo, a acção fecha a subir mais de 7%! Não houve tempo para accionar "stops" nem nada. Só houve tempo para o Ulisses começar a ficar roxo e perceber que já estava a perder 170%! Apesar de tudo, manteve-se confiante pois tinha sido uma compra no pré-fecho e amanhã o mercado decerto corrigiria este disparate.

No dia seguinte, o filme repetiu-se! A sessão inteira a cair ligeiramente e, no último segundo, uma compra monstruosa leva a acção a voar! Já não sei descrever com que cores ficou o Ulisses. Afinal, a Cimpor continuava a voar mesmo depois do dia D, o dia em que as acções deixavam de ter direito a votos para a Assembleia Geral.

Ulisses tomou a difícil decisão de fechar a posição na sessão seguinte. Contudo, durante toda a sessão, as cotações dos futuros estavam muito afastadas do preço do mercado accionista. Era um exagero! Telefona à sua corretora e tenta recorrer a um arbitragista para o ajudar a fechar a posição. Ao contrário do que é habitual, levou um NÃO do outro lado. Não havia praticamente papel no mercado e não havia acções para se poder fazer a arbitragem. O Ulisses ficou então à espera que as coisas se tornassem mais racionais nos futuros. A acção fechou a subir nesse dia, sem que ele tivesse oportunidade de fechar a posição.

Foi a única noite na sua vida que Ulisses não conseguiu dormir por causa dos mercados. Tinha perdido 200% do que tinha investido. No dia seguinte, mesmo com os futuros muito acima do preço do mercado à vista, ele fecha 3/4 da sua posição.

Nos dias seguintes, a Cimpor cai cerca de 20%! Completamente traumatizado pelas perdas violentas que sofreu e sem se aperceber que aquele era o sinal de que, finalmente, o "Bull Market" da Cimpor tinha acabado, fecha o que lhe restava da sua posição.

Nesse dia, o grande Ulisses tinha dado lugar ao Ulissinhos. Ao fim de mais de uma década nos mercados, reaprendeu várias lições:

- Nunca acharmos que somos mais inteligentes que o mercado;
- Nunca abdicarmos de usar "stops";
- Nunca investirmos em mercados tão ilíquidos que nos impeçam de fechar a nossa posição quando queremos.
- Nunca nos desviarmos do nosso método. Se a minha especialidade era a AT porque raio me armei em fundamentalista?
- Nunca acharmos que somos grandes. Grande é o mercado e, quando nos pomos em bicos de pés, se agiganta e nos dá um murro na cabeça para nos reduzirmos à nossa pequenez.

O que se passou a seguir? A Cimpor caiu 50% nos meses seguintes. Em Bolsa, tal como na política, ter razão antes de tempo pode ser fatal.

P.S. A história foi contada na terceira pessoa para poderem gozar à vontade com o tipo que fechou as posições curtas da Cimpor no seu máximo histórico!

Ulisses Pereira
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Re: O meu pior negócio

por JMalés » 22/10/2014 3:03

Bom texto e grandes pontos finais em relação às lições do Ulissinhos
 
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Re: O meu pior negócio

por Rcs1972 » 23/2/2015 18:44

Pois... o problema aqui é que análises fundamentais funcionam apenas no médio/ longo prazo e o Ulisses usou-a para investir no curto prazo. Como dizia o Ben Graham (mentor do Warren Buffet):

" in the short term, the stock market behaves like a voting machine, but in the long term it acts like a weighing machine (i.e. its true value will in the long run be reflected in its stock price)"

Em cima disso, usou alavancagem. Que é muito mas mesmo muito mau , sob qualquer ponto de vista que se adopte. Um dos muitos problemas de usar alavancagem é que um tipo fica prisioneiro dos resultados de curto prazo... Se um trade não vale a pena sem alavancagem então pura e simplesmente não vale a pena (o Ulisses deveria ler o Warren Buffet).

Sim, agora que li o artigo todo (sim, também é uma boa ideia) cheguei a uma conclusão interessante: se o Ulisses não tivesse usado alavancagem (ou seja se se tivesse limitado a fazer short às acções ou aos contratos de futuros e mantido a sua posição durante os meses seguintes) teria feito 50% sobre o seu investimento. Na minha terra um rendimento desta magnitude não é nada para deitar fora.

É verdade que os primeiros dias seriam atribulados mas um investidor vive bem com perdas temporarias de 10 ou 20% não vive é com perdas de 100 ou 200%. E perdas desta ordem de grandeza só acontecem em dois cenários, a saber:

a) um tipo é extremamente incompetente a escolher acções e deveria dedicar-se a jogar Magic The Gathering em vez de investir em acções
b) um tipo usa alavancagem e também deveria dedicar-se a jogar Magic The Gathering em vez de investir em acções

Acho que a aventura do Ulisses neste caso cai na categoria b).
 
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