Ética e transparência

Colecção de Artigos Didácticos do Caldeirão de Bolsa.

Ética e transparência

por Ulisses Pereira » 24/2/2009 2:57

Em Portugal, não é clara a lei quanto ao facto de alguém ser obrigado a revelar as suas posições no mercado sempre que se pronuncia sobre uma acção. Apesar disso, faço sempre questão de revelar se eu ou os meus clientes possuem uma determinada acção que analiso. Esta minha preocupação está relacionada não apenas com questões éticas mas também de clareza na forma como me lêem.

Decerto, várias vezes já leram algumas análises e ficaram com a sensação de que quem as escreveu teria alguma posição nessa acção e estaria a sobrevalorizar a sua posição de forma a beneficiar com isso. Acredito que a maioria dos analistas são honestos mas são vários os casos tornados públicos de clara distorção das análises, de forma a beneficiar o analista ou a casa de investimentos para a qual trabalha.

Por isso, parece-me eticamente mais correcto que um analista refira sempre se tem qualquer relação com a acção em causa. Desta forma, os leitores ficam logo claramente a saber a sua ligação com a empresa em análise, tornando as suas opiniões muito mais transparentes. Nos Estados Unidos, as regras são cada vez mais rígidas e bem definidas nessa matéria, obrigando à descrição exaustiva de todas as relações existentes entre o analista/casa de investimento e a empresa em causa.

Penso que ninguém põe em causa que estas questões éticas aconselham a que os analistas divulguem se possuem alguma relação com a empresa que analisam. Contudo, gostaria de ir um pouco mais longe na abordagem de outro problema que transcende a questão ética e que, na minha opinião, aconselha todos aqueles que escrevem sobre o mercado a revelarem se possuem alguma posição sobre a acção em análise.

Quando alguém detém uma posição no mercado, por mais imparcial que tente ser, nunca o conseguirá na perfeição. Por mais frios que se tente ser na análise de uma determinada acção, a opinião acaba sempre por ser condicionada pela posição que se possui sobre essa mesma acção. A análise torna-se sempre um pouco enviesada e os leitores têm o direito de saber isso.

Durante alguns anos, julguei conseguir ter uma posição sobre uma acção e ter uma opinião isenta sobre ela. Pura ilusão. Mesmo sendo sempre completamente honesto na forma como escrevo sobre o mercado, sei que quando detenho uma posição numa acção, a minha opinião acaba por estar sempre um pouco condicionada a esse facto. Penso que ao dizer que detenho uma determinada acção em carteira estou, simultaneamente, a colocar-me em melhor posição para analisar mais naturalmente a acção e a dar a informação completa aos leitores que lhes possibilite fazerem a sua própria avaliação da minha análise.

Divulgar as posições que temos sobre os activos em análise, não serve apenas para credibilizar a análise e dar transparência à mesma. No meu caso pessoal, isso é fundamental para que eu me sinta mais à vontade para escrever tranquilamente sem estar a pensar se os leitores vão perceber que eu detenho uma posição sobre esse activo.

Há ainda os mais radicais que defendem a proibição de negociar por parte de qualquer analista. Discordo claramente desta tese pois, quem costuma ler os meus artigos, sabe o quanto sou crítico em relação àqueles que escrevem sobre Bolsa sem nunca terem negociado. A experiência no mercado é essencial para se fugir às explicações banais e para se tentar perceber o que está, de facto, na génese de determinados movimentos. Impedir que os analistas possam negociar faria empobrecer ainda mais a qualidades das análises publicadas.

Obrigar a que se divulgue as posições detidas sobre os activos em análise parece-me essencial para dar mais credibilidade e transparência às análises. Os investidores agradecem e, um dia, todos os analistas agradecerão também.

Ulisses Pereira
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