Amo-te, querida acção

Colecção de Artigos Didácticos do Caldeirão de Bolsa.

Amo-te, querida acção

por Ulisses Pereira » 15/2/2008 4:06

“Não te quero sequer ver. Amo-te muito. Não há nada que se possa fazer. Tudo é a mesma coisa que nada e nada me apetece senão estar assim contigo. Sem te ver. “
(in “Muito, meu amor”, Pedro Paixão)

Um grande amor pode ser entusiasmante e dar um novo sentido à vida de qualquer pessoa, mas apaixonarmo-nos por uma acção pode ser extremamente penalizador para o investidor e comprometer o seu sucesso nos mercados financeiros.

Por mais estranho que possa parecer, frequentemente, os investidores criam relações sentimentais com as acções. Este género de sentimentos geralmente acaba por lhes trazer sérios dissabores pois, por instantes, perdem a noção de qual é o primordial objectivo de um investimento no mercado de capitais: Ganhar dinheiro.

Ou porque adoram os serviços que a empresa lhe presta ou porque no passado essa acção lhe proporcionou chorudos ganhos, alguns investidores apaixonam-se por uma determinada acção. Isto leva-os a tomarem as suas decisões de investimento, relativamente a esse título, mais com o coração do que com a cabeça, o que costuma levar a tomar decisões precipitadas.

Um dos erros geralmente cometidos por quem se apaixona por uma acção é não a vender na altura certa. Muitas vezes, racionalmente, o investidor acredita que chegou a altura certa para vender a acção, mas a sua ligação sentimental com esse título impede-o de vender, desrespeitando o seu método, o que costuma produzir maus resultados.

Há alguns meses atrás recebi um e-mail de um leitor que abordava essa questão e do qual vou transcrever parte do conteúdo pois ilustra bem como pode ser doentia e prejudicial esta relação de enamoramento por uma acção: “ Adoro a Sonae.com. É uma acção que me tem dado muito dinheiro e que penso ser uma das melhores do nosso país. Comprei-a a 5,2 euros e mantive-a em carteira durante um mês até a vender a 6,2 euros pois achei que a acção iria cair. O meu raciocínio estava certo pois, depois de uma subida rápida, passado umas sessões começou a cair, só que acredite que não me estava a dar prazer nenhum estar a olhar para as cotações sem a ter em carteira. Estava impaciente e recomprei-a a 6 euros. Agora já caiu cerca de 30% desde aí que era o valor que eu achava que iria corrigir.”

Penso que este e-mail reflecte bem o perigo de nos apaixonarmos por uma acção. Tal como no amor entre humanos, há a possibilidade de tal se tornar uma obsessão que nos faz fechar os olhos numa cegueira total, impedindo-nos de ver a realidade tal como ela é.

Obviamente, o inverso também é perigoso, ou seja, criar uma relação de ódio com um determinado papel - ou porque tem razões de queixa da empresa ou porque no passado teve fortes prejuízos com a acção – costuma levar alguns investidores a perderem excelentes oportunidades de negócio, por se recusarem a comprar uma determinada acção. Alguns chegam inclusivamente a abrir posições curtas sobre a acção (tentando ganhar dinheiro com a queda do título mas podendo perder dinheiro caso ele suba) quase numa atitude de vingança.

Separar as emoções dos investimentos é um princípio fundamental nos mercados financeiros. Como sempre gosto de frisar, mais do que a tendência dos mercados, a sua volatilidade ou o seu carácter imprevisível, aquilo que verdadeiramente dificulta o sucesso dos investidores em Bolsa é a capacidade para controlarem as suas próprias emoções.

Recordo-me, há muitos anos atrás, ter sido pessimamente atendido num dos maiores bancos da nossa praça e depois ter ganho uma aversão tal ao título que nunca mais fez parte da minha carteira, fazendo com que eu desperdiçasse óbvias oportunidades de negócio. Penso que são estas lições que nos fazem repensar a nossa forma de estar no mercado e se conseguirmos aprender com os nossos erros estamos a dar passos em frente rumo ao sucesso neste fascinante mundo dos mercados financeiros.

Paixões e amores podem dar histórias muito interessantes e fazerem os seres humanos muito felizes mas nunca no mundo da Bolsa.

Ulisses Pereira
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