Um trader de pijama

Colecção de Artigos Didácticos do Caldeirão de Bolsa.

Um trader de pijama

por Ulisses Pereira » 26/12/2010 17:49

Uma das perguntas que mais leitores me colocam é como consigo arranjar tempo para fazer tudo o que faço? O artigo de hoje é dedicado à resposta a essa questão.

O meu dia começa às 11h30min. No passado começava bem mais cedo, mas à medida que deixei de negociar na Bolsa portuguesa e apenas no mercado americano, os meus horários foram ajustando-se em função dessa decisão. Essas horas de final da manhã são passadas a colocar-me a par do que se está a passar nas Bolsas europeias e a ler tudo o que foi escrito no caldeiraodebolsa.com. A gestão e moderação do maior fórum português exige muito mais do que aquilo que alguma vez pensei e do que vocês imaginam.

Por volta das 13h30min, almoço em breves minutos, pois é chegada a hora de afinar o plano de “trading” para o mercado americano que abre às 14h30min, hora portuguesa. A partir daí começa o frenesim e as emoções fortes. Controlando as cotações, vou verificando as acções e os índices que tocam nos meus pontos de entrada e saída, agindo em consonância com o planeado.

A televisão está sintonizada na CNBC, alternando o seu som com a da música que toca na aparelhagem. Enquanto acompanho os mercados, prossigo o acompanhamento de notícias e análises em alguns sites americanos. Ou seja, mesmo a milhares de quilómetros, tudo me parece perto. Basta querermos.

Pelas 16h30min chega a altura de fazer a primeira pausa. Durante uma hora, saio de casa e dou um pequeno passeio a pé pelas ruas de Aveiro ou nas praias que ficam aqui ao lado. Por mais paradoxal que possa parecer, esta minha hora de pausa é dos momentos mais decisivos do meu dia de “trading”. Esse intervalo é fundamental para relaxar da tensão brutal que rodeia esta actividade e recarregar forças para a segunda metade da sessão.

Mas – curiosamente – é também muitas vezes nessa hora que me surgem leituras mais racionais sobre o mercado e consigo afastar-me um pouco das emoções dos números. Sempre que o mercado está mais agitado e abdico dessa minha pausa de uma hora, os resultados têm sido maus, pelo que cada vez mais faço questão de cumprir religiosamente esse passeio de uma hora a pé.

Depois disso, regresso ao trabalho e todas as atenções ficam centradas no mercado americano, onde continuo a negociar até ao fecho que ocorre às 21horas portuguesas. Aí ocorre a segunda pausa do meu dia, onde aproveito para treinar a equipa sénior feminina de andebol do Alavarium (que disputa o Campeonato Nacional da 1ª Divisão) e libertar o “stress” de uma jornada de trabalho.

Janto sem tempo para grande descanso e, por volta das 23h30min, já estou de novo em frente ao PC, a estudar os gráficos de cerca de 250 acções, preparando a sessão do dia seguinte. São cerca de 3 horas de observação de padrões e definição de estratégias que me facilitam todo o trabalho do dia seguinte, onde tudo já está sistematizado. Por volta das 4 da manhã, está todo o trabalho feito e preparadíssimo para adormecer, pois no dia seguinte começa uma nova jornada de emoções fortes nos mercados.

Além disto, tenho sempre que arranjar uns espaços no meu dia para estar sempre atento ao Caldeirão, para escrever os artigos e produzir os vídeos para o Jornal de Negócios e para gravar os comentários do European Poker Tour na Sic Radical.

Trabalho sempre em casa, criando situações tão curiosas como a de não conhecer os meus colegas de trabalho no jornal. Os textos e gráficos chegam por mail. Trabalhar em casa tornou-se uma nova possibilidade, graças a essa maravilha chamada Internet. Para um “trader”, acredito que a tranquilidade da sua casa pode ser uma grande vantagem, podendo escolher o seu ambiente perfeito para negociar.

Tenho uma boa vida. Mas sei que se me desleixar, trabalhando menos, os resultados começarão a deteriorar-se, porque o “trading” exige muito trabalho, tal como qualquer outra actividade. Acredito que só pode ser um grande “trader” quem amar muito este mundo dos mercados, senão jamais conseguirá aguentar o ritmo de trabalho e a pressão dos lucros e das perdas.

Eu adoro o que faço, mas confesso que quando chega Sexta-feira à noite, sinto um peso enorme a sair-me dos ombros e uma necessidade enorme de, durante dois dias, esquecer que existem mercados e relaxar ao máximo durante o fim-de-semana. Há que aproveitar ao máximo pois no domingo, às 23h30min, há mais 250 gráficos para analisar.

São assim as 24 horas da vida de um “trader”. Afinal, a imagem de um homem de fato e gravata, com um telemóvel no ouvido no meio de centenas de pessoas aos berros, não é obrigatória para um “trader”. No aconchego do lar, de pijama e com Rodrigo Leão a tocar na aparelhagem, é possível negociar em todo o mundo. E escrever este artigo…

Ulisses Pereira
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