O fantasma dos tubarões

Colecção de Artigos Didácticos do Caldeirão de Bolsa.

O fantasma dos tubarões

por Ulisses Pereira » 22/9/2010 17:41

Quando uma instituição bancária ou um grande investidor anuncia a entrada (ou reforço) numa empresa cotada na praça portuguesa, vejo os investidores entusiasmarem-se e ficarem com certezas de que isso significará uma valorização futura da empresa alvo desse “grande capital”.

Por que sou tão céptico quanto à eficácia da observação dos movimentos desses grandes empresários ou instituições? Porque a história dos mercados está cheia de fracassos e maus resultados por parte desse “grande capital”. Por exemplo, ao longo dos últimos anos, sempre que alguma instituição bancária revelava que tinha tomado uma posição relevante na Pararede, os investidores rejubilavam e compravam a acção, defendendo que aquela grande instituição não entraria numa empresa se fosse para perder dinheiro. A verdade é que a cotação da Pararede continuou a cair, a cair, a cair… Depois saíram alguns dos accionistas de referência, entrando outras importantes e prestigiadas instituições nacionais. E a acção continuou a cair, a cair, a cair… Aliás, os prejuízos na Pararede causaram sérios problemas no Central Banco de Investimentos, cujos prejuízos na acção causaram estragos e fizeram rolar cabeças.

E a excitação que se apodera dos investidores quando os fundos de investimento anunciam as acções que compõem maioritariamente a composição da sua carteira e dão conta que algumas coincidem com as que esses investidores possuem? Como se o facto dos grandes fundos deterem uma posição forte numa acção fosse garantia de subida por parte da mesma…

Mesmo alguns investidores que já negoceiam há muitos anos acreditam que os gestores de fundos controlam o mercado e este obedece ao rumo que eles lhe quiserem dar. Eu cada vez mais acredito que isto é uma das ilusões do mercado. Ninguém é suficientemente forte para ser maior que o mercado. Um dos exemplos mais paradigmáticos disto é o caso de Pedro Caldeira, antes do “crash” de 1987: Ele controlava mais de metade do mercado, conseguindo controlar o seu rumo mas, num instante, tudo ruiu como um baralho de cartas, sem compradores para vender as suas acções.

Mas a melhor forma de desmontar esta ilusão é verificar o desempenho da maior parte dos fundos mundiais. Se o mercado obedece ao rumo que os fundos lhe querem dar, não era suposto os seus resultados serem fantásticos? Por que é que foram poucos os fundos que conseguiram ter resultados positivos na maioria dos últimos 10 anos?

Claro que é muito fácil e cómodo aos pequenos investidores justificarem os seus fracassos com manobras obscuras dos “grandes tubarões” e isso faz com que as teorias conspirativas sejam uma constante nas conversas sobre Bolsa. Mas, na verdade, a esmagadora maioria das vezes não passam de fantasmas acenados pelos investidores para justificarem os seus erros e encontrarem bodes expiatórios para os seus insucessos.

“Se eu tivesse muito dinheiro é que tinha acesso às informações”, “Os gestores dos fundos levam isto para onde querem” ou “As minhas acções não sobem porque isto está a ser manipulado pelos grandes” são frases recorrentes mas que demonstram que estes investidores ainda estão numa fase de aprendizagem, pois vêem fantasmas atrás de todas as portas e usam-nos como desculpas perfeitas para justificar as suas próprias falhas perante os outros e perante si mesmo.

Por isso, se alguém lhe falar nos tubarões como justificação das perdas nos mercados, torça o nariz, franze o sobrolho ou esboce uma outra qualquer de desconfiança. Mas, por favor, não se junte a essas teorias que mais não fazem do que adiar a assumpção do erro, passo chave para a evolução de qualquer investidor. Os verdadeiros fantasmas estão dentro de nós.

Ulisses Pereira
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