O horóscopo da Bolsa

Colecção de Artigos Didácticos do Caldeirão de Bolsa.

O horóscopo da Bolsa

por Ulisses Pereira » 3/12/2007 13:32

“Price Target” é uma expressão muito familiar a todos aqueles que acompanham os mercados financeiros. As casas de investimento divulgam-nos, os jornalistas adoram-nos porque dão notícias bastante apelativas e os investidores ficam contentes porque têm referências sobre o que esperar de uma acção. Eu confesso que não sou um grande adepto dos “Price Targets”.

Penso que será conveniente esclarecer o que são “Price Targets”. São os preços que, quem faz essas análises, acredita ser justo para uma determinada acção, num horizonte temporal definido. O que se pretende saber é qual o valor de uma dada empresa, tendo em conta as perspectivas futuras da empresa e as condições macroeconómicas que a envolvem.

Geralmente, estes “price targets” são lançados por casas de investimento e que se propõem ajudar os seus clientes na análise do valor de algumas acções e na tomada das suas decisões. As análises são feitas do ponto de vista fundamental e com base em determinados pressupostos assumidos pelo analista que está a atribuir esse “price target”.

A minha primeira objecção em relação à credibilidade destas análises tem a ver com o facto da sua esmagadora maioria serem recomendações de compra. Um estudo efectuado em 2003 nos Estados Unidos mostrava que cerca de 90% dos “price targets” apontados pelas casas de investimentos eram superiores aos preços a que as acções estavam cotadas no momento da análise. Este fenómeno não é exclusivo das Bolsas americanas e, embora não tenha qualquer estudo efectuado sobre esta matéria, a minha observação empírica de 13 anos da praça portuguesa permite-me concluir que são raros os casos em que os “price targets” são inferiores aos preços do momento da análise.

Por que é que isto acontece? Estou certo que alguém me quererá convencer que a tendência natural de longo prazo dos títulos é ascendente, mas esse argumento não me parece suficiente para justificar este esmagador número de recomendações de compra, pois há períodos longos de descidas fortes (“Bear Markets”) em que me parece incrível como se pode emitir tantas recomendações de compra quando há sinais claros de que os mercados, nessas alturas, não são bom locais para se investir.

Isto leva-me a recuar uns anos atrás, até ao período entre 2000 e 2002, altura em que se viveu um dos maiores “Bear Markets” de que há memória, com muitas acções a caírem cerca de 90%! Durante, esse período, acham que a maioria dos “Price Targets” saíram abaixo do valor a que estavam as acções? Enganaram-se se o assim pensaram. As recomendações de compra sucediam-se, transformando esse período num dos maiores fiascos em termos de recomendações por parte das grandes casas de investimento.

Estes erros sucessivos vieram colocar em causa a credibilidade destas análises que, até então, eram consideradas quase intocáveis. Quando, em Março de 2000, a PTM atingiu o seu máximo histórico nos 146 euros, várias eram os “price targets” muito acima deste valor, havendo um na casa dos 200 euros! A partir daí, a acção iniciou uma das maiores quedas de que há memória na nossa praça, atingindo os 5 euros.

Por que é que se cometem estes erros? Por que é que quase sempre as recomendações são de compra? Esta é, na minha opinião, a questão fulcral das análises das casas de investimento. Serão os analistas intrinsecamente optimistas? Será que os analistas escrevem aquilo que os investidores gostam de ler? Ou o que estará em causa são as relações entre as casas de investimentos e as empresas com as quais, muitas vezes, têm ligações comerciais?

Nos Estados Unidos, a SEC (entidade que supervisiona o mercado norte-americano) concluiu que algumas casas de investimento detinham relações comerciais com algumas empresas e que obtinham benefícios (como, por exemplo, serem responsáveis por futuras dispersão de capital em Bolsa) por recomendações de compra que faziam a determinadas acções. É evidente que apenas uma minoria de analistas não serão honestos. Como em todas as profissões, há gente boa e má, mas estes episódios vieram levantar dúvidas sobre a justeza destas análises.

Finalmente, gostaria de referir um dos aspectos que me levam a dar pouco valor aos “price targets” e que tem a ver com a sua constante alteração, em função da variação do preço das acções. É frequente assistirmos a revisões de “price targets” quando o preço da acção começa a atingir o anterior, pelo que as casas de investimento temem ser ultrapassadas pelo mercado e aumentam esse “price target”.

Se fossem analistas técnicos a alterar a sua análise, fazia sentido, uma vez que eles reagem em função das flutuações do preço da acção. Mas quem lança esses “price targets” são analistas que se baseiam na análise fundamental e, na maior parte das vezes, os fundamentais (da empresa, do sector e da economia) não se alteraram, pelo que não faz qualquer sentido fazer essa alteração. E podem crer que muitas das vezes ao ler essas revisões, sinto que se mexeram em algumas variáveis apenas para justificar essa revisão e não porque essas variáveis tenham tomado outro valor.

Por estas razões mas, sobretudo, pelo enorme fiasco que foram as análises efectuadas nos últimos anos, não dou valor à maioria dos “price targets” que são lançados. Arrepio-me quando recebo mails de alguns investidores a dizerem que compraram esta ou aquela acção por causa de um determinado “price target”.

Eu cada vez mais olho para os “price targets” como olho para o horóscopo. Não acredito mas leio sempre…

Um abraço,
Ulisses
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por redhot » 3/12/2007 13:43

Eu acho que cada vez há menos margem de manobra para lançamento de PT's sem fundamento.

A internet rápidamente divulga os pt's das casas de investimento. E a boa e má fama dos analistas também rápidamente se divulga.

Pelo que os analistas penso que tenderão a ser mais cautelosos.

Até já existem analistas que medem a qualidade dos pt's que são lançados. Em breve deverá aparecer um ranking de qualidade de pt's. Assim conseguiremos analisar com rapidez os pt's mais e menos realistas.

Cada um de nós tem as suas bd's com os pt's e conseguimos chegar a várias conclusões consoante a casa de investimento.

É só uma opinião.
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e

por jepe » 3/12/2007 13:47

e sempre um prazer ler os teus posts.
de facto a maioria das pessoas clientes das instituicoes financeiras, e muitas vezes os proprios funcionarios e gestores de clientes aconselham os mesmos em funcao dos price targets ( nao com ma intencao, mas muitas vezes porque eles proprios se regulam pelos analistas internos). e claro.. sempre aconselhamento de compra. Sao estas informacoes que tornam muitas vezes o mercado accionista confuso e pouco credivel para investimento por parte de um cliente vulgar .
cumprimentos
 
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por Ulisses Pereira » 3/12/2007 13:47

Red, mas há 7 anos atrás a Internet tinha a mesma força que tem hoje, sobretudo nos Estados Unidos. Aliás, na altura havia mais sites financeiros e mais fóruns nos Estados Unidos do que havia hoje. E nem isso impediu de termos assistido a uma catadupa de price-targets que se vieram a revelar completamente ridículos e desajustados. Acções cotadas a 14 com PT de 30 e que já faliram, etc...

Muitos desses analistas cairam em descrédito, alguns foram até alvo da chacota geral. O curioso é que, alguns anos depois, regressaram e já ninguém se recorda deles. :)

Quanto a esse "ranking" há anos que esse trabalho existe nos Estados Unidos.

Um abraço,
Ulisses
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por Elias » 3/12/2007 14:19

Olá Ulisses,

Concordo com tudo o que escreveste (excepto com a parte de ler o horóscopo - eu não acredito e não leio de todo 8-) )

1 abraço,
Elias
 
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por Nico » 3/12/2007 14:50

Excelente post! :clap:

Sou novato e ainda tenho muito para aprender, mas esta história dos PT's nunca me convenceu. Sobretudo devido às discrepâncias "profanadas" pelas casas de investimento...

Apenas quando a forma de cálculo para atribuição dos PT's for a mesma, assentar numa premissa comum ou existir alguma base de regulação (se é que é possível), haverá (da minha parte) alguma credibilidade nos PT's...

Abraço
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por redhot » 3/12/2007 17:44

A qualidade dos pt's é sem dúvida fundamental. E essa para mim é que é a questão de fundo.

O Buffett por exemplo, quando compra acções não o faz por acaso. Realiza os seus PT's com uma projecção temporal.

E só compra quando essa projecção futura do preço lhe dá no mínimo a rendibilidade que ele quer.

A questão é que ele sabe fazer os cálculos...E muitos analistas qua andam por aí não sabem. Ou lançam PT's por estarem "entalados" em determinadas acções.

Talvez por isso é que o Buffett é milionário...
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por artista_ » 3/12/2007 18:13

Eu acho que não se pode comparar os PT's com o Buffett...

As casa de investimento acompanham títulos para dar informação a clientes mas eles ganham em função dos negócios e os PT's estimulam os negócios porque muitos investidores compram e vendem em função deles... não quer dizer que eles investissem num título porque lhe deram um PT mais alto que a sua cotação...

E aqui é que me parece está o problema, e o Ulisses também falou mais ou menos disso, quanto a mim os PT's servem sobretudo para estimular o negócio e por isso é importante dar PT's acima das cotações...

Outro (possível) problema é que por vezes surgem PT's que me parecem desfazados da realidade, claro que é apenas a minha opinião e até pode ser que seja eu que esteja enganado mas... o caso dos PT's iniciais da Galp, que me fartei de criticar, são um caso desses, sinceramente parecia-me que estavam a lançar aqueles PT's para o maior número de pequenos investidores vender... mas enfim, eu nem costumo ver teorias da conspiração nos mercados mas este ficou-me registado, depois logo se vê :)

Bons negócios
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por Canis Lupus » 3/12/2007 18:14

Sr. Ulisses ,

O senhor sabe que os PT fazem parte do jogo especulativo que se gera à volta da Bolsa .Neste jogo em particular , o seu obice , são as subidas . Embora as descidas sejam cada vez mais uma realidade de ganho potencial , para a esmagadora maioria dos investidores particulares , são as potenciais subidas que os atraem .

Que investidor compraria acções quando todos os PT dissessem que estas vão cair ?!
Não é à toa que surgem sempre muitos novos investidores/curiosos da Bolsa , quando as noticias de "subidas " e "privatizações de sucesso " ( que não é por acaso que ocorrem em periodos de subida generalizada , como o senhor sabe ) invadem os media .

Por outro lado, numa época de subida generalizada, são muuuito poucas as casas de investimento que emitem PT`s pouco ou muito abaixo das cotações actuais . As que as fazem chegam inclusivé a cair em descrédito . Em parte , porque a tendencia é de subida e , mesmo que a análise seja séria, corre o risco de falhar , porque a tendencia geral é de subida e a empresa analisada, mesmo não tendo o valor real de cotação , supera-o devido à tendencia .

Por isso , eu acredito que as próprias Casas de Investimento , na pessoa dos seus Analistas , corra o risco de se verem "obrigadas a seguir a tendencia " nas suas análises .
Isto é ,se uma Merryl Linch diz hoje que a Sonae vale 1,25 Euros ( mesmo que valha em termos "strictus senso ") numa época de subida generalizada , e a Lisbon Brokers diz que vale 2,75 Euros , esta ultima corre o risco de ser levada mais a sério , uma vez que a tendencia dos investidores em geral e dos Mercados é que o segundo alvo seja "mais naturalmente " atingido do que o primeiro .

Um analista que analise a Galp e diga que ela vale neste momento , e baseado na sua Análise Fundamental , uns meros 7,55 Euros , corre o risco de não ser levado a sério . Da mesma maneira que o mesmo analista, se dissesse que a Galp valia 19,00 na altura da privatização , ganharia automaticamente um lugar na Sala de Análise de Jornais de Emprego .

Os PT incorporam hoje , na minha opinião ,muita da que é a expectativa do Mercado em geral não se restringindo à pura análise dos numeros . Dái vermos casas a dar um PT hoje e na semana seguinte , porque saiu uma noticia ou facto relevante , um outro muito diferente . A empresa passou a valer mais ?! Talvez não, mas as expectativas dos investidores, fazem-na valer mais .

Talvez por isso se sinta às vezes um "gosto de manipulação" em termos de PT`s ...

...coiso ,

Canis Lupus
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por nunoand99 » 3/12/2007 21:17

Bom...

Eu acho que os "price targets" são importantissimos.

Claro que construo os meus, em vez de usar os dos outros.

Todo o meu sistema de trading se baseia nas projecções que faço.

Aliás, só tendo uma projecção para um determinado prazo temporal se poderá obter uma rentabilidades esperada que servirá para fazer compração entre diversos tipo de investimento e assim tomar a decisão mais racional.

Quanto aos price targets serem revistos acho que é normal.

NO mínimo sempre que saiem resultados, visto que estes poderão ser melhores/piores do que o projectado.
 
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por Woodhare » 3/12/2007 21:53

Quando comecei a investir guiava-me pela média dos price-targets. Hoje felizmente tenho os meus critérios na decisãp de investir e o price target é irrelevante. Embora os "leia".
Na prática tem-se visto como os price targets muitas vezes são usados por quem os emite para reduzir ou reforçar aumentando o target ou baixando-o.
Faz o que eles fazem e não o que eles dizem.
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por Larama » 4/12/2007 0:07

clap clap clap

Este senhor Ulisses e qualquer coisa!
Não poderia concordar mais com a sua opinião acerca de hipoteticos preços futuros actualizados a semana quando a coisa fica mais euforica!

São posts assim que me relembram o porque de assiduamente acompanhar este belo espaço, so faltam as cervejinhas, a ver se o patrocinador novo se chega a frente!

Um grande abraço
Dizem que há para aí quem use umas meretrizes... - Edgar Cardoso
 
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por curvedair » 4/12/2007 1:24

logo no segundo paragráfo da mensagem de Ulisses, define-se o que é um price-target. Creio que tendo sempre em mente a sua definição, evitar-se-á sempre de cair nas tentações que esse valor poderá causar.

Deve-se ter sempre presente que um price-target ou preço-alvo, não é um valor que pretende reflectir uma realidade. Antes pelo contrário, como é gerado por aspiração; cheio de pressupostos restritos, considerações optimizadas e cálculos de algumas variáveis, o resultado é um valor que é irrealista, utópico.

Quem determina e muitos que lidam com esses price-target sabem qual o seu conteúdo e o seu valor. Para muitos outros, quando os vêm facilmente caiem no seu encanto.

Não será de espantar também que se procure atribuir um price-target como uma função, tipo farol. Isto é que leve o mercado a reagir em consonância e em direcção a esse valor atribuído.

O que despoleta um potencial comprador a dicidir-se é saber que o valor da compra é superior ao valor do que está comprar.

Então, um price-target mais alto que a cotação de uma determinada acção, é um autêntico trigger para comprar ou tomada da sua decisão. Seja a atitude correcta ou não.

Em remate, a valorização de qualquer price-target estará ao critério de cada um, dependendo de cada caso concreto e particular.
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por Ulisses Pereira » 4/12/2007 14:19

Obrigado a todos pelas respostas.

Sr. Canis Lupus, mesmo quando escreve a sério escreve bem :)

Nunoand, eu não disse que os investidores não deviam definir os seus próprios preço-alvos. A minha crítica neste artigo é focalizada nos price-targets das instituições financeiras. Cada um desempenha o seu papel neste Grande Circo dos Mercados...

Um abraço,
Ulisses
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por pedromrsll » 14/5/2008 14:50

...apenas porque vale a pena ler e reler este topico.

BN
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por CerealKiler » 14/5/2008 19:12

pedromrsl Escreveu:...apenas porque vale a pena ler e reler este topico.

BN


grande desenterranço...mas actual :wink:
 
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por andgher » 14/5/2008 19:59

Viva a todos,
a qestão que eu quero aqui colocar é a seguinte:
- De acordo com as vossas experiências, quando determinada empresa decide em assembleia geral pela aquisição e alienação de acções próprias, esse facto poderá impulsionar grandes movimentações e até oscilações no mercado, certo?
Gostaria que me dessem algumas dicas baseados em factos concretos e experiências de situações passadas, sendo que neste caso se trata da Lisgráfica, que poderá num futuro próximo vir a decidir-se pela realização referida.
Grato a todos pela vossa atenção.
 
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por andgher » 14/5/2008 22:23

- De acordo com as vossas experiências, quando determinada empresa decide em assembleia geral pela aquisição e alienação de acções próprias, esse facto poderá impulsionar grandes movimentações e até oscilações no mercado, certo?
 
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Merrill Lynch exige 20% de recomendações de venda

por pedromrsll » 15/5/2008 10:42

...nem de proposito.

A questão das quotas, depois de ter chegado aos parlamentos e aos governos, parece ter chegado ao price targets :lol:

http://www.jornaldenegocios.pt/default. ... tId=317411
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por DC89 » 17/8/2008 22:09

Manuel Caldeira Cabral
Profecias que se auto-realizam

Price Target



A CMVM sugeriu maior cuidado na divulgação dos relatórios de análise das empresas cotadas. Tem razão. Há demasiados conflitos de interesses entre as entidades que fazem as recomendações de compra e venda e as empresas analisadas. Os dados revelados à imprensa são incompletos, tendo por vezes intenção de fazer com que o mercado cumpra previsões feitas por encomenda.

As tragédias gregas usam a figura do oráculo para dar ao público a premonição do final infeliz que anunciam. Mas, demasiadas vezes, o desfecho apenas acontece porque os personagens conheciam a profecia. É o caso de Édipo que mata o próprio pai, ou de Oreste que mata a mãe, cumprindo profecias que se não tivessem sido feitas não teriam dado origem aos trágicos desfechos das ditas peças.

O mercado de capitais português também joga este jogo perigoso. Os oráculos (bancos de investimento) vendem a informação detalhada sobre os riscos e valor das empresas cotadas aos seus clientes (grandes investidores), que compram o que está barato, ou vendem o que vai descer. Depois os mesmos analistas vêm dizer ao mercado em curtas notas de "research" para comprar ou vender, muitas vezes sem explicar de forma detalhada quais os fundamentos ou riscos envolvidos. Se o mercado seguir o seu conselho, a sua profecia acaba por se realizar. E os seus clientes ganham, pois compram primeiro o que a seguir sobe, por vezes apenas porque os oráculos conseguem vender a ideia de que vai subir.



Os jornais quando noticiam recomendações de compra e venda de acções com base em apenas parte da informação a que os grandes accionistas têm acesso e com um atraso de vários dias, estão a alimentar este círculo nada virtuoso. Quem perde com esta situação são os pequenos accionistas, que não tendo mais ou melhor informação, seguem estas recomendações alimentando a onda de subida ou descida, mas por vezes pouco beneficiando da mesma.



O problema é ainda mais complicado, pois muitas das análises citadas são feitas por entidades envolvidas com as empresas que avaliam. Demasiadas vezes existem sérios conflitos de interesse. Este é um ponto salientado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) nas suas recomendações, onde alerta os investidores a estarem atentos à: "existência de relações e circunstâncias susceptíveis de prejudicar a objectividade da recomendação", nomeadamente "a existência de participações qualificadas detidas pelo autor da recomendação ou pela empresa para que trabalha, a sua participação em contratos de consórcio para assistência ou colocação dos valores do emitente", ou a "existência de acordos materialmente relevantes entre o emitente e o autor da recomendação relativos a prestação de serviços bancários". Recomendações genéricas que têm por base uma realidade em que demasiadas notas de research carecem de independência.

Quando quem analisa também é pago (por outros serviços) pelas empresas sobre as quais faz notas de research é muito provável que os resultados que divulgue sejam demasiado favoráveis. Não é por acaso que dos 861 relatórios feitos em 2007, 48% fossem de compra e apenas 19% de venda. Era interessante saber qual foi a evolução da cotação depois dessas 420 recomendações de compra, nomeadamente saber se quem fez estes investimentos têm hoje mais valor. Ou mesmo se estes papéis tiveram uma evolução melhor que o mercado.

Não está em causa a importância de haver bons analistas para a maturidade do mercado. Mas é talvez chegado o momento de começar a separar o trigo do joio entre os que fazem análises sérias e os que divulgam preços-alvo por encomenda.

A recomendação da CMVM aos intermediários financeiros de que divulguem o histórico das recomendações de investimento elaboradas e publicitadas nos últimos 12 meses, com informação relativa à data de divulgação da recomendação, o preço-alvo e "a identificação do analista que emitiu a recomendação e a análise dos desvios dos preços-alvo face aos preços de mercado verificados", pode ajudar a disciplinar o mercado, fazendo com que analistas menos independentes (ou menos competentes) percam a credibilidade. Aos jornalistas a CMVM pede que quando referirem um preço-alvo, refiram também os anteriores e os desvios verificados.

Na realidade as medidas da CMVM vão muito para além das meras recomendações, deixam nas entrelinhas um conselho claro aos investidores, se derem demasiados ouvidos a estas premonições de encomenda, sem olharem aos oráculos que as fazem, os vossos investimentos podem acabar em tragédia.
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por jpv28 » 17/8/2008 22:44

Só falta a parte do Governo, que permite a entrada de investidores institucionais nas grandes empresas e que depois realizam muitas ++++valias. Veja-se o caso Amorim, que com a Galp passou a ser o +rico de portugal :mrgreen: :mrgreen: :mrgreen:
 
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por pata-hari » 17/8/2008 23:02

Bem metido, sect!!

Embora eu confesse que não acho que desta vez o Caldeira Cabral tenha dito algo de novo e esqueceu-se que os bancos são também vítimas desse processo. Quando os researchs lhes chegam, já passaram pelo banco que o emitiu, já passaram pelos clientes importantes e quando chegam a outros bancos já parte do movimento que o mesmo pode provocar, aconteceu. Por isso mesmo é preciso ser capaz de entender os researchs e de ter um olho crítico para saber em que condições concordamos, com o quê discordamos nas análises e ser capazes de pensar com a nossa própria cabeça sem ter a continua necessidade de muletas.
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por corvo47 » 17/8/2008 23:43

A prepósito de Price targets, para quem não tenha dado por ele, aqui vai o último artigo de opinião do DR. no JN.

Fernando Braga de Matos
"Price targets"e irritação

Estando em Moledo, em férias "super-absolutas" (julgava eu), a ler o Foreign Affairs e, principalmente, a olhar para as moscas, recebi um golpe de telemóvel. Ainda pensei em não atender, mas como podia ser a minha mulher em missão de controle, cogitei que a emenda podia ser pior que o soneto.

Estando em Moledo, em férias "super-absolutas" (julgava eu), a ler o Foreign Affairs e, principalmente, a olhar para as moscas, recebi um golpe de telemóvel. Ainda pensei em não atender, mas como podia ser a minha mulher em missão de controle, cogitei que a emenda podia ser pior que o soneto.

Agora que o suspense está criado, revelo que a chamada era da eficientíssima Elisabete, minha "controleira" do Jornal de Negócios, a informar, em voz Stasi e com síndrome Titanic, que a minha crónica não tinha chegado.

Fora de casa, fora de computador, sem uma ideia na cabeça, vi-me na contingência de escrever alguma coisa sem erros de ortografia e sintaxe em três horas. É verdade, irmãos, 3 horas! "Chuveirei-me" e corri para o "cybercafé", rezando.

Apesar do meu agnosticismo, para que o computador estivesse desocupado. (Nota. O suspense adensa-se: chegará F ao "cyber" e apanhará vaga? E se sim, que tirará da área nobre do seu cérebro?).

Enquanto eu ia proferindo palavrões mentais pelo caminho, a tentar arranjar o essencial de qualquer crónica - tema - ocorreu-me, num fulgor de língua de fogo, que assim, irritado, só podia escrever sobre coisas que me pusessem fora de mim.

Ainda pensei no famoso Allgarve, que o ministro Manuel Pinho inventou para "bifes" e "camones", mas depois veio ao de cima o tema que normalmente me deixa com urticária: "price targets", esse grande engodo do pobre investidor individual crédulo. So far so good!

Hoje em dia os "price targets" invadem as páginas dos jornais, mesmo não económicos, inclusive este insigne órgão informativo, o JN.

Lembro-me perfeitamente do primeiro comentário demolidor sobre os ditos "alvos", e era de Samuelson, O Samulson, O do Nobel, e ele aconselhava os que a tal tarefa se dedicavam a contribuir para o PIB, preferentemente, a ensinar grego - com mais uns comentários de igual jaez ácido. Já lá vão 20 anos e cá em Portugal nem se sabia o que era "price", quanto mais "target".

Mas eu andava em estudos e a curiosidade intelectual era enorme (aliás, daqui resultou o meu "Ganhar em Bolsa"), pelo que fui continuando. Samuelson era conhecido pelo seu mau feitio e escrita hiperbólica quando fora da zona académica. Por isso, procurei alguma coisa com mais "valium".

Ora, por essa altura passou-me pelas mãos o "Barron's" com uma entrevista a já não sei quem famoso, que iniciara a sua carreira de gestor de Fundos, como analista de uma conhecida casa financeira. Por falta do titular, incumbiram-no da análise nada mais nada menos que da IBM e a metodologia a seguir era a dos "cash flow" futuros, com um modelo que incluía um PER previsional de sofisticada fórmula de cálculo.

Ora, estando a IBM a 150 (se bem me recordo), o cálculo do nosso analista dava um preço previsional, a um ano, de 300, o que ele achou de todo impossível.

Lá fez aquele percurso penoso ao gabinete do "boss", contou-lhe o drama e, num ápice, recebeu a solução: "Olhe, ponha 200."

Como diria Octávio Machado, vocês, neófitos investidores que têm visto no último ano o deboche dos "price target", "vocês bem sabem do que eu estou a falar".

Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed D Quixote) e "Bolsa para Iniciados" (ed, Presença, no prelo).
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In JN, artigo de opinião

por bullsista » 18/8/2008 11:40

Camilo Lourenço
A credibilidade do "research"
camilolourenco@gmail.com

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Carlos Tavares não está satisfeito com os "relatórios" de research das casas de investimento, que qualifica de "folhinhas diárias" destinadas a "criar negócio". Por outras palavras, um departamento (normalmente de um banco) divulga uma recomendação e o do lado factura as ordens dadas pelos investidores.

Exagero? Não. Quem comparar as notas feitas em 2007 e 2008 com a realidade, sofre um duro choque: grande parte falhou. Redondamente. Se assim é, como moralizar o sistema? A CMVM propõe, à imprensa, regras para divulgar este tipo de informação: evitar que os títulos (das notícias) se limitem ao preço-alvo, divulgar eventuais conflitos de interesses dos autores, recomendar a leitura completa da "nota", etc. Chega?

Provavelmente não. Porque há instituições que vão manter as más práticas (o lucro associado à compra e venda de títulos fala mais alto), embora a gravidade da acusação da CMVM aconselhe o contrário.

Que fazer então? Nós (a imprensa) precisamos de ser mais duros do que sugere a CMVM. Para responsabilizar os responsáveis pela informação. Por exemplo, fazer, de três em três (ou de seis em seis) meses, um balanço entre os "price-targets" e a cotação real dos títulos. Se a vergonha não chegar para que as instituições melhorem a informação, há uma solução mais radical: deixar de divulgar as "notas". Tal como acontece na melhor imprensa estrangeira.

http://www.jornaldenegocios.pt/index.ph ... &id=327754
Abraços e bons negócios
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por RMBA » 20/11/2010 2:39

engraçado ler este artigo quando a minha tese é sobre herding... :lol:

edit: só agora reparei que o topico já é de 2008
 
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