Do papel para o mercado

Colecção de Artigos Didácticos do Caldeirão de Bolsa.

Do papel para o mercado

por Ulisses Pereira » 22/9/2010 17:40

Um dos conselhos que se habitualmente se dá a quem quer começar a negociar nos mercados é fazer algumas experiências fictícias antes de começarem a sua experiência real. Aquilo a que, na gíria, costumamos apelidar de “paper trading” consiste em simular uma série de negócios para tentar perceber se os resultados seriam ou não bons.

O “paper trading” pode ser feito de uma forma muito rudimentar, anotando numa folha de papel os movimentos que fariam se estivessem a negociar realmente ou, de uma forma mais sofisticada, através dos diversos “softwares” que algumas corretoras colocam à disposição dos seus potenciais clientes para que possam efectuar testes com dinheiro virtual.

Também eu costumo recomendar este género de experiências aos investidores que querem começar a dar os primeiros passos nos mercados, pois acredito que pode minimizar alguns problemas que os investidores enfrentam quando iniciam os seus investimentos em Bolsa. Contudo, quanto mais tempo de experiência tenho, mais reconheço as limitações do “paper trading” e a incapacidade dele servir como bom indicador da preparação de um investidor para ter sucesso no mercado real.

Alguns estarão, por certo, a pensar que uma das grandes diferenças entre o “paper trading” e a negociação real tem a ver com questões como as comissões ou o pequeno diferencial que existe na colocação de uma ordem em tempo real. Não nego a importância dessas questões mas são perfeitamente ultrapassáveis, sejam pela via da inclusão das comissões no “paper trading” quer pela cada vez maior rapidez na colocação das ordens reais.

A grande diferença tem a mesmo a ver com a postura do investidor quando negoceia com dinheiro fictício ou com o seu próprio capital. Por mais que se tente ser o mais real possível nas simulações, a verdade é que as reacções costumam ser bem mais racionais do que na negociação real. É por isso que, de uma forma geral, os resultados nestas simulações virtuais são bem melhores do que na realidade.

Um dos grandes problemas dos investidores mais inexperientes é o facto de se deixarem levar pelas emoções, perdendo discernimento e a noção daquilo que estão a fazer. É normal começarem a negociar de uma forma muito serena e racional mas, à medida que vão aparecendo os primeiros ganhos e as primeiras perdas, começam a ser invadidos por um turbilhão de sentimentos que faz a razão ir perdendo importância para a emoção.

Quem costuma acompanhar os meus artigos, decerto já se apercebeu da importância que atribuo ao controlo das emoções para o sucesso dos investidores. Os principiantes são aqueles que mais sofrem com o descontrolo das emoções porque, geralmente, vivem de uma forma mais intensa os sucessos e os desaires. Se ainda fica eufórico após um bom ganho ou bastante deprimido após uma perda, talvez ainda tenha que atravessar um processo de maturação no mercado pois essa miscelânea de sentimentos acaba por ter consequências perigosas para os investidores.

Só quem nunca negociou é que talvez não entenda a pressão psicológica que um investidor sofre quando está a investir dinheiro real. Os excessivamente optimistas, não acreditam que podem errar e quando as coisas não lhes estão a correr bem eles reforçam a sua posição acreditando que estão correctos e o mercado é que está errado o que, quase sempre, os faz aumentar as perdas. Os excessivamente pessimistas, logo que estão a ganhar uma pequena quantia, fecham a posição com medo que as coisas acabem por correr mal. Depois assistem, quase sempre, ao continuar do movimento e acabam a lamentarem-se por terem deixado de ganhar muito dinheiro, apesar de terem feito a análise correcta no início. Isto só acontece na negociação real, pois é aí que os nossos sentimentos começam a sobrepor-se à razão.

Continuo a aconselhar o “paper trading” a quem se está a iniciar no mercado. Acredito ser uma boa forma de aprendizagem para os investidores. Mas não posso deixar de alertar que a posterior transição para a negociação real é bem mais dura do que pode aparentar. Por isso, não se entusiasme com os fantásticos resultados que pode ter obtido na negociação virtual. A realidade das emoções pode ainda causar muito estragos.

Ulisses Pereira
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